domingo, 18 de outubro de 2015

LEITURAS 2015 - XXXVIII - "O CORAÇÃO É UM CAÇADOR SOLITÁRIO" - CARSON McCULLERS


Quando apanho um livro destes é como se entrasse num outro mundo, numa outra época, numa outra vida. 

Este é um livro de sofrimento, um livro de solidão, um livro que me agarrou como se estivesse dentro daquela cidadezinha do sul profundo dos Estados Unidos, no final dos anos 30 e quando os os efeitos da Grande Depressão ainda se fazem sentir. 

E ali conheço John Singer um surdo que vê a sua vida transformar-se completamente quando o seu amigo, igualmente surdo, Spiros Antonopoulos, é internado num hospício que dista 300 e tal kms. da cidade onde viviam. John Singer é uma personagem marcante desta cidade pois todos o procuram para falar das suas inquietações, dos seus medos, frustrações, e a todos John Singer impressiona...

Gostei imenso deste livro. Personagens fantásticas cujas vivências nos proporcionam um retrato da América durante a Grande Depressão, da fome e da miséria, conflitos raciais e uma solidão profunda que se sente ao longo deste grande livro.  


Carson McCullers - EUA - 1917 - 1967

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

LEITURAS 2015 - XXXVII - "O NAUFRÁGIO DO TITANIC" - JOSEPH CONRAD


Quantas vezes, depois de ter visto o filme, eu coloquei a mim próprio as questões que Joseph Conrad aborda neste pequeno livrinho (68 páginas), relativamente ao afundamento do TITANIC (14 de Abril de 1912), como por exemplo o facto de um grande bloco de gelo ao roçar pela lateral do navio conseguiu afundá-lo em menos de trinta minutos, um navio que afinal, quando foi construído, foi considerado inafundável. E como é que um navio com mais de dois mil passageiros, não possui botes salva-vidas suficientes para os passageiros e tripulação que transportava.



É um livro que não nos dá respostas mas põe-nos a fazer perguntas, que é isso, afinal, que os livros nos deverão proporcionar, como disse recentemente um grande conhecedor e amante de livros (Alberto Manguel).

Este livro reúne artigos que Joseph Conrad escreveu sobre o naufrágio e que foram publicados nos meses a seguir à tragédia em "The English Review". 


Joseph Conrad - antigo marinheiro - Ucrania 1857 - 1924 Grã-Bretanha

sábado, 10 de outubro de 2015

LEITURAS 2015 - XXXVI - "O PREGADOR" - ERSKINE CALDWELL

Erskine Caldwell - EUA - 1903 - 1987
Este excelente livro, autografado pelo autor, é uma 1ª. edição de 1959 (da Editora Portugália) que me foi emprestado por um amigo.É uma preciosidade!

A experiência humana que ERSKINE CALDWELL nos relata em "O PREGADOR" foi, em grande parte, acumulada nos seus anos de infância podendo até parecer que será uma espécie de auto-biografia.
O pai do futuro grande romancista era daquele tipo de pregadores errantes, sempre a peregrinar de terra em terra. O filho acompanhava-o e tão assiduamente que só aos catorze anos conseguiu vida sedentária que lhe permitisse aprender a ler.

E foi o seu espírito observador (apesar da sua tenra idade) que lhe permitiu mais tarde criar este espantoso pregador (Semon Dye), dividido entre entre os irresistíveis apelos da bebida, as fraquezas inadiáveis da carne, aquela ânsia de dinheiro que o leva a embolsar tudo quanto lhe passa ao alcance da mão. 

A obra de Caldwell é um panfleto contra a miséria e a degradação do homem do Sul, negro ou branco.

"O PREGADOR" é um livro que nos introduz numa outra América totalmente diferente dos manuais de turismo e dos encantos de vida das grandes metrópoles, uma América rural e rude que vale a pena conhecer através deste grande livro.


terça-feira, 6 de outubro de 2015

LEITURAS 2015 - XXXV - "SÓ SE MORRE UMA VEZ" - RITA FERRO


Para alguma surpresa minha RITA FERRO não consegue esconder (certamente que nem será essa a sua intenção), ao longo das páginas deste diário as suas origens ligadas ao antigo regime e, sobretudo, às famílias que durante mais de quarenta anos dominaram Portugal. Revela-se até algo retrógrada e saudosista dum tempo que não deixou saudades à maioria do povo português. Obviamente que tal facto não impediu que eu tivesse gostado de a ler, porque se revela uma mulher transparente e humana e, sobretudo, não me parece nada calculista (qualidade que aprecio). 

"SÓ SE MORRE UMA VEZ" é um diário que nos revela situações absolutamente simplistas e, por vezes, demasiado fúteis; por isso se lê como se lê uma qualquer revista cor de rosa.

Com todo o respeito e sem qualquer intenção de demérito para a escritora Rita Ferro ou para os seus livros, não posso no entanto deixar de confessar que, com tanto livro bom que eu tenho para ler, não sei quando voltarei a ler um de Rita Ferro. 
Foi o primeiro, de qualquer modo, não sei, se terá sido o último.

Contudo, tento não perder às quartas-feiras na Antena Um, entre as vinte e três e as vinte e quatro horas, a sua conversa sobre livros no programa "a páginas tantas". 



sexta-feira, 2 de outubro de 2015

LEITURAS 2015 - XXXIV - "AS LEIS DA FRONTEIRA" - JAVIER CERCAS


Na quase totalidade das minhas leituras é logo no começo de um livro (no máximo à página dez) que tenho a imediata sensação de estar perante um grande pastel ou a começar um grande livro; pois foi isto que precisamente me aconteceu - "AS LEIS DA FRONTEIRA", do espanhol JAVIER CERCAS, é um bom livro -.

Este romance conta a história de Ignácio Canas, alcunhado de GAFITAS, devido aos seus óculos, que nos seus primeiros anos de escola é gozado por todos, nomeadamente pelo seu algoz (Batista). De repente pensa que há-de mudar de vida e tentar pôr fim aos seus sofrimentos na escola e às constantes perseguições de que é alvo. E toda a sua vida muda quando se envolve com Zarco (um mito, tipo "Robin Hood") adolescente cabecilha de um gangue que o viria a recrutar...

Excelentes personagens e excelentes descrições do que são os outros.

Não deixei de anotar algumas das várias situações, que me pareceram interessantes, referidas ao longo do livro:

-"um advogado não pode ser bom se não for capaz de, de vez em quando, pôr de lado os escrúpulos morais." 

-"a arrogância esconde um sentimento de inferioridade"


Javier Cercas - escritor espanhol (n. 1962 em Cáceres)

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

LEITURAS 2015 - XXXIII - A CONFRARIA DO VINHO - JOHN FANTE


Foi há cerca de um mês que tinha lido quase num só dia "Pergunta ao Pó" de John Fante e por isso voltei a este notável autor americano, com o excelente "A CONFRARIA DO VINHO", um romance claramente autobiográfico, que é uma evocação e reconstrução da rude figura do pai, um italiano pobre, imigrado no Colorado, que assentava tijolos com brio de escultor e vivia entregue à bebedeira constante, às permanentes infidelidades à mulher e ao quase desprezo pelos filhos, o que muito marcou o escritor, para sempre.

Fante, à imagem de Knut Hamsun (escritor norueguês, Nobel da Literatura em 1920), que muito admirava, teve uma vida duríssima: passou fome, vagabundeou sem descanso, viveu em sórdidos moteis, envolveu-se com as mulheres erradas, trabalhou, entre muitas outras profissões exercidas, numa fábrica de conservas. Desta vida instável se reflectiu a sua vida literária, daí a sua produção ter sido tão escassa.  
John Fante - 1909 Denver, Colorado, EUA - 1983


John Fante tem uma escrita pura e dura. Personagens incríveis que nos abanam e nos obrigam a pensar, a principal função de um livro, na minha perspectiva.E todos os seus livros que já li até agora me agradaram.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

INFORMAÇÃO/CONHECIMENTO


No café/bar. A servir diariamente ao balcão (nas horas que o frequento) está uma rapariga (familiar do gerente) de dezanove/vinte anos, estudante (nas horas vagas)...

Na porta das casas de banho, a dos homens está identificada com uma moldura com uma foto de um famoso actor de cinema dos anos 40/50 (Gary Cooper) e na das mulheres a foto de uma das maiores actrizes de sempre, sex-symbol, dos anos 50, Marilyn Monroe. 

Pergunto à rapariga, que normalmente me atende, se sabe quem são os actores das fotos da porta do WC.

- Não sei
- Identifico-os e digo-lhe da sua importância à altura do seu apogeu
- Não sabia, nem nunca tinha ouvido falar nem dele nem dela, é que não fazia a mínima ideia (...nem mesmo aqui revelou curiosidade em saber).  


Marilyn Monroe - EUA 1926 - 1962 - actriz, cantora e modelo

Sinceramente que não fiquei escandalizado que os não conhecesse (nem tão pouco fiquei sequer admirado) mas o que mais me impressiona nas pessoas (seja jovem ou não) é a total falta de curiosidade, a falta de interesse de aprender, de saber, de conhecer e, no caso presente, ainda por cima uma foto que ela encara diariamente e a todo o instante. Como é possível que nunca tenha revelado a mínima curiosidade em saber quem são aquelas personagens com quem todos os dias coabita?

Gary Cooper -EUA 1901-1961 - actor de cinema -Óscar de melhor actor (2 vezes)

Absurdo, mas é mesmo assim, é um sinal dos tempos. E contraditório até, já que actualmente toda a gente tem acesso a um mundo quase infinito de informação, mas afinal o conhecimento da maioria das pessoas é nulo; absolutamente impressionante a ignorância que a todo o instante revelam, em todas as matérias, mesmo as que no dia a dia fazem parte do nosso mundo. 

Deste modo, mais informação não conduz necessariamente a mais conhecimento!     

terça-feira, 22 de setembro de 2015

LEITURAS 2015 - XXXII - "A MANHÃ DO MUNDO" - PEDRO GUILHERME-MOREIRA


"Calcula-se que no dia 11 de Setembro de 2001, perto de 200 pessoas tenham saltado das torres gémeas. Um dos caídos, pelo menos, não era suicida -ou, se quisermos, não era um suicida óbvio- mas um homem que tentara descer do 90º. andar da Torre Norte. De fato e gravata, começou por agitar o casaco, pedindo ajuda, como se a urgência de ser socorrido não fosse evidente à vista de todos. Depois, com o auxílio de algo que parecia ser uma corda, ousou a descida. Ao fim de poucos segundos, o pé falha o parapeito, o homem desequilibra-se, cai no vazio. Aquilo que o fez julgar que seria capaz de descer de uma altura de centenas de metros com o auxílio de uma simples corda revela um desespero tão profundo como o daqueles que voluntariamente se lançaram do alto das Torres Gémeas. Nas filmagens, vemos braços a agitarem-se freneticamente ; e pessoas debruçadas às janelas, com quase todo o corpo do lado de fora. Quatro delas tentariam escalar o edifício, acabando por cair. Talvez para se encorajarem mutuamente, alguns saltaram aos pares e até em grupo, de mãos dadas. Houve quem tentasse utilizar pára-quedas improvisados, feitos de cortinas, toalhas de mesa ou peças de roupa entrelaçadas que se desfizeram em breves instantes de voo. Alguns, muito poucos, terão tropeçado e caído por acidente, enquanto caminhavam no interior do edifício entre escombros cortantes e densas nuvens de fumo negro. Outros terão sido projectados através das janelas em consequência de uma onda de calor superior a seiscentos ou mesmo mil graus centígrados."  (extraído da Revista Ler nº. 138). 



"A MANHÃ DO MUNDO" o livro de estreia do jovem escritor português PEDRO GUILHERME-MOREIRA é precisamente uma história sobre os que, no 11 de Setembro, saltaram das Torres Gémeas. Gostei, um bom romance sobre o medo e a coragem, o desespero e a lucidez, a culpa e a expiação.
É talvez um livro triste mas que nos permite pensar sobre a vida e sobre certas situações que criticamos sem saber concretamente dos factos que as geraram, como seja o facto de vilipendiar quem por desespero e pânico saltou das Torres Gémeas; como é possível alguém criticar semelhante acto em tais circunstâncias?


Pedro Guilherme-Moreira  -  1969 Porto

Este ("A MANHÃ DO MUNDO") é o segundo livro que leio sobre o 11 de Setembro um tema sobre o qual gostaria de saber mais do que efectivamente creio nos tem sido dado a conhecer. O outro livro que li sobre o tema ("102 Minutos"), foi escrito por dois jornalistas do "New York Times" (Jim Dwyer e Kevin Flynn) e é também excelente pois serve-se de uma enorme variedade de fontes -desde testemunhos directos a registos de telefonemas, e'mails, etc.-). 


sexta-feira, 18 de setembro de 2015

LEITURAS 2015 - XXXI - NÓS OS AFOGADOS - CARSTEN JENSEN


"NÓS, OS AFOGADOS" do dinamarquês CARSTEN JENSEN é um grande livro de aventuras e de personagens de toda a catadura. Narra a história da cidade portuária de Marstal, cujos habitantes se fizeram ao mar e navegaram pelo mundo inteiro a partir de meados do século XIX até ao final da Segunda Guerra Mundial. Por isso mesmo, no cemitério de Marstal quase só há mulheres e crianças porque durante séculos o mar não devolvia os seus mortos.

Aqui se contam as histórias de navios afundados e destruídos em guerras, de lugares de horror e violência que continuam a fascinar todas as gerações: aqui encontramos canibais, sonhos proféticos e sobrevivências miraculosas. O resultado é uma saga apaixonante, repleta de sabedoria e humor, de pais e filhos, das mulheres que eles amam e deixam para trás e da promessa assassina dos mares.  

Excelente livro cuja história se estende por quatro gerações, atravessando duas guerras mundiais e um século de história.

Também nele se fala de Portugal, quando um navio visitou Setúbal (logo a seguir à monarquia (1910)), eis a impressão dos marinheiros dinamarqueses sobre o nosso país:"Há sempre confusão por aqui. Eles criam algum caos e abatem-se uns aos outros. Dizem que querem mudança mas na próxima vez que se voltar cá, está tudo como sempre foi. É assim que eles são. Não dominam o seu temperamento e nunca fazem nada."

794 páginas cheias de acção, de conhecimento dos mares (e não só) que valeu a pena. Mais uma excelente descoberta.


   Carsten Jensen é um escritor dinamarquês nascido em 1952. Com este livro venceu em 2007
o mais importante dos prémios literários da Dinamarca.




segunda-feira, 14 de setembro de 2015

LEITURAS 2015 - XXX - "PERGUNTA AO PÓ" - JOHN FANTE


Mais um livro surpreendente da saga Bandini, uma personagem fascinante e duma dimensão por vezes odiosa e repelente, por vezes absolutamente verdadeira e adorável, que John Fante iniciou com o excelente "A PRIMAVERA HÁ-DE CHEGAR", continuando com o empolgante "ESTRADA PARA LOS ANGELES" e ainda com "OS SONHOS DE BUNKER HILL" (o único que ainda não li e por isso não o poderei cognominar) .

Este "PERGUNTA AO PÓ" de JOHN FANTE é a história de Arturo Bandini, um jovem aspirante a escritor recém-chegado à Los Angeles dos anos 30. Lutando pela dura sobrevivência diária enquanto sonha com o sucesso literário, Bandini vai-se deixando fascinar pelo sórdido da cidade até se envolver com a esquiva e temperamental Camila Lopez, uma empregada de bar mexicana. A paixão que a um tempo o arrebata transforma-se, pouco a pouco, numa destrutiva relação de amor-ódio que vai conduzir a um trágico desenlace.

"Pergunta ao Pó" é uma obra marcante de um mestre da ficção americana do séc. XX e foi adaptado ao cinema por Robert Towne que o classificou como o melhor romance alguma vez escrito sobre Los Angeles.    

John Fante - a loucura genial gerou um grande escritor!
EUA 1909 -1983 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

SALTARAM DAS TORRES GÉMEAS - (A BELA SUICIDA)


Calcula-se que no dia 11 de Setembro de 2001, perto de 200 pessoas tenham saltado das Torres Gémeas.

Precedendo os que saltaram no 11 de Setembro de 2001, Evelyn McHale de 23 anos, lançou-se, na manhã do dia 1 de Maio de 1947, do 86º. andar do Empire State Building de Nova York, depois de discutir com o seu namorado. Deram-lhe o nome da "Bela Suicida"

Um jovem estudante de fotografia que circulava no outro lado da rua, captou a imagem da rapariga jazendo sobre o tecto da limusina (Cadillac) de um mandatário das Nações Unidas. O motorista, que tinha ido a uma farmácia ali perto, escapou do impacto.

A polícia encontrou  dentro do casaco cinzento da bela mulher, um livro de bolso, alguns dólares e uma bolsa de maquilhagem com várias fotos de familiares e uma nota manuscrita que dizia: -"Ele está muito melhor sem mim...eu não seria uma boa esposa para ninguém".



quarta-feira, 9 de setembro de 2015

LEITURAS 2015 - XXIX - "conta-corrente" nova série I

  Vergílio Ferreira nasceu em Melo (Gouveia) em 28 de Janeiro de 1916
e morre a 1 de Março de 1996, estando sepultado em Melo. 
"conta-corrente" é um diário excelente, distribuído em nove volumes, que inicialmente deveria ter apenas cinco, mas que Vergílio Ferreira entendeu prolongar, com a publicação numa nova série, de mais quatro, totalizando assim esta escrita diarística: nove volumes.
Todavia, a este propósito escreve, neste volume I desta nova série, o próprio autor: "É absolutamente necessário deixar aqui expresso para mim mesmo que isto não é a continuação de "conta-corrente". O diário acaba no volume V. O que aqui vão são escorralhas do acontecer diário, pois que as "reflexões" vão no outro livro que escrevo também paralelamente a este e ao romance..."

Já os tinha lido todos há cerca de três anos mas resolvi relê-los e este que acabei de (re)ler nas férias é o primeiro da nova série (de quatro volumes). E como todos os anteriores é um retrato excelente de anos passados ainda muito próximos, este volume I desta nova série aborda o ano de 1989. Vale a pena ler pois ajuda-nos a perceber um rico pedaço da nossa história recente. obviamente que pela perspectiva do autor. 

Curioso como se esquece rapidamente um livro e daí me ter voltado a deliciar com esta escrita como se estivesse a ler o livro pela primeira vez. Escusado será acrescentar que gostei pois sou um apreciador desta escrita diarística deste grande escritor português. 

Por exemplo sobre quem lê e quem não lê escreve o autor a dado passo:
   -  Detesto absolutamente os livros deste tipo.
   -  Quais leu?
   -  Essa tem graça. Como queria você que eu os lesse, se os detesto? 

Com a mulher (Regina) e o filho (Gilo), em 1970


sábado, 5 de setembro de 2015

LEITURAS 2015 - XXVIII - "BILLY BUD" - HERMAN MELVILLE


Este pequeno livro (de cento e poucas páginas) é admirável!
Foi-me recomendado por um amigo com gostos de leitura semelhantes aos meus.

Relata-nos a vida de um jovem (Billy Bud) que é recrutado para a Marinha de Guerra e que no navio em que é incorporado vai lidar com os mais variados tipos de homens. Ele, que é um jovem bom e inocente, sem qualquer maldade, vai ser confrontado com todas as maldades, ódios e inveja de alguns homens que com ele convivem diariamente e que o vão trair e o irão conduzir à forca. -Quantas vezes um de nós não confiou cegamente numa pessoa e por ela fomos traídos e enganados?-

Billy, como outras pessoas que são essencialmente boas, tinha algumas fraquezas inerentes a esta bondade. Entre elas, a relutância, quase a incapacidade de dizer peremptoriamente não a qualquer proposta abrupta desde que esta não fosse obviamente absurda, desleal ou injusta.

"Billy Bud" "agarrou-me" da primeira à última página, é uma pequena pérola.

Herman Melville 1819-1891
Um grande escritor, nascido em Nova Iorque, que praticamente só depois de morto viu reconhecido o seu génio 


terça-feira, 1 de setembro de 2015

LEITURAS 2015 - XXVII - PATERNIDADE - DOMINGOS MONTEIRO




Curiosamente será nas férias que os leitores que lêem muito, aqueles que normalmente lêem em média um livro por semana, é nesta altura que efectivamente menos costumam ler; não sei qual será o fenómeno mas comigo sempre assim aconteceu.

Ora cá estamos então em Setembro e a todos desejo bom regresso e boas leituras.  

Voltamos e voltamos para falar do tema que aqui será certamente o mais abordado: livros.

Muito velhinho e muito amarelado do sol que parece ter apanhado, este "PATERNIDADE" de Domingos Monteiro (1903-1980), é o nº. 14 da excelente colecção de livros (miniatura) ANTOLOGIA DOS AMIGOS DO LIVRO, da Editorial Inquérito; comprei-o há uns anos (€ 1) num Alfarrabista em Lisboa, e foi escrito por volta de 1950.

Quando (no livro de leituras que possuo para ir anotando e tomando notas sobre os livros que vou lendo) quis pontuar este livro fiquei algo indeciso pois é um livro de uma outra época, com uma história algo ingénua e que parece absolutamente desfasada dos tempos que correm, não deixando no entanto, na minha perspectiva, de estar bem escrito.

Começa assim: "Eu conhecia há muito tempo o Dr. Silveira. Pequenino, magro, comunicativo, rira-me muitas vezes com as anedotas que ele contava ao seu numeroso grupo de amigos, na mesa ao lado do café que ambos frequentávamos..."

Contado na primeira pessoa (pelo seu amigo Antunes) narra a história de um filho nascido de um romance que o Dr. Silveira manteve com uma inglesa (Kitty), quando estudava em Coimbra, e que o Dr. Silveira não quis perfilhar. Assim, Kitty, magoada e desiludida, parte para Inglaterra levando consigo o filho de ambos -John-.

Entretanto, em Lisboa o Dr. Silveira dá um rumo à sua vida e casa com Lucília. E quando passam dez anos resolve ir à procura do filho rumando a Inglaterra para tentar localizá-lo. E aqui começa um grande imbróglio...

Não deixa de ser um livro interessante; apreciei o modo simples e directo do narrador, descrevendo muito bem a emoção de gente simples mas, ao mesmo tempo, a emoção dum ser de excepção como é o personagem principal deste livro (o Dr. Silveira).

Contudo, nota-se perfeitamente que será já uma literatura doutra época, não só porque após a sua primeira publicação já passaram mais de 60 anos, mas também pelo ambiente em que a acção decorre. Mas não deixa de ser, repito, um livro bem escrito de um escritor que desconhecia.

DOMINGOS MONTEIRO   advogado e escritor; Trás-os-Montes 1903-1980

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

sexta-feira, 31 de julho de 2015

LEITURAS 2015 - XXVI - "SEMPRE O DIABO"



Há quanto tempo não lia um livro que me "amarrasse" assim? 

Desde a primeira página que fiquei preso e agarrado a este livro -sente-se logo que estamos perante um imenso livro, daqueles que estamos sempre ansiosos e a espreitar a página seguinte-.

Na linha do excelente "FERRUGEM AMERICANA", este "SEMPRE O DIABO" é o primeiro romance de Donald Ray Pollock, com uma escrita que me arrastou da primeira à última página, sempre, repito, ansioso pela seguinte; um enredo muito parecido ao que leio nos livros das excelentes Flannery O'Connor e Joyce Carol Oates.

Personagens cruéis, vingativos a respirar ódio por todos os poros, ambientes negros e terríveis em que não há lugar a mais nada para além do ódio, da maldade, da vingança de pessoas sem objectivos na vida arrastando-se em situações que apenas visam a degradação das suas e das vidas dos outros que se encontram à sua volta e dos que vão encontrando pelo caminho. E assim vamos conhecendo o ser humano, porque esta gente existe. Até a alma me doeu!

Localizado no sul do Ohio e da Virgínia, a intriga de "SEMPRE O DIABO" segue um elenco de bizarras e magnéticas personagens, desde o fim da Segunda Guerra Mundial até aos anos 60. 

Willard Russel veterano da 2ª. Guerra Mundial, atormentado pela carnificina no Pacífico Sul, uma personagem magnífica e duma grandeza imensa mas que perante o cancro terminal da sua esposa entra, como se costuma dizer, em "parafuso". Decide criar na floresta perto da sua casa um altar de orações onde sacrifica animais, vertendo o seu sangue sobre o tronco das orações e criando um ambiente absolutamente lunático e que marcam profundamente o seu filho Arvin, um adorador da imagem e da personalidade do seu pai, pois assiste a cenas absolutamente marcantes do seu progenitor, cenas tão bem descritas que há muito tempo não lia um livro em que para além das palavras eu VI as cenas!  

Se "CANADÁ" de Richard Ford foi o livro que mais gostei em 2014, este "SEMPRE O DIABO" foi, dos que li até agora, o que mais me prendeu e o que mais me encantou em 2015.

FASCINANTE!

Donald Ray Pollock - 01.01.1954 - Knockemstiff, Ohio, EUA



quarta-feira, 29 de julho de 2015

A VOLTA A PORTUGAL EM BICICLETA 2015


77ª. VOLTA A PORTUGAL EM BICICLETA



Como se permite chamar VOLTA A PORTUGAL a uma "competição" que decorre apenas em metade do país? de Lisboa para sul não será Portugal?
enfim...é o vale tudo.

sábado, 25 de julho de 2015

LEITURAS 2015 - XXV - O BARÃO DE LAVOS - ABEL BOTELHO


Livro escrito há mais de cem anos pelo escritor português Abel Botelho, foi publicado em 1891, com grande escândalo dado o tema abordado: o homossexualismo e a pedofilia.

Está considerado o primeiro livro publicado em Portugal sobre o tema. 
Atrevo-me a dizer que, em termos de conteúdo, dentro da mesma paridade literária, nada ficará a dever a "Lolita" de Vladimir Nabokov ou a "Morte em Veneza" de Thomas Man. 

É de uma linguagem nua e crua abordando o homossexualismo sem quaisquer rodeios tendo certamente, à data da publicação, provocado muito "barulho" já que a sociedade (monárquica) era dominada por um conservadorismo e clericalismo que não davam tréguas a qualquer liberdade que ultrapassasse os (bons) costumes da época. 

"O BARÃO DE LAVOS", homem de elite e da alta sociedade lisboeta, casado com Elvira, retrata a vida e queda de Sebastião, o Barão de Lavos, que se apaixona por um jovem vendedor de rua (Eugénio), rapaz de 16 anos sem eira nem beira nem quaisquer modos de educação.

Com o intuito de aprofundar a sua relação com o rapaz acolhe-o (cedendo-lhe uma das suas casas, na Rua da Rosa, com criada para o servir, cama, (boa) mesa e roupa lavada) e educa-o nas artes e convenções da alta sociedade de modo a integrá-lo nos círculos sociais da elite lisboeta. Só que a sua paixão cega, ignora todos os riscos e perigos que lhe irá trazer esta vida de pederasta. 
Assim, na pessoa da sua paixão (Eugénio) se revelarão os mais baixos sentimentos mostrando a torpeza e indignidade a que a ganância poderá conduzir alguns seres humanos.

Elvira, sua mulher, acaba por traí-lo com Eugénio, tudo se começando a desmoronar e a queda de Sebastião dá-se a pique, caindo (com o seu vício pederasta) na mais extrema miséria acabando a vegetar na lama e no lixo das ruas de Lisboa entre toda a bandidagem, gente da pior espécie e a maior escumalha das profundezas da capital do reino.  
 1855 - Tabuaço (Viseu) - 1915 Buenos Aires (Argentina)


terça-feira, 21 de julho de 2015

LEITURAS 2015 - XXIV - "O TEMPO ENVELHECE DEPRESSA" - ANTÓNIO TABUCCHI



Todas as personagens deste livro (de contos) parecem estar empenhados numa confrontação com o tempo: - o tempo dos acontecimentos que viveram ou estão a viver e o tempo da memória da consciência.

O tema desperta expectativas, não desperta? só que mais uma vez um livro deste autor me desiludiu e por isso mesmo não me vou alongar muito sobre ele. Não gostei, devo até confessar que nem li todos os contos pois quando o livro não me consegue "agarrar" às primeiras cinquenta páginas, dificilmente conseguirei lê-lo até ao fim, torna-se uma mastigação difícil, enrola, enrola... 
Mas tem uma bonita capa.

Deste mesmo autor já tinha lido três livros (Afirma Pereira; Tristano Morre e Nocturno indiano) mas também, nenhum deles, me despertou um interesse especial, apenas ficou a indiferença e este "O TEMPO ENVELHECE DEPRESSA" foi mais um.


António Tabucchi  -   Pisa (Itália) 1943  - 2012 (Lisboa)

sexta-feira, 17 de julho de 2015

LEITURAS 2015 - XXIII - "conta-corrente 5" - VERGÍLIO FERREIRA



O estilo e o modo de escrever de Vergílio Ferreira prendem-me. Cada palavra, cada frase é quase um ensinamento. E nestes diários que estou a reler isto é bem visível. 
Leio e releio e é sobretudo na releitura que confirmo o grande escritor que foi.

Este "conta-corrente 5" aborda os anos de 1984 e 1985 e é, tal como os quatro anteriores, excelente. 
Permito-me salientar alguns trechos que anotei:

-A vida devia ser insuportável se inteiramente previsível.

-Um vilão não é de perder a oportunidade quando tem a vara na mão.

-O que mais se vê é o que nunca se vê. Por exemplo, ao lado deste sofá onde todos os dias me sento tenho uma estante de livros. Olhos todos os dias nunca os vejo.

-As histórias dos romances lidos, por exemplo, evaporam-se como ar.

-O comer e o coçar vai do começar.

-Num mundo de cegos quem tem um olho é aleijado.

-O contrário da justiça é a caridade.


Vergílio Ferreira - 1916 - 1996


segunda-feira, 13 de julho de 2015

LEITURAS 2015 - XXII - "O RELÓGIO DO CÁRCERE" - JOSÉ RIÇO DIREITINHO



Tendo como cenário o mesmo mundo rural que José Riço Direitinho elegeu como palco das suas ficções anteriores e, mais uma vez, retratando muito bem um país que aos poucos está a desaparecer, a acção de "O RELÓGIO DO CÁRCERE" decorre entre o início de 1832 e os primeiros meses de 1834, no lugar imaginário de Vilarinho dos Loivos, o mesmo onde decorreu o cenário do livro que deste mesmo autor li anteriormente, e de que também já tinha gostado imenso, o excelente "BREVIÁRIO DAS MÁS INCLINAÇÕES". 

O fidalgo da Casa do Seixo, Afonso Aires de Navarra (a quem, apesar de ainda não ter completado trinta anos chamavam há muito tempo "O VELHO"), e António de Soutelinho (que o acaso fez um dia guerrilheiro) são as duas personagens principais desta história onde ecoam os rumores da queda anunciada da Monarquia Absoluta e da sua substituição por um regime liberal.

Depois do muito que gostei do "Breviário das Más Inclinações" este livro confirma um lugar de destaque que José Riço Direitinho já ocupa, por direito próprio, no panorama da nova ficção nacional. 

Gostei deste livro que nos mostra um mundo rural português que está a desaparecer se não desapareceu já na quase totalidade.

Um escritor a seguir.

José Riço Direitinho nasceu em Lisboa em Julho de 1965, sendo licenciado em Agronomia
"A CASA DO FIM" maca a sua estreia literária, em 1992.
Os seus livros estão traduzidos na Alemanha, Holanda, Itália, Espanha, França, Inglaterra e Israel, sendo a sua obra reconhecida como uma das mais representativas da nova geração europeia.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

LEITURAS 2015 - XXI - BARTLEBY & COMPANHIA - ENRIQUE VILA-MATAS





Bartleby é uma memorável personagem de um conto de Herman Melville, um escriturário que faz cópias de documentos burocráticos e que dia após dia entra no escritório, onde, aliás, vive, aparenta não ter vida para além da sua mesa de trabalho não conversando com ninguém, escondendo-se no seu canto, e que, quando o encarregam com algo ou lhe perguntam qualquer coisa sobre si, responde invariavelmente: PREFERIA NÃO O FAZER.


Bartleby o escriturário 

Nesta obra, Vila-Matas dedica-se a escrever sobre escritores "bartleby", isto é, aqueles que não escrevem ou estão longos períodos inactivos, paralisados devido a prolongadas crises de inspiração, adiando a hora de escrever ad infinitum... 

Um desses escritores "bartleby" foi o suiço Robert Walser que passou os vinte e oito últimos anos da sua vida encerrado em manicómios, entregue a uma frenética actividade de letra microscópica, fictícia e indecifrável numa linguagem sem qualquer sentido, nuns minúsculos  bocados de papel.


Robert Walser - Suiça  1878-1956
Fala-nos daqueles escritores que se apagam para deixar que os outros assinem as suas obras, como é o caso da autora de "O Divã", um conto assinado por Göethe e escrito pela sua amante.

Dedica ainda a sua atenção a Kafka, Samuel Bechett, Hermann Melville, Marcel Proust, Fernando Pessoa, incluindo ainda muitos outros escritores. 

Talvez devido às grandes expectativas que depositei neste livro, fundamentalmente devido à extraordinária personagem de Herman Melville, este livro não correspondeu inteiramente à expectativa que nele depositava; quase sempre isso me acontece quando a expectativa é demasiado elevada.  

Não deixa no entanto de, na minha perspectiva, ser um bom livro deste excelente escritor espanhol.
Enrique Vila-Matas - Barcelona 1978

domingo, 5 de julho de 2015

LEITURAS 2015 - XX - BREVIÁRIO DAS MÁS INCLINAÇÕES - JOSÉ RIÇO DIREITINHO



Esta é a história de José de Risso, uma espécie de santo popular, nascido com um sinal vermelho no meio das costas, em forma de folha de carvalho. Um sinal de onde sangra de cada vez que faz um milagre.

São muitas as malvadezas de José de Risso ao longo dos seus 33 anos de vida, entre 1923 e 1956 na localidade ficcionada  de Vilarinho dos Loivos, no norte de Portugal, próximo da fronteira com a Espanha.

Este romance "agarrou-me" da primeira à última página. O seu protagonista José de Risso nasce de um relacionamento ocasional entre uma mulher de Vilarinho dos Loivos e um caixeiro viajante. A mãe morreu após o parto e o pai desapareceu após a primeira noite em que se encontraram.

Uma surpresa, um livro absolutamente surpreendente em que o autor nos dá a conhecer os rituais das gentes do campo (de então). Fascinante.


José Riço Direitinho é um dos jovens escritores portugueses mais elogiados pela crítica nacional e internacional.  




quarta-feira, 1 de julho de 2015

LISBON SOUTH BAY

Almada, Seixal e Barreiro no editorial do jornal «Público»<br />
Lisbon South Bay ou o Sul ridicularizado<br />

Depois do ridículo Allgarve a ignorância continua a avançar (a passos largos), agora é Almada, Seixal e Barreiro que se transforma em Lisbon South Bay.

E é assim que este povo está a ser "educado" basta ver os vários programas das três TV´s com títulos estrangeirados, daí sermos, como dizia um grande escritor português, um povo com dez milhões de analfabetos alguns dos quais sabem ler. Oiço diariamente na rádio indivíduos com responsabilidades a falar em que por tudo e por nada invocam estrangeirismos que, sinceramente, não percebo, nem eu nem com certeza a maioria dos ouvintes.

Esta gente (autênticos vendidos por um prato de lentilhas) parece querer esquecer a sua língua, a sua cultura, as suas origens e caiem neste ridículo e nesta completa parolice.