domingo, 21 de fevereiro de 2016

MEMÓRIAS LONGÍNQUAS DA BAIXA DE LISBOA

Arnaldo de Benavente Ferreira, o pintor da noite (1923-2000)
Foi há muitos anos, trabalhava eu na Baixa de Lisboa, na zona do Rossio, teria talvez uns quinze anos e lembro-me de ver, como se fosse hoje, nas suas deambulações diárias, sempre em passo apressado, rumo à Brasileira do Chiado, parando na Pastelaria Bénard e na Livraria Bertrand e aproveitando para alcunhar de calões todos com quem se cruzava, um homem alto, bem vestido, (vi-o algumas vezes de fraque) e flor branca na lapela. 

Num certo dia, em que, em vez do habitual bouquet de flores que costumava levar consigo, vejo-o, junto à Estação do Rossio, com um busto em madeira do poeta, romancista e historiador Alexandre Herculano, a dirigir-se às pessoas que por ali passavam e colocava-lhes o busto à frente da cara perguntando-lhes em voz alta mas nem sempre bem audível: -não sabes quem é pois não? ignorantes, canalhas, claro que não sabem nada, mas se fosse o Eusébio sabiam de certeza absoluta, cambada de ignorantes; e assim, clamando impropérios, seguia em passo apressado. Conservo perfeitamente na memória a imagem daquele homem alto, falando tão alto e tão ameaçadoramente que por vezes chegava a assustar quem, calma e distraidamente, seguia no seu caminho.    




Nunca mais esqueci aquele personagem gigante, embora não tivesse certamente mais de 1,75. Era o Arnaldo, sempre impecavelmente vestido de negro, sapatos de verniz reluzentes, cabelo bem penteado para trás com brilhantina e a quem chamavam o pintor da noite, ou o sempre noivo. Dizia-se que teria enlouquecido quando a sua noiva morreu uns dias antes do casamento (também corria a história de que a noiva não teria aparecido no dia da boda). 
As suas deambulações pela baixa de Lisboa fazia-as durante o dia já que à noite ficava sempre em casa a pintar - pintava na sua maioria os bairros e as zonas mais características da Lisboa nocturna, sem vivalma.

Sei que o Museu da Cidade tem quadros seus e que, em 2005, foi homenageado pela Câmara Municipal de Lisboa com a Medalha de Mérito Municipal.
Na alta de Lisboa existe uma rua com o seu nome. 

A última vez que o vi foi num eléctrico, quando este "amarelo" ainda circulava na Baixa de Lisboa.





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