quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

"MOVIMENTO PERPÉTUO" - ANA CRISTINA PEREIRA - LEITURAS 2020 XXIV




Muito interessante este pequeno livro inserido na colecção "Retratos" que a Fundação Francisco Manuel dos Santos vem publicando e que li ainda em 2020 mas de que só agora tenho a oportunidade de falar, aliás, como ainda me falta falar de mais dois livros que também ainda li no ano que passou (li 26).

O que muitos dos emigrantes sofrem.

O ser humano é, muitas vezes, mau e perverso para os outros e neste livro isso pode comprovar-se nalguns "retratos" aqui muito bem expostos.

Há, por exemplo, um padeiro desterrado em Timor no início da ditadura militar. E dois filhos apanhados ainda pequenos pela II Grande Guerra, resgatados por australianos e recolhidos pela Casa Pia de Lisboa.

Há um serrador que cumpriu a ordem parra combater em Moçambique. E um operário que desertou e fugiu para França. 

Há mulheres que estavam na fronteira luso-espanhola a passar gente sem papéis. E mulheres que foram ter com os maridos a Moçambique e tiveram de fugir. Há um comercial que se livrou disso tudo, mas foi surpreendido pela crise, com a casa por pagar, e arriscou a sorte em Inglaterra. 

E há uma encruzilhada de outras vidas que as circunstâncias empurram para dentro ou para fora do país. São ecos dos últimos anos de migrações portuguesas.

Este pequeno livro de 102 páginas, cuja autora Ana Cristina Pereira é repórter do Público,  ajuda-nos talvez a entender melhor o sofrimento dessa gente migrante à procura de uma melhor vida noutras terras. 

 

                                                                             Ana Cristina Pereira a autora 

Retive e anotei:

pág. 49 - Entre 1960 e 1974, um milhão e meio de portugueses, um sexto da população residente, saíu de Portugal. O movimento de saídas chegou a ultrapassar os cem mil anuais.


3,5 - interessante

0 - li, mas foi zero
1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
3,5 - interessante
4 - bom
5 - muito bom
6 - excelente
7 - obra prima

 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

"NÃO É FÁCIL DIZER BEM" - JOÃO PEDRO GEORGE - LEITURAS 2020 - XXIII



Esta é ainda uma leitura de 2020, aliás, uma releitura, pois já havia lido este livro em 2007, mas já não me lembrava de nada.

Relembro apenas que a primeira leitura não me entusiasmou e confesso que agora muito menos. E porque é que o voltei a ler? porque é um livro que fala de livros e de escritores, mas apenas algumas curiosidades que, contudo, não acrescentam muito aos livros que são analisados.

-O que aproxima António Lobo Antunes, José Eduardo Agualusa, Miguel Sousa Tavares, Manuel Alegre, António Mega Ferreira, Maria Filomena Mónica, José Rodrigues dos Santos? Estes e outros autores são analisados, sob um olhar atento e perscrutador do "crítico bulldozer" João Pedro George.

Por exemplo sobre Inês Pedrosa;

-"uma feminista assumida para quem "toda a História da civilização fora construída sobre o objectivo sistemático da exclusão das mulheres""

sobre livros:

-90 em 100 livros são eliminados/esquecidos ao fim de um ano e 99 em 100 ao fim de 20 anos. Vejamos o século XIX português. Quais é que são os escritores verdadeiramente lembrados pela maioria das pessoas? Eça de Queirós e, bem menos, o Camilo. Talvez um Herculano e um Garrett, não mais. Ora, em 100 anos a nossa sociedade reteve na melhor das hipóteses, 4 escritores.

Não direi que fossem muitas as expectativas mas, pelo tema abordado, seriam algumas; mas elas (as expectativas) foram-se diluindo ao longo do livro....... 
Todavia, é minha intenção ler mais livros deste corajoso crítico.

João Pedro George - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa

   João Pedro George n. Moçambique 1972


2 - li, mas não me cativou

0 - li, mas foi zero
1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
3,5 - interessante
4 - bom
5 - muito bom
6 - excelente
7 - obra prima


segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

"AMOK" - STEFAN ZWEIG - LEITURAS 2020 - XXII

 


Um livro, talvez um pouco datado, de um grande escritor (lido ainda em 2020).

Este livro, para além de "AMOK" contém ainda dois contos: "Carta de uma desconhecida" e "A colecção invisível", talvez por isso também "AMOK" possa ser qualificado como um conto.

"AMOK" mostra-nos uma análise profunda e densa de um drama psicológico de pessoas e de classes sociais elevadas onde a imagem pública e a honra sobrepõe-se muitas vezes às questões de moral e ética privadas.  

Stefan Zweig foi o mais popular escritor de língua alemã da primeira metade do século XX, nascido em Viena em 1881, no seio de uma família de riquíssimos industriais judeus. A sua fortuna permitiu-lhe fazer aquilo de que mais gostava — escrever e viajar—.

O deflagrar da I Guerra Mundial impediu que saboreasse plenamente a glória precoce como escritor e mais tarde, a II Guerra obrigou-o a emigrar para o Brasil, a que chamou País do Futuro. Ali pôs termo à sua vida aos 60 anos, juntamente com a sua mulher.

Curiosamente esta novela popularizou no Ocidente a palavra "amok" —quantas vezes não ouvimos esta frase: deu-lhe o amok (deu-lha a fúria)— 

É, como acima refiro, um livro datado, mas que se lê com interesse. Stefan Zweig é efectivamente um excelente escritor!

 


                                                            Stefan Zweig - Viena Áustria - 1881-1942


3,5 - interessante

0 - li, mas foi zero
1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
3,5 - interessante
4 - bom
5 - muito bom
6 - excelente
7 - obra prima

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

"A LOUCA DA CASA" - ROSA MONTERO - LEITURAS 2020 - XXI

 


Continuo ainda a falar dos livros que li em 2020.

Esta foi a terceira vez que li este excelente livro, pois trata de um tema que muito me agrada — é um livro que fala de livros — 

E assim descobrimos, por exemplo, que: 

-Goethe adulava poderosos 

-Tolstói era um energúmeno 

-Rosa Montero, ela própria, em criança, se julgava anã, e que, com vinte e três anos, manteve um extravagante e arrebatador romance com um actor famoso

-a grande, comovedora e trágica Carson McCullers, escreveu nos seus diários: "a minha vida seguiu a pauta que sempre seguiu: trabalho e amor" 

-Vladimir Nabokov perdeu tudo com a Revolução Russa: o seu país, o seu dinheiro, o seu mundo a sua língua, até mesmo o seu pai, que foi assassinado

-Faulkner dizia que um romance "é a vida secreta de um escritor, o obscuro irmão gémeo de um homem"

E muitas outras interessantíssimas histórias sobre escritores, nomeadamente sobre Mark Twain, Philip K. Dick, Martin Amis e muitos outros. 

Por tudo isto, este é um livro a que volto com muita frequência, até porque me dá pistas curiosas sobre escritores que, por consequência, tenciono ler numa próxima oportunidade. Posso até dizer que, para mim, é um livro de consulta. 

   

                                                      Rosa Montero - Madrid 1951                                


 retive e anotei;

-pg.23- Em jovem a morte é sempre a morte dos outros

-pg.47- Não se pode ser puro sendo humano 

-pg.80- O feminino continua a ser a cara sombria da lua

-pg.161- Um mundo sem livros é um mundo sem atmosfera, como Marte


4 - bom

0 - li, mas foi zero
1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
3,5 - interessante
4 - bom
5 - muito bom
6 - excelente
7 - obra prima

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

"A FILHA DO CANIBAL" - ROSA MONTERO - LEITURAS 2020 - XX

 



Aquele dia modificou a vida de Lúcia Romero, quando o seu marido desapareceu depois de ter entrado numa vulgar casa de banho para homens no Aeroporto de Barajas.

Esta é a história do sequestro do marido Ramón, o homem aparentemente pacato com quem vive há dez anos, mais pela força do hábito do que por amor. 

Lúcia é uma mulher de quarenta anos, a quem a vida já magoou, mas que nem por isso perdeu o implacável sentido de humor —  à boa maneira do detective do policial negro. 

Mas este romance transcende exuberantemente os cânones do policial clássico, o percurso da heroína e antes uma deriva que a conduz à descoberta de verdades insuspeitadas. Adrián, um jovem de vinte e um anos, e Félix, um anarquista octogenário, acompanham-na no desvendar do mistério (o sequestro do seu marido). Todos três constituem um triângulo que confere substância a três idades da vida, encenando o drama em que se joga o obscuro sentido da passagem do tempo.

Um livro de Rosa Montero é sempre uma leitura fresca, estimulante e muito interessante. Ainda não li um livro de Rosa Montero que me tivesse desiludido. Gostei!


                                                   Rosa Montero - nasceu em Madrid em 1951   

anotei e retive:

(pg.65) -  "O homem que não teme as verdades nada deve temer das mentiras"  -  Thomas Jefferson

(pg.65) - "Uma mentira nunca tem tempo de envelhecer"  - Sofócles

(pg.93) - "O temor é a própria substância da vida"



4 - bom

0 - li, mas foi zero
1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
3,5 - interessante
4 - bom
5 - muito bom
6 - excelente
7 - obra prima


quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

"O GUARDA DO POMAR" - CORMAC McCARTHY - LEITURAS 2020 - IXX


"O guarda do pomar", hoje um clássico da literatura norte-americana, foi o primeiro romance de Cormac McCarthy.

A acção desenvolve-se numa remota comunidade rural do Tennessee, num período situado entre as duas guerras mundiais, tendo como protagonistas um rapaz, John Rattner e Marion Sylder, um contrabandista de bebidas, que, sem que qualquer um deles o saiba, havia morto o pai de John.

Deste excelente autor, com um estilo brilhante, já li outros livros e gostei especialmente de "Este país não é para velhos" e de "Suttree". Contudo, este "O guarda do pomar" foi o de que menos gostei, talvez porque tenha partido para a sua leitura com as expectativas em alta, como acontece sempre que início a leitura de um autor de quem gostei dos livros que dele li anteriormente.

                                                         Cormac McCarthy - EUA - 1933


2 - li, mas não me cativou

0 - li, mas foi zero
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2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
3,5 - interessante
4 - bom
5 - muito bom
6 - excelente
7 - obra prima

sábado, 26 de setembro de 2020

"LÉAH E OUTRAS HISTÓRIAS" - JOSÉ RODRIGUES MIGUÉIS - LEITURAS 2020 - XVIII

 


Esta foi uma releitura, já que o havia lido pela primeira vez em 1986 (na última página de cada livro que acabo de ler anoto a data de início e do fim bem como a opinião sobre o que acabei de ler, gostei, não gostei, etc...). 
Obviamente que já não me lembrava absolutamente de nenhum dos contos deste livro, editado em 1982. 

São dez contos interessantes, sem nenhuma ligação temática entre eles, escritos por um autor que conhecia perfeitamente a língua portuguesa, apesar de ter vivido a maior parte da sua vida no estrangeiro. Morou na Bélgica, no Brasil e nos Estados Unidos. 

O primeiro conto, "LÉAH", conta a história de um português que vai trabalhar para Bruxelas ficando hospedado numa pensão, onde se apaixona pela figura enigmática da camareira LÉAH.

Os outros contos são "Uma viagem na nossa terra", uma viagem com personagens que nos relatam um tempo de lembranças que já não existem, numa viagem entre o Porto e Lisboa e que retrata bem os dramas pessoais dos seus personagens (dois casais).

"Pouca sorte com barbeiros" - numa Lisboa que também já não existe. Naqueles tempos as barbearias ainda eram, quase como os cafés, um centro de convívio.

Em suma, um livro que nos ajuda a perceber que José Rodrigues Miguéis foi um grande escritor da língua portuguesa e que parece absolutamente esquecido, um escritor que, apesar de ter vivido quase sempre fora de Portugal é realmente um dos contistas mais relevantes da língua portuguesa.

    


José Rodrigues Miguéis

9-12-1901, Lisboa
27-10-1980, Nova York


José Rodrigues Miguéis nasceu em Lisboa em 1901 e morreu em Nova York-EUA. em 1980.
Em 1924 formou-se pela Faculdade de Direito de Lisboa. 
Advogou, foi professor do ensino secundário, presidente da Segunda Liga da Mocidade Republicana e co-diretor do jornal O Globo. 
Licenciou-se em Ciências Pedagógicas, na Universidade de Bruxelas, em 1933. 
Em 1935 mudou-se para os Estados Unidos, assumindo o cargo de redator-associado das Seleções do Reader's Digest e, posteriormente, o de professor universitário. Foi um dos jovens que integraram a revista Seara Nova (1922). Escreveu contos, novelas, romances e peças de teatro. Apesar de quase toda a sua produção ter sido escrita longe da pátria (o que explica a sua preferência pelos temas do exílio e da emigração), manteve o humor delicado, a simpatia humana e o lirismo tipicamente portugueses. Obras principais: Páscoa Feliz (1932, Prêmio Casa da Imprensa), Onde a Noite se Acaba (1946), Saudades para Dona Genciana (1956), Leah e Outras Histórias (1958, Prêmio Camilo Castelo Branco), A Escola do Paraíso (1960), O Passageiro do Expresso (1960, peça de teatro), Gente de Terceira Classe (1962), É Proibido Apontar (1964) e O Milagre Segundo Salomé (1975).


Sublinhei:

(pág.148)  -  "Eu conheço-me bem: indeciso por temperamento, sempre que formo uma resolução, tenho de passar logo do pensamento ao acto. A ansiedade da expectativa destrói-me! Não será por isso a indecisão a fonte dos meus impulsos de audácia?"



3,5 - interessante

0 - li, mas foi zero
1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
3,5 - interessante
4 - bom
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quarta-feira, 12 de agosto de 2020

MIGUEL TORGA - Diário Vol. XIII e XIV - LEITURAS 2020 - XVII



 Miguel Torga - Diário Vols. XIII e XIV - à venda - Livros, Lisboa ...


Miguel Torga completaria o 113º. aniversário do seu nascimento (hoje - 12.08.2020). 

Desde o princípio deste ano (2020), que se assinalam os 25 anos da sua morte.

Os diários de Miguel Torga foram publicados originalmente em edição do autor, em 16 volumes, entre 1941 e 1993.

Este diário que acabo de ler, inclui os volumes XIII e XIV, revela-nos o homem rude mas muito sensível e um escritor que nos maravilha (diz ele na página 226- Viram sempre em mim o que eu menos era-.) 

Neste livro, tal como nos diários anteriores são narrados factos interessantes não só do seu dia a dia mas também factos da vida social e política portuguesa de então, e não só...

Gosto de diários! Não sendo este o melhor do Torga (dos que já li) lê-se no entanto com muita curiosidade e, passe o eufemismo, principalmente porque é um livro que se vai lendo e não "obrigatoriamente" de seguida.

Curiosamente, neste tempo de pandemia Covid 19, eu que pensava que poderia ler mais foi precisamente  quando li menos.

Quando algo nos preocupa penso que o nosso sub-consciente revela inquietação e baixo nível de concentração, nomeadamente para a leitura.

Miguel Torga foi na realidade um grande escritor e foi mais um livro dele que esteve ao nível das minhas expectativas.  


Biografia de Miguel Torga - eBiografia


 

sublinhei:

-pág.215 -  Mas quem me lê, se ler bem, há-de ver que, desde os primeiros livros, só tenho tido um objectivo: ser mais fiel à minha verdade do que à minha imagem e dizer tudo sem nada explicar.  

-pág. 78 - Existir não é fácil. É preciso perder diariamente a memória das más horas e renovar diariamente a esperança das boas.  



3,5 - interessante

0 - li, mas foi zero
1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
3,5 - interessante
4 - bom
5 - muito bom
6 - excelente
7 - obra prima

  

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

"TERCEIRO LIVRO DE CRÓNICAS" - ANTÓNIO LOBO ANTUNES - LEITURAS 2020 - XVI

Terceiro Livro de Crónicas - Livro - WOOK

Ler um romance de António Lobo Antunes requer da minha parte alguma coragem que ainda não consigo ter.

Eu que tanto gostei dos seus três primeiros livros ("Memória de Elefante", "Os Cus de Judas" e "Conhecimento do Inferno) não consegui passar para além da pág. 50 do "Fado Alexandrino". 

Estará António Lobo Antunes na galeria de Marcel Proust e de James Joyce, escritores conhecidos como dificílimos? Os anos o dirão; é que, apesar de tanto Proust como Joyce continuarem a ser escritores difíceis eles continuam na galeria dos grandes escritores.

Devo, contudo, confessar que as crónicas de António Lobo Antunes, tanto as publicadas em jornais e revistas como em livro, sempre as li com muito interesse, como foi o caso deste terceiro volume de crónicas, embora nunca atingindo a fase do entusiasmo, mas descubro sempre nalgumas das suas crónicas o homem solitário, um homem que nasceu para escrever!  
                                     
Novo livro de Lobo Antunes 'A Outra Margem do Mar' publicado em ...
                                                        António Lobo Antunes - Lisboa  1942


sublinhei:

-pág.40 -  Não consigo gostar de uma pessoa que não respeite e admire 

-pág. 177 - Scott Fitzgerald sustentava que não se pode fazer a biografia de um escritor porque ele é muitos 

-pág.193 - Depois percebo que não há nada mais chato para os outros do que um homem que não se chateia

-pág.267- Leonardo da Vinci apresentava-se dessa forma; Leonardo, iletrado



3,5 - interessante

0 - li, mas foi zero
1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
3,5 - interessante
4 - bom
5 - muito bom
6 - excelente
7 - obra prima


quarta-feira, 10 de junho de 2020

"APARIÇÃO" - VERGÍLIO FERREIRA - LEITURAS 2020 - XV


"Aparição" será porventura um dos livros mais conhecidos do grande filósofo e existencialista Vergílio Ferreira. Reli-o agora e como o tinha lido já há muitos anos esta foi como se fosse uma primeira leitura, mas, se agora me foi de leitura difícil calculo o que teria sido há uns anos atrás... 

E que retirei desta releitura? - confesso que o achei um livro pesado com ambientes pesados, personagens pesados, embora muito bem retratados para a época em que o enredo decorre, na década dos anos 50 do século passado, na então provinciana cidade de Évora. 

Realmente um livro com uma estrutura difícil, intensa, diria até desconcertante e, por consequência, de leitura nada fácil. 

Personagens e ambientes que se vêem perfeitamente que são de outra época e que fazem do livro, um livro não diria ultrapassado mas um livro de estrutura complexa, e até de difícil compreensão, embora não deixe de reconhecer que possa ser até considerada uma obra de grande interesse filosófico do grande existencialista Vergílio Ferreira. 

Pareceu-me que serão registos autobiográficos já que uma das personagens principais dá aulas em Évora, tal como aconteceu com o escritor.  

Vergílio Ferreira é, para mim, fundamentalmente um homem do "CONTA-CORRENTE"- a sua grande obra!

Dizia Vergílio Ferreira no seu Conta-Corrente II: "o que importa num Diário não é o que acontece mas a maneira como se faz acontecer".

Creio realmente que a sua grande obra são aqueles seus diários, 9 volumes em que nos dá a conhecer Portugal e os portugueses (e não só) entre 1980 e 1994. Esta sim é, para mim, a sua grande obra. 

Atrevo-me a dizer que todos os outros seus livros se irão, a pouco e pouco, esfumando com o decorrer dos anos, tal como tem acontecido com outros grandes escritores que já ninguém lê e que estão praticamente esquecidos.  

Este "APARIÇÃO" soube-me a um livro fora do seu tempo e da sua época (se isto se poderá dizer de qualquer livro), daí ter terminado a sua leitura "sem honra nem glória" (entre aspas, claro).  

Vergílio Ferreira costumava dizer que ler dá muito trabalho e este é um dos seus livros que dá efectivamente muito trabalho, pois, nas entrelinhas, haverá muita coisa que, acredito, ainda não consegui alcançar.



Aparição", de Vergílio Ferreira
Vergílio Ferreira  -   Melo (Gouveia)  - 1916-1996


sublinhei:

-pág.25-  A verdade de um curso não está no que aí se aprende mas no que disso sobeja 

-pág. 111 - Ser anti é correr ainda o risco de ser pró

-pág.215 - A surpresa só o é uma vez

-pág.271- Um tirano só é grande aos olhos do cobarde



3 - razoável

0 - li, mas foi zero
1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
3,5 - interessante
4 - bom
5 - muito bom
6 - excelente
7 - obra prima




domingo, 24 de maio de 2020

"OS CAVALOS TAMBÉM SE ABATEM" - HORACE McCOY - LEITURAS 2020 - XIV

Pin on Books + Book Covers

Este é um excelente retrato dos Estados Unidos da América nos terríveis anos 30 da Grande Depressão, em que uma imensa maioria da população carecia de uma vida digna sofrendo com o desemprego.

Toda a obra se desenrola no interior de um recinto onde decorre uma maratona de dança, em que ganha o último par a ficar em pé, e que acumula toda a sorte de miseráveis e desesperados que de uma forma verdadeiramente inumana testam ao extremo a sua resistência em troca de comida, roupas e do prémio mais desejado (1.500 dólares) que, certamente, seria na altura uma avultada quantia. 

Neste pequeno relato está contido todo o desespero e toda uma luta de competição entre desesperados que ainda procuram uma chance talvez, quem sabe, em Hollywood, dado que, durante a maratona lhes é anunciado (aos concorrentes) que estarão nas bancadas a assistir muita gente ligada à meca do cinema. nomeadamente alguns realizadores influentes na indústria.

O que me empurrou para a leitura desta pequena novela de 165 páginas (perdido nas prateleiras há mais de 20 anos) foi o já ter visto, há muitos anos na TV, o filme, creio que com uma excelente interpretação da Jane Fonda. 

Confesso que este é um daqueles livros em que gostei mais do filme já que, embora à distância, me pareça que o filme expressa melhor todo o sofrimento e todos os sentimentos daqueles desesperados. Neste sentido, o livro ficou aquém das minhas expectativas. 


   
Horace McCoy | Artista | Filmow
Horace McCoy  -   EUA   1897-1955

3 - razoável

0 - li, mas foi zero
1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
3,5 - interessante
4 - bom
5 - muito bom
6 - excelente
7 - obra prima


segunda-feira, 18 de maio de 2020

"DIÁRIO Vols. XI e XII" - MIGUEL TORGA - LEITURAS 2020 - XIII


Mito de Sísifo: Diário Vols. I e II - Miguel Torga

SE CANTASSE

Se cantasse, talvez o coração
Sossegasse no  peito.
Mas vou perdendo o jeito
De cantar.
A vida, devagar,
Leva-nos tudo,
E deixa-nos na boca o gosto de ser mudo.

-Miguel Torga era de pedra por fora mas de algodão por dentro-

Gosto de ler diários e memórias de escritores e estes Diários, Vols. XI e XII, de Miguel Torga são um manancial de memórias, de literatura, de poesia e de muitos outros aspectos da vida portuguesa; e que bem os relata este grande escritor português!

Como se sabe, Miguel Torga é o pseudónimo literário do médico Adolfo Correia da Rocha.

Nasceu em S. Martinho da Anta (Trás-os-Montes) em 12 de Agosto de 1907 e faleceu em Coimbra em 17.01.1995.

Aos dez anos foi para uma casa apalaçada de familiares, no Porto, onde é um criado para todo o serviço. Contudo, devido à sua insubmissão, foi despedido um ano depois.

Teve seguidamente uma breve passagem pelo Seminário de Lamego mas não querendo ser padre, como disse ao seu pai, emigrou aos treze anos para o Brasil tendo aí trabalhado numa fazenda de café do tio, em Minas Gerais, até aos dezoito anos, O tio, querendo compensá-lo por estes anos de árduo trabalho, dispôs-se a pagar-lhe os estudos e por isso regressa a Portugal licenciando-se pela Faculdade de Medicina, em 1933.  

E em Coimbra exerce clínica durante mais de seis décadas.

Publicou mais de cinquenta livros e foi várias vezes indicado para o Prémio Nobel da Literatura.

Gosto dos seus diários pois em todos, os que li até agora, se afirma, de modo mais ou menos explícito, a vontade de preservar a pureza do ambiente natural.

Nos seus Diários (publicados de 1941 a 1987), estes vols. XI e XII, entre 1968 e 1977, encontramos, em prosa e em verso, admiráveis textos de variada espécie: reflexões culturais do mais longo alcance, lúcidos e pungentes instantâneos de vida quotidiana; corajosas tomadas de posição no campo ideológico; fulgurantes análises da alma e da paisagem portuguesas; apontamentos de deambulações além-fronteiras; belíssimos poemas (como o que acima reproduzo). 

Em suma, é sempre um prazer a leitura dos diários deste grande escritor e grande poeta português, e estes Vols. XI e XII não foram excepção. 

Foi, entre muitas outras honras, distinguido com o Prémios Camões em 1989.


Língua Portuguesa: 10 brilhantes poemas de Miguel Torga | VortexMag
Miguel Torga  -  1907 - 1995
  

sublinhei:

-(pág.23)   -   Leve tudo a sério na vida, mas não se leve a sério a si

-(Pág.35)   -  As pessoas confundiram no meu temperamento modéstia com orgulho, pudor com egoísmo, franqueza com agressividade, desinteresse com estratégia.



3,5 - interessante

0 - li, mas foi zero
1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
3,5 - interessante
4 - bom
5 - muito bom
6 - excelente
7 - obra prima


quinta-feira, 30 de abril de 2020

"COMO UM ROMANCE" - DANIEL PENNAC - LEITURAS 2020 - XII

Como Um Romance - Livro De Bolso

"Como um Romance" - delicia-nos a contrariar todas as ideias feitas sobre o prazer de ler e sobre os valores da escrita.

É sublinhado neste livro delicioso, de capítulos curtos e de apenas 180 páginas, que a leitura deve ser um prazer e os leitores de hoje têm de usufruir de alguns direitos inalienáveis.

A profunda originalidade de "Como um Romance" está na forma ao mesmo tempo muito divertida e muita séria com que o autor aborda a questão central de que dependem tanto o destino do livro como o destino da cultura e da educação. 

Claro que muito haveria para dizer sobre o viciado em livros, que não só gosta de livros como os admira na estante, folheia-os com regularidade, obviamente que, como dizia Eduardo Prado, certamente mais de 70% dos livros que possui ainda os não leu. 

O viciado em livros, normalmente possui vários exemplares de vários títulos, adora falar dos livros que acaba de ler. 

Mas nem só de livros vive o bibliófilo, ele também junta marcadores de livros, não os colecciona, junta-os. 
O bibliófilo adora fazer listas, dos livros lidos, dos livros não lidos, dos que pretende adquirir, mas fica muito chateado quando começa a ler um livro no qual depositava muitas expectativas e o não consegue acabar largando-o com a intenção de mais tarde o recomeçar (o que raramente acontece).

Eis, segundo Pennac, em matéria de leitura os direitos do leitor:
  1. O direito de não ler
  2. O direito de saltar páginas
  3. O direito de não acabar um livro
  4. O direito de reler
  5. O direito de ler não importa o quê 
  6. O direito de amar os "heróis" dos romances
  7. O direito de ler não importa onde
  8. O direito de saltar de livro em livro
  9. O direito de ler em voz alta
  10. O direito de não falar do que se leu
É um livro para todos os que gostam de ler e também para os que não gostam!


Daniel Pennaccioni, Pennac, romancista | Trocando em Miúdos
Daniel Pennac - Casablanca-Marrocos  1948


sublinhei:

-(pág.56)   -   geralmente conseguimos mais depressa e com mais garantias, o que não nos apressámos em obter.



3,5 - interessante

0 - li, mas foi zero
1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
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terça-feira, 21 de abril de 2020

MARYA UMA VIDA - JOYCE CAROL OATES - LEITURAS 2020 - XI


Xis.pt

Poucos se podem igualar a esta escritora americana em intensidade, profundidade e paixão. Esta é uma qualidade, um dom que sempre me maravilhou nos seus livros.

Um fatídico incidente, nunca completamente esclarecido, deixa Marya orfã de pai e desamparado face ao comportamento irresponsável de uma mãe alcoólica que depois a abandona. Este acontecimento converte-se num ponto de referência fundamental na vida de Marya: nada será jamais tão intenso como a força dessa recordação.

Adoptada pelos tios, irá crescendo com ela uma aguda consciência de hostilidade do mundo, a violenta e marcante iniciação sexual (forçada) com o seu primo Lee.

O reencontro com a mãe muitos anos mais tarde, surge a Marya como um ponto aberto à esperança, um desafio inevitável, o risco que tem de correr para conseguir libertar-se dos seus conflitos interiores  —este reencontro, para grande pena minha, é assunto que, penso eu, deveria ser abordado com mais intensidade e não ao de leve como realmente aqui acontece —  

Romance de carácter marcadamente autobiográfico, Marya Uma Vida (1986) é uma comovente recapitulação da história de uma verdadeira heroína dos tempos modernos, de uma infância humilde e obscura até à sua consagração como intelectual brilhante.

Aquilo de que mais gosto nesta escritora está neste livro, já que Joyce Carol Oates envolve-nos no seu universo particular de uma América povoada de monstros, alucinada pelo sangue, pelo crime e pela rejeição. Este clima das gentes da profunda América é fascinante.

Joyce Carol Oates - grande escritora!

Joyce Carol Oates - Joyce Carol Oates promove "Palavras do autor para viver perto" de CAROLEE
Joyce Carol Oates - Lockport - Nova Iorque  1938

retive:

 (pg. 214) - "Sabiam, por exemplo, que a mulher de Freud, Martha, era uma dona de casa e do marido tão compulsiva, tão atenta ao seu génio a ponto de lhe pôr todos os dias a pasta de dentes na escova"



3,5 - interessante

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sábado, 11 de abril de 2020

"TEMPO DE CATANAS" - JEAN HATZFELD - LEITURAS 2020 - X

Tempo de Catanas - Livro - WOOK


Entre Abril e Julho de 1994, foram massacrados no Ruanda 800.000 tutsis —homens, mulheres e crianças — retalhados até à morte, uma a uma, pelos hutus.
Foi um genocídio que seguiu uma estratégia delineada ao pormenor.

Representando cerca de 15% dos ruandeses, os tutsis foram favorecidos pelos colonizadores belgas e dominaram até à independência em 1962. Depois, os hutus procuraram sempre controlar o poder, tendo de enfrentar no início da década de 1990 uma guerrilha tutsi que os desafiava e foi essa guerrilha que depois (da matança) conseguiu derrotar os genocidas.

Neste livro, o jornalista e repórter de guerra Jean Hatzfeld, dá a palavra a um conjunto de assassinos hutus que tentaram exterminar os seus compatriotas tutsis. E são os mecanismos deste genocídio que o autor nos revela. São os relatos sobre o que se passou na cabeça dos homicidas durante as poucas semanas em que decorreu o genocídio.

Em depoimentos alucinantes, nas suas próprias palavras, homens vulgares contam a banalidade de um impensável horror, confrontando o leitor com a inexplicável violência de que o ser humano é capaz.

Estes depoimentos foram recolhidos na prisão, procurando o autor as raízes desse genocídio nas palavras dos executantes do crime. Já condenados e nada tendo a perder estes falam livremente das razões que os levaram a matar de forma sistemática, um a um, os vizinhos, os antigos colegas de escola, aqueles com quem partilhavam o trabalho e inclusivamente a mesma religião católica.

Uma lição de história sobre a barbárie que decorreu no nosso tempo.

Um livro alucinante. 


   Jean Hatzfeld, de retour au Rwanda aux côtés d' Engelbert - A l ...



Anotei:

(pg. 164)  -  há actos por causa dos quais somos condecorados, e formos os vencedores, e enviados para o cadafalso, se formos os vencidos.


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