sexta-feira, 29 de abril de 2016

ROSA MOTA e VERGÍLIO FERREIRA




De algum modo, determinadas acções definem a sensibilidade e o carácter do ser humano. É precisamente uma dessas acções que Vergílio Ferreira nos dá a conhecer, em 1 de Junho de 1992, num dos seus excelentes diários:

-Estava eu de pé a assistir a este evento, sob um sol que me estorricava a mioleira. Então aconteceu uma coisa gentil. Foi o caso que a Rosa Mota, figurinha frágil de campeã mundial maratonista, veio dizer-me que tinha um lugar na tribuna. Para lá fui. Mas só depois reparei que o lugar era dela. Ergui-me de novo e insisti para ela o reocupar. Não quis. Sentada minúscula num degrau do palanque, ali se manteve até ao fim.-   


O Professor Vergílio Ferreira no Liceu Camões

segunda-feira, 25 de abril de 2016

LEITURAS 2016 - XV - "DIÁRIO vols. III e IV" - MIGUEL TORGA

Miguel Torga   1907-1995

Tornei-me um ávido leitor de diários (de escritores) depois de ter lido oito dos nove que Vergílio Ferreira publicou sob o título de  "Conta-Corrente".

E também estou a gostar imenso dos diários de Miguel Torga. Acabei agora de ler os volumes III (1943 a 1946) e IV (1946 a 1949).

Miguel Torga, apesar de não conduzir, era um viajante e por isso corre Portugal do Gerês a Monchique e do Caldeirão a Bornes e, segundo sei, sem saber ao certo para quê, já que "não sou geógrafo, tenho um patriotismo suspeito, sou fraco apreciador de petiscos, de modo que nem eu chego a saber por que é tanta peregrinação". 
Mas ver, olhar era para o poeta uma forma de vida (ver e olhar é um dom de que actualmente poucos conseguem desfrutar), para além disso nestes diários há muita literatura, mais um dado que faz com que me tornasse um acérrimo leitor do género.

Torga era um homem "terra a terra" e descreve-se a si próprio como intransigente, duro e obcecado.
A imagem que Torga tem de si próprio confunde-se com a paisagem das terras onde nasceu e onde se sente como peixe na água; é no meio das pedras da natureza que se sente feliz, e não no seu consultório de médico em Coimbra.

Torga era contra os caçadores de autógrafos e contra a publicidade.
O "contra" era mesmo o seu forte.
Gostava da solidão, e prezava muito quem lha respeitava.
A arte para ele não era uma ambição era um destino.
"Ansiedade" foi o primeiro livro que escreveu, aos 20 anos.   

Excelente.


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quinta-feira, 21 de abril de 2016

MIGUEL TORGA E OS SEGUROS



"Faça um seguro...

-Deus me livre!

-Olhe que é útil! Morre-se, recebem os herdeiros; tem-se um desastre, pagam-nos o hospital; fica-se inválido, dão-nos uma pensão...

-Não teime. Eu gostava de me segurar mas para não morrer, para nunca ficar inválido, para não ser esmagado por nenhum automóvel...Agora segurar-me para depois dessas desgraças, não me interessa. Se o destino me ganhar o jogo, quero que ele assuma a responsabilidade do que fez!"

Miguel Torga em Coimbra, 4 de Novembro de 1948, no seu Diário III


domingo, 17 de abril de 2016

SERES HUMANOS?


O lutador português João Carvalho, mais conhecido, imagine-se, como "rafeiro" (a sua boca confirmava-o), morreu na passada segunda feira à noite em Dublin, Irlanda, depois de ter sido absolutamente massacrado com murros, pontapés e toda uma série de golpes na cabeça durante um combate de artes marciais mistas (MMA); uma selvajaria em três assaltos, uma verdadeira estupidez em que vale tudo, boxe, kick-boxing, karaté, judo, wrestling, jiu-jitsu brasileiro e sei lá que mais barbaridades. Absolutamente horripilante o vídeo disponível nas redes sociais.  

E para assistir a este espectáculo degradante de violência e morte, o recinto cheio de alguns milhares de "pessoas". Afinal que gente é esta? Como é possível num mundo que se diz civilizado gente a praticar e (ainda mais vergonhoso) gente a assistir a esta humilhante e estúpida degradação do ser humano que, afinal, parece ter regredido (nos seus sentimentos) desde o tempo das cavernas em que porventura se poderia matar mas para sobreviver e não por prazer. 

Mas que gente será esta? Mas que passará pela cabeça destas "pessoas"?  



quarta-feira, 13 de abril de 2016

CARÁCTER

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"Um homem de carácter pode amar a insignificância"-esta frase, que julgo ter sido escrita por Agustina Bessa Luís no seu excelente romance "Fanny Owen", vem-me sempre à ideia quando, por exemplo, como hoje me aconteceu durante a caminhada que efectuei, me vi de repente a transferir (quase que envergonhadamente) caracóis de um para o outro lado da estrada de modo a colocá-los a salvo dos eventuais esmagamentos que pudessem ocorrer durante a passagem dos outros caminhantes.

Esta cena, em que apenas funciona o meu subconsciente, acontece-me frequentemente e penso que certamente poderá parecer ridicula para quem eventualmente me possa observar; contudo, por outro lado, é nessa altura que me vem à cabeça a tal frase de Agustina. 


   
São feitios...

sexta-feira, 8 de abril de 2016

A MEMÓRIA

Miguel Torga   1907 - 1995

"É difícil a uma nação que desconhece ou despreza os seus grandes homens em vida doirar-lhes depois a memória. Se viveram em pocilgas, mal poderão depois ser relembrados em castelos, a não ser nas academias, onde a hipocrisia supre tudo, com carpideiras oficiais, louros falsos e mármores de gesso. Mas há uma maneira decente de sanar as indecências: é esquecê-las.".







Uma opinião expressa por Miguel Torga em 30 de de Julho de 1943, que, infelizmente, continua tão actual!

E estou a pensar em tantos portugueses que têem servido o bem comum, enquanto se premiaram ou vão premiando outros(as) que apenas se têem servido a eles.




segunda-feira, 4 de abril de 2016

LEITURAS 2016 - XIV- "MENTIRA" - Enrique de Hériz



"MENTIRA" do espanhol Enrique de Hériz, é um livro que, apesar de publicado em 2006, desconhecia em absoluto. São mais de quinhentas páginas que nos revelam a história de três gerações de uma família. Não direi que foi um livro que não me cativou mas também não posso dizer que me "agarrou" e creio que metade das páginas chegariam para nos revelar esta (imaginativa) história, que até começa com uma surpresa.

Uma antropóloga espanhola (especialista em ritos funerários), durante uma viagem de trabalho à Guatemala, descobre que foi dada como morta, depois de esquecer a mochila com a documentação junto de um cadáver feminino, quando os jornais do seu país noticiam o seu falecimento num acidente. Ao saber que a filha identificou erradamente um cadáver mutilado como sendo o seu, decide manter a verdade escondida e continuar "morta", evitando assim regressar a uma vida junto da família (tem marido e três filhos).
A partir desta MENTIRA inicial sucedem-se outras que vão revelando a história de três gerações de uma família.

Mas livros de quinhentas ou mais páginas (formato José Rodrigues dos Santos) só com "selo" de garantia...(e este não é bem o caso).

enrique de hériz - n. Barcelona 1964


3 - razoável

0 - li, mas foi zero
1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
3,5 - interessante
4 - bom
5 - muito bom
6 - excelente
7 - obra-prima