quarta-feira, 30 de outubro de 2019

"UMA LONGA VIAGEM COM JOSÉ SARAMAGO" - LEITURAS 2019 - XVII


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Depois de "Uma longa viagem com Álvaro Cunhal" e de "Uma longa viagem com Miguel Torga", esta longa viagem com José Saramago é o terceiro volume de uma série que pretende fazer o retrato biográfico de alguns portugueses ilustres, através de uma longa entrevista e dos testemunhos de quem os conheceu. Foi, entretanto, já publicado "Uma longa viagem com António Lobo Antunes", livro que já li e de que já aqui, neste blogue, dei conta.

Nesta longa viagem com João Céu e Silva, que durou mais de um ano, José Saramago como que se entregou às confissões sobre a sua vida dando a conhecer os pormenores vividos ao longo da mesma e mostrando a sua humanidade que creio seria efectivamente um homem de grande carácter e de uma nobreza elevada.

Já li algumas (pequenas) biografias sobre José Saramago mas este foi o livro de que mais gostei e onde me pareceu melhor retratado o homem e o escritor que foi.

Eis alguns (dos muitos) excertos que anotei: 

  - como me ocorreu o título de "O ano da morte de Ricardo Reis"? foi em Berlim, num quarto de hotel. Sentei-me na cama para descansar um pouco, deixei-me cair para trás, e, nesse momento, caíram-me do tecto as palavras "o ano da morte de Ricardo Reis". 

  - Ler um romance não é ler história, porque um romancista não é um historiador, ele é um homem que vê a religião pelo lado da tristeza e não entende nem acha que queira entender a Igreja Católica.


  -  O ataque de soluções que tive durou um mês e meio


  - O Álvaro Cunhal era um homem com quem se podia conversar duas horas e quando se saía do encontro se nos perguntássemos do que é que tínhamos falado, não nos recordávamos! Porque armava uma conversa — taka taka taka taka — e um tipo ia naquele embalo e sobre algo de concreto que se queria saber, mesmo que se expusesse o problema muito concretamente, ele dava uma volta  e nunca haveria uma resposta esclarecedora.


  - Os inteligentes adoram encontrar personagens com opinião própria, os ignorantes é que não 


José Saramago, Prémio Nobel da Literatura em 1998, é certamente o escritor português mais traduzido e mais lido no estrangeiro, e creio mesmo que mais conhecido do que em Portugal.

Poderei estar a exagerar (para alguns) mas José Saramago será porventura o melhor escritor português depois de Camões.

Vale a pena lê-lo!

Devo confessar que o primeiro livro que li do José Saramago (O Memorial do Convento) da primeira vez que lhe peguei não consegui passar da página 50 mas à segunda, uns meses depois, li-o de uma só vez, foi de seguida e é realmente um livro fantástico!


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sábado, 21 de setembro de 2019

"O RELATÓRIO BRODECK" - PHILIPPE CLAUDEL - LEITURAS 2019 - XVI


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Misteriosamente Philippe Claudel continua a ser (julgo eu) um escritor quase desconhecido. E que grande escritor que ele é!

Mais um excelente livro deste melancólico (que chega a ser quase triste) escritor francês.

Este é efectivamente mais um livro, brilhante e perturbador, em que tão bem é relatada a desumanidade do homem perante o homem, da estupidez vulgar e brutal, do medo e da rendição ao mal.

Brodeck está de regresso à sua aldeia, mesmo depois  de o seu nome já constar numa placa aos mortos do campo de concentração para onde tinha sido deportado. Retoma o seu trabalho de escrivão.

Um dia, um estrangeiro vai viver para a povoação, mas os seus modos e hábitos estranhos levantam suspeitas; o seu discurso é normal, faz longas e solitárias caminhadas e apesar de ser extremamente cordial e educado, nada revela de si próprio, Quando o estrangeiro começa a retratar a aldeia e os seus habitantes em quadros pouco lisonjeiros mas perspicazes, os aldeões matam-no.
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As autoridades que assistiram impávidas ao linchamento, ordenam a Brodeck que escreva um relatório que branqueie o incidente.

À medida que escreve o relatório oficial, Brodeck passa também para o papel a sua própria versão da verdade numa narrativa paralela.

Passado num tempo e lugar não definidos, embora tudo nos "cheire" a uma típica aldeia bem francesa, daquelas onde nas ruas as galinhas e os patos se nos metem debaixo dos pés, "O Relatório de Brodeck" mistura o familiar com o desconhecido, mito e história, num romance poderoso e inesquecível.

Philippe Claudel é realmente um belíssimo escritor, e depois do magnífico envolvente e inquietante "Almas Cinzentas" me ter feito procurar todos os seus livros e me ter "agarrado" como seu leitor, também já li, "A neta do Senhor Linh" (uma fábula carregada de tristeza e silêncio) e o soberbo e impressionante "O barulho das chaves", livro que surgiu depois do escritor se ter deslocado todas as semanas, durante onze anos a uma prisão para dar aulas de Francês, e ainda "Desisto" um pequeno livrinho que é uma descida ao inferno da perda e do desespero. 

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Philippe Claudel - Nancy - França - 1952

Retive e anotei:

pág. 12 -desde que estive no campo de concentração. sei que há mais lobos que cordeiros

pág. 252 - há um tempo para dizer e um tempo para ouvir


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segunda-feira, 2 de setembro de 2019

"OS CÃES LADRAM" - TRUMAN CAPOTE - LEITURAS 2019 - XV


Wook.pt - Os Cães Ladram

Grande escritor foi Truman Capote!
"A sangue frio" e "A Harpa de Ervas", são excelentes, sou efectivamente um leitor fiel de Truman Capote!

Contudo, "OS CÃES LADRAM" não será dos melhores, pelo menos eu apenas gostei a partir da última metade, quando começou a abordar figuras como Marlon Brando, Isak Dinesen (do África Adeus), Louis Armstrong, Humphrey Bogart, e outros, já que, na primeira metade, em que fundamentalmente falou das cidades em que viveu ou outras por onde foi passando, achei-o demasiado pastoso e por vezes mesmo chato.

Interessante e curiosa a sua abordagem às figuras que conheceu e com quem conviveu:

Por exemplo, sobre Marlon Brando (que eu considero o melhor actor de cinema que vi até hoje);
-Brando estava no Japão, nas filmagens de Sayonara, há mais de um mês e, nesse tempo, mostrara-se nas filmagens como um jovem com uma dignidade desleixada e trato afável que estava sempre pronto para cooperar e até para encorajar os seus colegas, especialmente os actores, mas que no geral não se mostrava socialmente disponível, preferindo, durante os enfadonhos intervalos entre as cenas, sentar-se sozinho a ler filosofia ou a garatujar num caderno de tipo escolar. 
Findo o dia de trabalho em vez de aceitar os convites dos colegas para beber uns copos em grupo, comer um prato de peixe num restaurante e passear no bairro das gueixas de Quioto, em vez de contribuir para a bonomia familiar, para o ambiente de festa caseira que teoricamente se desenvolve em filmagens no exterior, costumava voltar para o hotel e lá ficar...


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Até o realizador do filme, Joshua Logan, se viu forçado a reconhecer, depois de trabalhar com Brando durante duas semanas: "o Marlon é a pessoa mais empolgante que já conheci desde a Garbo. Um génio. Mas não sei que tipo de pessoa é. Não sei nada dele."

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Marlon Brando - EUA - 1924-2004 

-Dizia ainda Capote: Marlon era a pessoa menos oportunista que já conheci. Nunca quis saber de ninguém que o pudesse ajudar; diria mesmo que se esforçava por evitá-los.
O Marlon tinha um fraco por moças estrábicas.

Sobre Humphrey Bogart: -um homem muitíssimo moral. Apresentava-se sempre a horas nas rodagens, maquilhado e com o papel na ponta da língua.


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Humphrey Bogart  - EUA - 1899-1957

Sobre Bob Dylan: - um músico sofisticado (?), um aldrabão que se faz passar por um revolucionário de bom coração (?), mas que não passa de um campónio sentimental.


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Bob Dylan - EUA . 1941

Tal como já referi, deste escritor americano "A Sangue Frio" está entre os melhores livros que li até hoje. Este "OS CÃES LADRAM" não me merece mais do que uma nota 3-razoável.

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Truman Capote  -  Nova Orleans -EUA 1924-1984


para reflectir (pág.45)
-Será que a transição da inocência para a sabedoria se dá no momento em que descobrimos que nem todo o mundo nos adora?



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sexta-feira, 23 de agosto de 2019

DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA - Vols. IX e X - LEITURAS 2019 - XIV

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Os diários de Miguel Torga falam da sociedade, da terra, da poesia, das pessoas, de política, são literatura!

Confesso que, no entanto, nunca fui um leitor entusiasmado pela sua obra.

Mas gosto dos seus diários que são, afinal, uma forma de conhecer Portugal e os portugueses, e não só...

Por exemplo, a propósito de Santiago de Compostela: 
-"Confesso que ainda não cheguei a perceber se os espanhóis erguem tantas e tão grandes catedrais porque têm necessidade de espaço onde caiba a muita fé que os devora, ou se, pelo contrário, constroem primeiro os templos desmedidos para se obrigarem depois a enchê-los de devoção." 

Abordando a política: 
-"a impossibilidade que sempre tive de aceitar como bom do lado de cá o que reprovo do lado de lá".

Conflito de gerações: 
-"o difícil no convívio com a juventude é esquecer-se a gente da sua própria mocidade. É ser jovem também, mas sem a lembrança de o ter sido. Só quando nenhuma das suas palavras, dos seus gestos, dos nossos impulsos cheira a passado, poderemos entrar no convívio e no coração de quem apenas respira presente." 

Curiosa esta sua observação sobre Livros:
- "Homem humano, que não vai em cantigas literárias divide muito simplesmente os livros em duas categorias —os que agasalham as misérias do mundo nas suas páginas, e tornam o leitor sensível à urgência de lhes acudir, e os que as deixam à porta, desalmadamente—"  

Gosto de diários e, do Miguel Torga, li todos os anteriores —tornei-me um leitor incondicional de diários desde que li o excelente "Conta-Corrente" do Vergílio Ferreira, são nove volumes, diários que se lêem como um romance sem serem um romance!

Não sendo Torga um escritor que me entusiasme também devo confessar que não o acho maçador, apesar de ter gostado mais dos diários anteriores. 

A leitura destes diários leva-me a pensar que Torga deveria ser um homem bom, solidário, honesto e correcto. Deste modo, a leitura destes diários só nos poderá trazer exemplos para que possamos ser melhores pessoas. 

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Miguel Torga - 1907-1995
Li e anotei:

-Em conversa com um seu doente: "o senhor morre vivo e eles vivem mortos"    (Miguel Torga exercia medicina)



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sexta-feira, 16 de agosto de 2019

"QUANDO OS TONTOS MANDAM" - JAVIER MARÍAS - LEITURAS 2019 - XIII

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Neste livro de 301 páginas, deste escritor espanhol, Javier Marías, nascido em Madrid há 57 anos, estão reunidos noventa e cinco artigos, publicados no suplemento semanal do jornal El País, entre Fevereiro de 2015 e Janeiro de 2017.

Tal como se lê na contracapa,vivemos num tempo em que as pessoas não têem tempo até as crianças já não o têem, com tantas actividades extra-escolares e distracção "obrigatória" na companhia dos pais, que passam o fim de semana e as férias com a língua de fora. 

Nos anos cinquenta e sessenta do séc. XX as crianças tinham manhã, tarde e noite, todos muito longos. Naquele tempo havia tempo para tudo.

Esta e outras situações  são aqui deliciosamente retratadas, com sentido de humor, educação e distanciamento do politicamente correcto!

Javier Marías apresenta aqui novas perspectivas para os acontecimentos que, aos seus olhos, marcam o mundo actual.

Fala de escritores:
Conrad detestava Dostoievisky,
- Nabokov desprezava Faulkner e muito mais, 
- Faulkner não estimava muito os seus pares com a excepção de Thomas Wolfe, 
- Truman Capote lançava farpas a quase toda a gente.

Fala de livros:
-O universo literário rejubilou com os seis tomos de A MINHA LUTA, autobiografia ou semificção do norueguês Karl Ove Knausgárd. 
Depois de 300 páginas (poucas de um conjunto de 3.000 ou mais) fiquei desconcertado. Não me eram odiosas, nem pouco mais ou menos, mas há muito tempo que não lia páginas tão simplórias e tolas. Será defeito meu ou impaciência (relativa), mas não compreendo o entusiasmo global despeitado em críticos e escritores.  

Sobre o politicamente correcto:
-O Sindicato de Estudantes da Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres "exigiu que desaparecessem do programa filósofos como Platão, Descartes e Kant, por serem racistas, colonialistas e brancos".

-Nalgumas escolas norte-americanas pede-se a proibição de clássicos como "Mataram a Cotovia" e "Ucleberry Fin", porque neles aparecem "afrontas raciais"


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JAVIER MARÍAS -  Madrid 1951

Li e reflecti:

-arvoram telemóveis e param a cada passo a fotografar o que não olham

-o melhor instrumento de propaganda e intoxicação que jamais existiu -as redes sociais-

-Se não se tem nada de agradável para dizer, é melhor não dizer nada.

-Hoje parece que aquele que não se indigna continuamente por alguma coisa -tenha ou não razão, tenha ou não importância- é um acomodadiço, um domesticado, um dócil, um submisso e um tonto.


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segunda-feira, 22 de julho de 2019

"HOMEM INVISÍVEL" - RALPH ELLISON - LEITURAS 2019 - XII

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O começo deste livro não me cativou!

Contudo, a meio do mesmo cheguei a entusiasmar-me. 

Todavia, não fosse a minha (quase) completa recusa de deixar um livro a meio, teria certamente desistido quando até já só faltavam cerca de oitenta páginas, pois a leitura começou a arrastar-se de tal modo que se estava a tornar demasiado penoso, mas lá levei a água ao moinho. 

Efectivamente não gosto nada, mas mesmo nada, num livro de quinhentas páginas, desistir quando faltam tão poucas.

Tal como já salientei, a meio do livro cheguei a entusiasmar-me e cheguei a pensar que estava perante um grande livro, mas... 

"Homem Invisível" revela a dor da existência do homem negro num mundo branco. 

É a história da viagem de um jovem negro pelos estados sulistas da América nos primeiros anos do século XX. 

Com o passar do tempo, entre experiências frequentemente contraditórias, o protagonista fica a conhecer o mundo dos negros, o mundo dos brancos e o seu próprio mundo. Trata-se de uma peregrinação que pretende ser esclarecedora sobre questões fundamentais como a raça, a existência humana ou os ideais democráticos (para mim não foi esclarecedora). 

E se este é um tema que eu adoro, daí o meu prazer na leitura de Carson McCullers, Truman Capote, Harper Lee, Erskine Caldwell, Joyce Carol Oates, Flannery O'Connor.

Criei demasiadas expectativas relativamente a este livro, que havia comprado em 2008, na Feira do Livro da Amadora, num alfarrabista por € 5,00, não direi que essas expectativas tivessem sido absolutamente goradas, só que eram muito altas e por isso me arrastei nas últimas cem páginas do livro. E quando isto acontece precisamos urgentemente de ler um bom livro, vamos lá a ver...   


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Ralph Ellison  -  EUA  -  1914 - 1994
Li e reflecti:

-(pág.287) - Diz o que as pessoas querem ouvir, mas di-lo de forma que façam o queremos que façam. A teoria nasce sempre da prática.


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sexta-feira, 21 de junho de 2019

"O DIÁRIO SECRETO DE HENDRIK GROEN AOS 83 ANOS E 1/4" - LEITURAS 2019 - XI


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Lar da 3ª. idade/Residência Sénior, a vida dos seus residentes e a forma como são actualmente tratados os idosos, o arrastar de pés atrás dos andarilhos, queixumes, solidão, suspiros angustiantes, gemidos, Alzheimer, demência, o retrato assustador do que é a vida real de um idoso num lar, tudo isto e muito mais nos conta este romance comovente, triste, mas por vezes divertido, e que se tornou um fenómeno literário em todo o mundo. 

Hendrik Groen é um pseudónimo e o lançamento deste seu diário (o relato de todos os seus dias durante um ano), causou um intenso debate na Holanda, o seu país de origem. A sua identidade é ate hoje desconhecida; será que terá a mesma idade do idoso retratado?

Hendrik Groen pode estar velho, mas ainda muito longe de estar morto, e espera não ser enterrado tão cedo. Os seus passeios diários são cada vez mais curtos porque as pernas começam a dar de si, e as suas idas ao médico são agora mais frequentes do que ele gostaria. Hendrik está velho, mas quem disse que tem de viver confinado ao lar para idosos perto de Amesterdão esperando que a morte chegue? 

O fim da vida aproxima-se e o lar da 3ª. idade é aqui retratado com a crueza que efectivamente a situação impõe. Os residentes a quem já ninguém visita, os amigos que já não existem, para além dos habitantes do lar... É realmente um tema muito delicado e que, página a página, nos põe a pensar, independentemente da nossa idade...


retive e anotei:

-Com a idade, reduz drasticamente o conhecimento que se tem de si mesmo. Da mesma forma que, inversamente, aumenta nas crianças à medida que crescem.



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segunda-feira, 10 de junho de 2019

"SUL PROFUNDO" - PAUL THEROUX - LEITURAS 2019 - X


Paul Theroux é um reconhecido escritor de livros de viagens.

Este "Sul Profundo" é uma longa viagem, durante quatro estações, pelos sítios mais recônditos do Sul da América.

A América das grandes extensões e as estradas solitárias, os móteis sujos, as lojas à beira da estrada, o espírito hospitaleiro e acolhedor do Sul. 

Igrejas e barbearias, feiras de armas que nos ajudam a perceber certos mitos e o porquê da discussão sobre a possibilidade das pessoas puderem usar armas no seu dia a dia, cidades abandonadas, lugares essenciais na luta dos negros pelos direitos civis. 

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Paul Theroux - EUA - 1941
Ao longo desta viagem (536 páginas) são abordados os mais variados temas que se prendem naturalmente com os locais por onde o autor passou:

Ku-Klux-Klan - O KKK originou-se em meados do séc. XIX, não entre os brancos pobres, mas na classe dos plantadores que usavam o terror para manter os negros a trabalhar nos campos, para controlar a mão de obra, e para perpetuar o sistema repressivo da plantação do Sul. 
Em Agosto de 1980 Ronald Reagan voou até à cidade que era o quartel general do KKK no Mississipi, ele queria dizer: estou do vosso lado.
Foi Ronald Reagan que se opôs à criação de um feriado nacional em homenagem ao Rev. Dr. Martin Luther King Jr.    

William Faulkner - um dos maiores escritores americanos e mais subtis pensadores - um homem tímido, mas um ousado e opinioso génio literário com um conhecimento enciclopédico da história sulista. impossível de ignorar por quem viaje pelo Sul — viveu toda a sua vida no centro dessa comunidade racionalmente dividida sem sequer uma vez sugerir claramente, na sua sábia voz, numa cidade que ele se orgulhava de chamar sua, que um estudante negro tinha o direito inalienável de estudar na universidade — tudo a seu tempo, era o seu lema. 
O vencedor do Prémio Nobel ficava-se, enquanto negros eram corridos do Campus, admitidos como criados só pela porta traseira e, uma vez feito o trabalho, mandados embora. Faulkner morreu em Julho de 1962.

Erskine Caldwell- Um dos escritores que, na opinião deste blogueiro, melhor descreveu a segregação e o sofrimento. Filho de um pregador, Caldwell era, contudo, tão detestado pelos seus compatriotas georgianos, que se sentiam que ele fizera deles um motivo de chacota, que deixou o Sul, viveu em São Francisco e Nova Iorque, e durante alguns anos numa pequena cidade do Maine. Viajou pela Europa e pela União Soviética, onde trabalhou como correspondente de guerra, sendo também visto como um cronista da vida camponesa nos Estados Unidos.   


Permito-me uma curiosidade: do Erskine Caldwell possuo um livro (O Pregador) autografado:    



Retive e anotei:

MARGARET BOURKE-WHITE - EUA - uma pioneira dos momentos importantes da fotografia. 1904-1971 - por exemplo, a grande e imortal foto da mulher da depressão (associei-a sempre ao grande romance de Steinbeck "As Vinhas da Ira") 
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sexta-feira, 10 de maio de 2019

"NUNCA DANCEI NUM CORETO" - MARIA FILOMENA MÓNICA - LEITURAS 2019 -IX


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Mais um livro lido desta excelente escritora, a socióloga Drª. Maria Filomena Mónica. E mais uma vez não me desiludiu, gostei!

Comecei a lê-la já há alguns anos com "Bilhete de Identidade" (bonita capa) onde fala de si e, ao que me lembro, dos outros e das mais variadas situações, sempre interessantes. É realmente uma boa escritora.e tenho pena de não a conhecer pessoalmente pois parece-me uma mulher que sabe o que quer, uma mulher forte, determinada, justa e extremamente culta pois tenho aprendido muito com ela.

Tal como já salientei também gostei deste "Nunca dancei num coreto", um conjunto de crónicas publicadas no Expresso entre 2011 e 1018. São interessantes, breves e quase todas de apenas página e meia, abordando os mais variados temas. 

Falando, por exemplo:
- dos velhos descobre-se que Portugal é hoje o sétimo país mais envelhecido do mundo.

- de Steve Jobs, alguém que um dia, declarou: Muitas vezes as pessoas não sabem o que querem até que lhas mostramos.

-recordando Henry Ford, o impulsionador do automóvel, que igualmente desprezava as sondagens: "se tivesse interrogado as pessoas sobre o que desejavam, provavelmente ter-me-iam dito que desejavam uma carruagem com cavalos mais velozes"


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Maria Filomena Mónica - n.Lisboa 1943

retive e anotei:


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-Reconheço que as mulheres pouco são mencionadas na História, mas as coisas mudaram a partir do momento em que no séc. XVIII, uma mulher inglesa, Mary Wollstonecraft, publicou um livro defendendo os direitos femininos.




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sábado, 4 de maio de 2019

UM FILME - CINEMA PARAÍSO

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Revi esta semana na RTP2, um dos poucos canais onde consigo ver alguma coisa do meu agrado, um grandioso filme, "CINEMA PARAÍSO".

Para mim, um dos melhores filmes de todos os tempos e uma das mais belas e conseguidas homenagens ao cinema.

É como que um retrato da vida do realizador Giuseppe Tornatore. 
Filmado nos arredores de Palermo. onde Tornatore nasceu, o filme narra, em flashback (registo de recordação ou facto ocorrido antes, interrompendo a sequência cronológica), a evolução de uma sala de cinema (o Cinema Paraíso) e a amizade entre um projectista (grande interpretação do francês Philippe Noiret) e uma criança (noutra magistral interpretação do pequeno Salvatore Cascio) que lhe serve de assistente.

Premiado com o Óscar da Academia de Hollywood, de melhor filme estrangeiro em 1989, não demorou mais de quatro semanas a ser rodado.

Passado na época pré-televisão (princípio dos anos cinquenta, cenários e guarda roupa fantásticos) a história evolui com o jovem Salvatore a dedicar-se ao cinema quando chega à adolescência, acabando por chegar até realizador de televisão. Depois...é ver o filme —fantástico—!

A música do filme é uma inolvidável banda sonora do grande Ennio Morricone, de uma beleza que nos inunda de uma serena nostalgia.

Um filme absolutamente inesquecível e um dos mais belos da história do cinema!


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extraordinárias interpretações de Philippe Noiret e do pequeno Salvatore Cascio

sábado, 20 de abril de 2019

"OS VÍCIOS DOS ESCRITORES" - ANDRÉ CANHOTO COSTA - LEITURAS 2019 - VIII

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JAMES JOYCE confrontado com a ilegibilidade da sua escrita, o autor do misterioso, enigmático, e, segundo alguns, incompreensível "Ulisses" o autor respondeu; em vez de escrever um livro para ser lido por um milhão de pessoas, preferia escrever um livro que uma pessoa pudesse ler um milhão de vezes.

JAROSLAV HASEK ("O valente soldado Chveik") - Anarquista, passava o tempo a beber. Depois de embriagado, ia fazer as necessidades diante da esquadra da polícia.

MARCEL PROUST parece ter desenvolvido um genuíno gosto por jovens raparigas menores. Quando mais velho usava sempre luvas não apertando a mão a ninguém, mais por hipocondria do que por snobismo. Sempre rodeado de formol e outros desinfectantes.

WILLIAM FAULKNER era um homem tímido, com receio das multidões e da exposição pública. Desconfiava dos médicos, curando tudo com whisky, desde uma dor de garganta a uma distensão nas costas.

HERMAN MELVILLE tiranizava a vida familiar, sobretudo quando bebia. 

KAFKA um hipocondríaco vegetariano com um gosto suspeito por menores.

EÇA DE QUEIROZ um mulherengo vaidoso com tendência para o cinismo.

CAMILO CASTELO BRANCO um maníaco-depressivo, com tendência para o jogo.

CHARLES DICKENS manteve uma amante secreta e expulsou a mulher de casa.

GOGOL era uma fanático religioso e um homossexual reprimido.

DOSTOIEVSKI arruinou financeiramente a família no casino.

Realmente, como salienta o autor deste livro, os especialistas em literatura  afirmam que a vida dos escritores não tem utilidade para compreender os seus livros e, sem dúvida que algumas passagens deste livro comprovam-no.

É um livro que se lê com curiosidade e interesse, os capítulos não são extensos, o que é algo que muito contribui para uma leitura agradável. Eu gostei.

Contudo, não posso deixar de realçar que algumas das minhas expectativas sobre esta obra foram algo defraudadas —é que o título do livro, na verdade, não será o mais adequado para não dizer até de alguma "habilidade infantil", pois que, na minha perspectiva, estes vícios dos escritores não são mais do que pequenas biografias não muito diferentes das que já foram mil vezes difundidas. Mas é escritor para eu estar atento.



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André Canhoto Costa - Oeiras  1978


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sábado, 13 de abril de 2019

"MORTE DUM CAIXEIRO VIAJANTE" - ARTHUR MILLER - LEITURAS 2019 - VII

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Arthur Miller, que foi casado com Marilyn Monroe entre 1956 e 1961, escreveu esta excelente peça de teatro em 1949. 

Que perturbante e envolvente livro em que Arthur Miller tão bem expressa todo o drama social e familiar de Willy Loman — o caixeiro viajante — que vê sucumbir toda a sua ilusão de grandeza e que projectava para os seus filhos o sucesso que ele próprio gostaria de ter alcançado.

Willy Loman, pai de dois filhos, é um caixeiro viajante orgulhoso dos seus longos anos de vendas em que tinha em cada cliente um amigo, em que a amizade se sobrepunha às regras económicas, mas que, de repente, vê esfumar-se todo este seu mundo e se encontra, surpreendentemente (para si), desempregado.

A mestria de Miller dá-nos um excelente panorama do que é uma sociedade impiedosa que transforma um homem simples num simples número, num fracassado, logo que este se faz notar pela sua desadequação ao tempo e aos lugares em que se movimenta, depois de ver definhar a sua carteira de clientes, alcançada ao longo de anos de estrada, surgindo assim toda a sua inaptidão face à sua falta de competitividade quando passa a ser pago à comissão.  

Toda a sua vida de ilusório sucesso desaba e a este drama social junta-se um drama familiar quando é visto, por um dos seus filhos, com uma amante.

E acontece a trajectória descendente até ao suicídio.

Que bem narra Arthur Miller a cultura do "sucesso" medido através da comparação com os outros; é a sociedade que quase reduz a vida a uma procura constante de rendimentos mais elevados, onde é preciso ganhar cada vez mais dinheiro para comprar, comprar, comprar....

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Arthur Miller - n. Nova Iorque - 1915-2005



retive e anotei:
(da pág.91) - de brincalhões toda a gente gosta, mas ninguém é capaz de lhes confiar um centavo.


0 - li, mas foi zero
1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
3,5 - interessante
4 - bom
5 - muito bom
6 - excelente 
7 - obra prima

domingo, 7 de abril de 2019

"UMA LONGA VIAGEM COM ANTÓNIO LOBO ANTUNES" - JOÃO CÉU E SILVA - LEITURAS 2019 - V

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António Lobo Antunes é, na minha opinião, um escritor difícil. Confesso que actualmente não me "atrevo" a começar a ler um livro seu (o último que li "esfrangalhou-me" (Explicação dos Pássaros)).
Todavia, gosto e continuo a ler todos os seus livros de crónicas.

Curiosamente gostei e entusiasmei-me com a leitura dos seus três primeiros livros "Memória de Elefante", "Os Cus de Judas" e "Conhecimento do Inferno". 

António Lobo Antunes é um escritor que me interessa muito pela sua personalidade e pela sua história de vida.

Este "Uma longa viagem com António Lobo Antunes" não sendo, como li algures, uma cara do escritor será talvez o escritor munido das suas muitas caras.

João Céu e Silva fez aqui um grande e muito interessante trabalho, e este não será propriamente um livro de entrevistas — isto é literatura —  

Gostei, saboreei com muito prazer este excelente livro e fiquei expectante com outras longas viagens do autor, por exemplo, com José Saramago.


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retive e anotei:  
-(pág. 22)  -  Não tenho computador. Gosto de desenhar as letras 

-(pág.29)   -  Há um velho provérbio húngaro que diz: "Na cova do lobo não há ateus"


-(pág.47)   -  Eu tenho uma vida muito simples. Infelizmente não gosto de comer, de maneira que como em restaurantes aqui perto e não ligo muito ao que me servem                

-(pág. 50)  -  Os bares estão cheios — via-o quando ia buscar o Zé (Cardoso Pires) —de escritores que não escreviam, de pintores que não pintavam e de cantores que não cantavam

-(pág.306) -  Eu não sei mexer num computador, não tenho cartão multibanco, não tenho    automóvel,não tenho cartão de crédito...


-(pág.309)  - Conhece aquela célebre história de Picasso sobre os retratos de Jacqueline    todos verdes e há um que é encarnado, e aquilo era muito discutido até que foram perguntar ao homem. Porquê encarnado? E ele respondeu: "porque se me acabou o verde"  


-(pág.419)  -  "Pensar é ouvir com mais força" - Beckett


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António Lobo Antunes - n. Lisboa - 1942

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