sexta-feira, 27 de março de 2020

"O ESCAFANDRO E A BORBOLETA" - JEAN-DOMINIQUE BAUBY - LEITURAS 2020 - VIII


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Um livro escrito com os olhos.

No dia 8 de Dezembro de 1995, um acidente vascular mergulhou Jean-Dominique Bauby num estado de coma profundo. Quando dele emergiu, todas as suas funções motoras se haviam deteriorado, pois fora atingido por aquilo a que a Medicina chama "locked-in syndrom" (literalmente: fechado no interior de si próprio), ficando por isso totalmente paralisado, e só o seu cérebro e a sua pálpebra esquerda eram excepção ficando assim condenado a viver como um vegetal.

Sabia-se que o seu cérebro estava intacto, mas os médicos não acreditavam que um dia fosse possível que ele estabelecesse qualquer tipo de comunicação minimamente elaborada com o exterior.

E inicialmente, apenas o ensinaram a dizer sim e não com a pálpebra —uma piscadela queria dizer "sim", duas "não"—

Um dia, uma ortofonista (especialista em métodos de reeducação verbal e da voz) olhou bem para ele e para os seus movimentos com a pálpebra esquerda. E percebeu que seria possível estabelecer, com relativa facilidade. um contacto inteligente.
E com a ajuda de um alfabeto especial (conhecido em França com o nome de ERSATUIL) e através de 200 mil piscadelas de olho escreveram um livro que é uma reflexão sobre a vida. 

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Um livro que nos descreve o que só ele via o que só ele ouvia, as pessoas que dele tratavam, o enfermeiro que lhe apagava a televisão a meio de um jogo de futebol do seu clube que seguia com todo o fervor, os comentários do enfermeiro que entrava no quarto como se ninguém lá tivesse, o que lhe dizia bom dia sempre com o mesmo tom e sempre sem o ver...

Quatro dias depois do início da distribuição do livro, o jornalista Jean-Dominique Bauby, faleceu aos 45 anos de idade.

Na altura da morte do autor desta obra, o jornalista Daniel Ribeiro correspondente do jornal Expresso em Paris, escreveu: 
Até ao dia em que sofreu o derrame que o paralisou, Jean-Dominique Bauby era um homem de acção. Andava de moto, frequentava os circuitos da Formula 1, conduzia a alta velocidade e, mundano, bebia e gostava de conversar e de frequentar bares na moda. Adorava Paris e Nova Iorque e florestas tropicais. Era chefe de redacção da revista "Elle" desde 1994. Antes, tinha sido jornalista no "Combat" e no "Quotidien de Paris", chefe de redacção do "Matin de Paris" e editor da secção cultural do "Paris Match".

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Jean-Dominique Bauby com os filhos

 -sublinhei: 

- (da pág. 137) - As portas do BMW fecham-se suavemente. Disseram-me um dia que os bons carros se reconhecem pela qualidade desse som.



3,5 - interessante

0 - li, mas foi zero
1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
3,5 - interessante
4 - bom
5 - muito bom
6 - excelente
7 - obra prima


sábado, 21 de março de 2020

"DIÁRIO DE ANNE FRANK" - LEITURAS 2020 - VII

diarioannefrankxs


Este é um dos livros mais lidos de sempre, sobre a tragédia da jovem judia holandesa que, entre 1942 (tinha então 13 anos) e 1944, foi acolhida, com a família, num sótão e que deixou os seus pensamentos escritos neste diário, em que regista os últimos 14 meses de tormento vividos com os pais e a irmã mais velha num anexo clandestino de Amesterdão, às escondidas das autoridades hitlerianas.

O esconderijo foi descoberto por denúncia, só que nunca se apurou ao certo quem foi o autor da denúncia que levou à descoberta do refúgio. Recentemente um estudioso sobre Anne Frank sustenta que o denunciante terá sido um sócio de Otto Frank, o pai de Anne. Mas outros historiadores aventam outros nomes.

Anne Frank e os restantes sete "mergulhados" (assim se chamavam aos que se mantinham escondidos da fúria nazi) foram descobertos e enviados para campos de concentração. O pai sobreviveu mas Anne e sua irmã morreram em Março de 1945 no campo de concentração de Bergen-Belsen (norte da Alemanha), dois meses antes da libertação da Holanda.

Já havia lido este livro há mais de dez anos e é um livro que toda a gente deveria ler. 

É um livro importante!

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-sublinhei: 

- (da pág. 12) - As lágrimas humanas são as mesmas em todos os seres humanos e em todas as partes do mundo

- (da pág. 115) - É sempre melhor não adiar o que tem de se dizer


4 - bom

0 - li, mas foi zero
1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
3,5 - interessante
4 - bom
5 - muito bom
6 - excelente
7 - obra prima

quarta-feira, 11 de março de 2020

"LIVRARIAS" - JORGE CARRIÓN - LEITURAS 2020 - VI

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Uma pequena viagem pelas maiores e mais antigas livrarias do mundo.

Por exemplo, a mais antiga de Itália, a LIBRERIA BOZZI foi fundada em 1810 e continua aberta, o seu primeiro proprietário foi um sobrevivente da Revolução Francesa, chamava-se António Beuf.

A mais antiga do mundo é, segundo o Record Guiness, a Livraria Bertrand, em Lisboa. 

A Livraria Lello, do Porto, cujas origens remontam a 1881, foi fundada com o nome Livraria Internacional de Ernesto Chardron, na Rua dos Clérigos, foi depois rebaptizada como Sociedade José Pinto Sousa Lello & Irmão, estabelecendo-se na Rua do Almada. Finalmente em 1906, a livraria receberia o seu nome definitivo, Livraria Lello & Irmão, com a construção do edifício actual —entre neogótico e art deco—

                                                     Livraria Lello - Porto


Resultado de imagem para livraria lello portoLivraria Lello, Porto, Portugal - #oporto #porto #portugal #lello A Livraria Lello é considerada uma das livrarias mais bonitas do mundo.  Já visitei várias vezes a cada visita à cidade do Porto.  Nesta última visita, fiquei surpreendido com a notícia de que a entrada era paga.  O preço da entrada pode, no entanto, ser deduzido do preço da compra de qualquer livro.  A Livraria Lello é considerada uma das livrarias mais bonitas do mundo.  Eu o visitei várias vezes toda vez que visito o Porto.  Nesta última visita, fiquei surpreso com a notícia de que a entrada foi paga.  O preço do bilhete pode, no entanto, ser deduzido do preço da compra de qualquer livro.


Num misto de ensaio e livro de viagens, Jorge Carrión cria uma possível cronologia do desenvolvimento das livrarias e do que elas representam, não apenas como actividade económica mas sobretudo como mitos culturais, centros de tertúlia e de debate político, ou lugares para a troca de ideias e refúgio dos solitários.

Nestas páginas nomes míticos desfilam como emblemas da melancolia e de conforto, como a Bertrand do Chiado lisboeta, as parisienses La Hune ou a mítica Shakespeare & Co., Lello (Porto), entre muitas outras.

                               Livraria Bertrand - Lisboa - a mais antiga do mundo  (1732)








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Motivado pelo tema, esperava eu que fosse uma viagem fascinante ao coração dos livros mas devo confessar que, talvez porque as minhas expectativas eram muito altas, senti alguma frustração pois o livro será, talvez, demasiado condensado e, na minha modesta opinião, pouco esclarecedor (por vezes até maçador), e, repito, se as minhas expectativas eram altas...talvez daí esta pequena desilusão. 

Em bom português, e o Jorge Carrión que me perdoe, mas aqui talvez o autor tenha tido mais olhos que barriga...   



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Jorge Carrión - n. Tarragona-Espanha-1976

 Li e retive: 

 - (pg.76) - Oscar Wilde morreu na capital francesa, sumido na indigência


- (pg. 225) - A FNAC nasceu em 1954 como uma espécie  de clube literário de espírito socialista


- (pg. 233) - A primeira edição da Reader's Digest saiu em Fevereiro de 1922


- (pg. 262) - A Ler Devagar é, actualmente, a livraria com mais livros em Portugal





2 - li, mas não me cativou

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1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
3,5 - interessante
4 - bom
5 - muito bom
6 - excelente

7 - obra prima

quarta-feira, 4 de março de 2020

"UMA ABELHA NA CHUVA" - CARLOS DE OLIVEIRA - LEITURAS 2020 - V

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"UMA ABELHA NA CHUVA" é o nº. 13 da nova Colecção Miniatura dos Livros do Brasil e foi o último volume publicado desta interessante e bonita colecção. 

Sei lá há quantos anos ando para ler este livro de Carlos de Oliveira, que nasceu em Belém do Pará, filho de pais portugueses emigrados no Brasil. Tinha apenas dois anos quando a família regressou a Portugal.

Um bom livro que nos conta a história de Álvaro Silvestre que vive um casamento falhado e estéril, gerado pela conveniência de antigos interesses familiares, na pequena aldeia de Montouro, espaço provinciano onde todas as biografias se cruzam, se intrometem umas nas outras. 

Num Outono chuvoso e lamacento, as vidas dos protagonistas de uma "Abelha na Chuva" afundam-se num ciclo trágico de mentiras, vingança e amores frustrados, que põe a nu a estrutura social de um Portugal pobre, desamparado, do século XX. 

Lançada em 1953, esta é uma obra incontornável do neorealismo português e um livro que li com muito interesse.




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Carlos de Oliveira - Belém do Pará-Brasil- 1921-1981


-sublinhei (da pág. 31): - Se as orações dos cães chegassem ao céu choviam ossos



4 - bom

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1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
3,5 - interessante
4 - bom
5 - muito bom
6 - excelente
7 - obra prima
  

domingo, 1 de março de 2020

"TUDO O QUE NÃO ESCREVI" - DIÁRIO I - EDUARDO PRADO COELHO - LEITURAS 2020 - IV

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Eduardo Prado Coelho era um "tudólogo", como já o ouvi designar por alguns escritores, nomeadamente pela bonita escritora Patrícia Reis, que às 4ª.s feiras, às 23h, oiço com frequência na Antena Um, com as suas amigas e igualmente belíssimas escritoras Rita Ferro e Inês Pedrosa e ainda Ana Daniela Soares, no programa "A páginas tantas", o único programa (excelente) sobre literatura de que tenho conhecimento na nossa Rádio, e do qual sou ouvinte assíduo.

Eduardo Prado Coelho não era propriamente um desconhecido para mim, pois lia sempre com muito interesse as suas crónicas jornalísticas e até já tinha lido um livro seu (agora não me lembro do título). 
Infelizmente, esta edição deste seu Diário I, de "Tudo o que não escrevi", edição da ASA, que requisitei numa Biblioteca Pública, tem (a meio do livro e às vezes intercaladamente) cerca de vinte páginas totalmente em branco que, certamente por lapso (quiçá até por desleixo), não foram impressas e, como facilmente se deduz, há assim longos trechos do livro que ficaram completamente destruídos.

Contudo, do que li, não deixei de gostar, até porque gosto de diários e a referência a personagens como Baptista Bastos, Vergílio Ferreira, Luís César Monteiro interessaram-me sobretudo.

Por exemplo, esta passagem referente ao João César Monteiro parece-me genial:
  - O João César será sempre o indivíduo que tendo matado o pai e a mãe, chega ao tribunal e diz: "Perdoe-me, Senhor Doutor Juiz, que eu sou um orfãozinho"; e outras passagens muito engraçadas como, por exemplo, sobre Luiz Pacheco, Vasco Pulido Valente e outros personagens interessantes.

Retive ainda esta sua brilhante análise sobre o que era a sua biblioteca particular: 
-"a minha biblioteca só seria uma realidade tranquilizante se obedecesse à regra muito simples de conter tantos livros por ler quanto os livros que nela já li."

Não fora o facto deste Diário I estar "bombardeado" do modo que já salientei e diria que a leitura do mesmo tinha sido óptima, assim...a leitura do Diário II ficará para segundas núpcias.  


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Eduardo Prado Coelho  1944-2007


3 - razoável

0 - li, mas foi zero
1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
3,5 - interessante
4 - bom
5 - muito bom
6 - excelente
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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

"MARIA ADELAIDE COELHO DA CUNHA - DOIDA NÃO E NÃO" MANUELA GONZAGA - LEITURAS 2020 - III



A prepotência, a malvadez, a tirania estão bem expressas neste excelente documento muito bem escrito por esta autora que eu desconhecia (Manuela Gonzaga). Aqui são retratadas e postas a nu figuras preponderantes da alta sociedade da época e que encaixavam em si a malvadez, que com o seu poder conseguiram (à força) internar num manicómio uma mulher saudável de corpo e mente. Para grande espanto meu (ou não) uma dessas pessoas foi o nosso primeiro Nobel, o Dr. Egas Moniz que juntamente com os poderosos alienistas da época (médicos especializados em doenças mentais) Júlio de Matos e Sobral Cid, assinaram, a troco de privilégios (de classe) e monetários, um documento comprovando a loucura desta mulher, utilizando, entre outros, o argumento climatério (idade crítica) para declarar Maria Adelaide Coelho da Cunha "degenerada hereditária, na qual se vem manifestando em relação com a menopausa, graves perturbações dos afectos  e dos instintos que a privam e capacidade civil para reger a sua pessoa e administrar os seus bens."

Os factos relevantes têm início em Novembro de 1918: era uma vez uma senhora muito rica (Maria Adelaide Coelho da Cunha, filha mais velha e herdeira do fundador do Diário de Notícias, o jornalista Eduardo Coelho) que fugiu de casa, trocando o marido, escritor e poeta, por um homem (Manuel Cardoso Claro) que, ao contrário do rude e déspota do marido, sempre a tratou digna e carinhosamente, com consideração e amor. Tinha quarenta e oito anos, pertencia à melhor sociedade portuguesa. O homem com quem esta senhora se mudou, de um palácio lisboeta para um modestíssimo andar em Santa Comba Dão, tinha praticamente metade da sua idade e fora seu motorista particular. 

É mais do que um livro é um documento comprovando excelentemente aonde poderá chegar a prepotência de certas pessoas poderosas que usam o seu poder para levar por diante os seus infames objectivos. E é, acima de tudo, o testemunho da vontade indómita de uma mulher que tudo arriscou por amor. 

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3,5 - interessante

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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

"ÚLTIMO CADERNO DE LANZAROTE" - JOSÉ SARAMAGO - LEITURAS 2020 - II

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Já me tinha deliciado com os cinco volumes dos "Cadernos de Lanzarote" - este, embora no título não tenha a indicação de que seja o 6º. volume, creio que se insere na categoria dos referidos cinco e poder-se-à considerar como o sexto dos Cadernos de Lanzarote.  Ao título ainda se acrescenta um chamamento "o diário do ano do Nobel", que é mais um apelativo para a sua leitura.

Gosto de diários e devo salientar que os referidos cinco volumes dos "Cadernos de Lanzarote" estão dentro daqueles belos livros, bela escrita do nosso Prémio Nobel.
E este "Último Caderno de Lanzarote" também tem o "selo" do grande escritor, integrando este relato diarístico elementos da agenda do escritor, artigos da revista Visão, cartas e discursos sobre a sua obra.

Os sublinhados são quase uma constante nos livros de Saramago, e este não escapa, por exemplo: 

-"O tempo tem razões que os relógios desconhecem, para o tempo não existem o antes e o depois, para o tempo só existe o agora", ou 

-a referência à matança de Acteal, ocorrida em 22 de Dezembro de 1977, e consistiu na chacina de 45 indígenas no estado mexicano de Chiapas (estado do sul do México, na fronteira da Guatemala, que não poupou crianças nem velhos nem mulheres)

-o urinol, que alguém considerou como uma obra de arte, a que Marcel Duchamp deu o nome de Fonte (dupla contradição: sendo, como é, receptáculo um urinol é precisamente o contrário de uma fonte).

E muitas, muitas outras referências a situações que desconhecia e que, repito, me deliciaram.


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José Saramago  -  1922-2010

3,5 - interessante

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quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

"NA FLORESTA" - EDNA O'BRIEN - LEITURAS 2020 - I

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Há quanto tempo não lia um livro que me entusiasmasse tanto?

Um livro para o qual partimos sem qualquer expectativa e de repente estamos totalmente embrenhados em cada página sentindo a satisfação do que é o prazer da leitura — há quanto tempo?
  
Este é realmente um livro daqueles em que estamos sempre ansiosos de passar à página seguinte para saber o que se vai passar —e isto aconteceu-me precisamente com o primeiro livro que li em 2020—.

"NA FLORESTA" , da irlandesa Edna O´Brien, nascida em 1930, foi-me recomendado por um amigo que, no que respeita a livros, tem mais ou menos os mesmos gostos do que eu e mais uma vez tal se confirmou. 

Baseado num caso real que chocou a Irlanda dos anos 90.

"Na Floresta" conta-nos a história do regresso de Mick O´Kane a casa. Órfão violento e perturbado, tratado desde criança por todos como um bicho-papão, ninguém na pequena comunidade onde cresceu consegue lidar com ele. Até que uma jovem mãe e o seu filho de quatro anos desaparecem na floresta.

"Na Floresta" arrasta o leitor para o interior da mente psicótica de um assassino, compondo um retrato chocante e compassivo da solidão, do desespero da carência e da violência.

É um excelente livro de uma magnífica escritora, que não conhecia.

Li-o de um fôlego! 
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Edna O´Brien- Irlanda  1930


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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

LEITURAS 2019 - BALANÇO

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2019 não foi um ano de muitas leituras, foram vinte e seis livros lidos, uns cinco ou seis de que realmente gostei bastante, mas não "apanhei" nenhum daqueles a que poderei referir como obra-prima. 

Algumas desilusões, nomeadamente num livro que tinha comprado já há uns anos e sobre o qual depositava grandes expectativas "Homem Invisível" de Ralph Ellison. 

Philippe Claudel continua a não me desiludir, li mais um belíssimo livro dele ("O Relatório de Brodeck"), e também gostei imenso das longas viagens de João Céu e Silva com os escritores José Saramago, António Lobo Antunes e Miguel Torga. 
Outro excelente livro que li em 2019 foi "Morte dum Caixeiro Viajante".  

Eis, começando pelos que mais gostei, os livros que li em 2019, com a respectiva pontuação de 1 a 7:



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  1. "O Relatório de Brodeck"  -  Philippe Claudel   -  4
  2. "Um longa viagem com António Lobo Antunes"  -  João Céu e Silva  -  4
  3. "Morte dum Caixeiro Viajante" - Arthur Miller  -  4
  4. "Uma longa viagem com José Saramago"  -  João Céu e Silva  -  4
  5. "Em tudo havia beleza"  -  Manuel Vilas  -  4
  6. "O Fantasma sai de cena" -  Philip Roth  -  4
  7. "Nunca dancei num coreto"  -  Maria Filomena Mónica  - 3,5
  8. "Sul profundo"  -  Paul Theroux  -  3,5
  9. "O diário secreto de Hendrik Groen aos 83 anos e 1/4"   -  3,5
  10. "Quando os tontos mandam"  -  Javier Cercas   -  3,5
  11. "Manual de Pintura e Caligrafia"  -  José Saramago   -  3,5
  12. "Nos mares do fim do mundo"  -  Bernardo Santareno   -  3.5
  13. "Uma longa viagem com Miguel Torga"  -  João Céu e Silva  -  3,5
  14. "Soldados de Salamina"   - Javier Cercas    -   3,5
  15. "Lá fora" -  Pedro Mexia  -   3,5
  16. "Manobras de Guerrilha-Pugilistas, Pokemons & Génios- Bruno Vieira Amaral - 3
  17. "Judas, o obscuro"  -  Thomas Hardy  -  3
  18. "Os vícios dos escritores"  -  André Canhoto Costa   -   3
  19. Diário - Vols. IX e X"  -  Miguel Torga   -  3
  20. "Os cães ladram"  -  Truman Capote   -   3
  21. "Contos"  -  Vergílio Ferreira  -  3
  22. "Contos Argentinos"   -  vários autores  -   2
  23. "Porto-Sudão"  -   Olivier Rolin  -  2
  24. "Homem Invisível"  -  Ralph Ellison   -   2
  25. Viagem Marítima com Dom Quixote"   -   Thomas Mann   -   2
  26. "No bosque do espelho"   -  Alberto Manguel  -  2 



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sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

"O FANTASMA SAI DE CENA" - PHILIP ROTH - LEITURAS 2019 XXVI

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Este foi o último livro que li em 2019 (o vigésimo quinto). Aliás, é uma releitura pois já o havia lido em 2010, mas já não me lembrava de nada.  

Philip Roth é um dos meus escritores favoritos e este é mais um bom livro, mas "A Pastoral Americana" foi o que mais gostei.

"O Fantasma sai de cena" é um excelente retrato sobre a velhice, sobre a solidão. Nathan Zuckerman, o personagem habitual dos seus livros, vive sozinho na sua montanha da Nova Inglaterra, sem vozes, sem jornais nem televisão, sem ameaças terroristas, sem mulheres, sem notícias, sem outras ocupações que não fossem trabalhar (é escritor) e enfrentar a velhice. 

Nathan decidiu voltar a Nova Iorque, a cidade que abandonara há onze anos. Percorrendo as ruas como uma alma penada, depressa estabelece relações que fazem explodir a sua solidão tão cuidadosamente protegida. Uma é com um jovem casal com quem combina permutar a sua casa na montanha com o apartamento destes em Nova Iorque. 

É, como se pode ler na contracapa, mais um testemunho do que têm de incomparável o estilo e os temas de Roth e um salto surpreendente para uma nova fase na insaciável entrega deste grande escritor à ficção. 

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Philip Roth  -  EUA  1933-2018

Li e retive:    
  -...senti-me por momentos como Rip Van Winkel (o nome de um conto, publicado em 1819, sobre uma personagem homónima escrito por Washington Irving, personagem que, quando ao cabo de vinte anos a dormir, desceu das montanhas e voltou para a sua aldeia convencido de que só tinha passado uma noite fora. Só quando inesperadamente sentiu na mão a barba comprida e grisalha que lhe crescia do queixo percebeu que tinha passado muito tempo e ficou a saber que já não era um súbdito colonial da Coroa Inglesa mas sim um cidadão dos recém-fundados Estados Unidos) 


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domingo, 5 de janeiro de 2020

"LÁ FORA" - PEDRO MEXIA - LEITURAS 2019 - XXV

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Tudo o que me venha à mão e seja escrito por Pedro Mexia eu leio!

Gostava de escrever assim tão bem e tão simples!

Este livro de crónicas de Pedro Mexia foram, na sua maioria, publicadas no jornal Expresso entre 2011 e 2017.

Tal como se pode ler na contracapa "Lá fora" não é um livro sobre viagens demoradas a lugares exóticos, passeios venturosos a altas montanhas ou selvas escuras, ou grandes temporadas em metrópoles sofisticadas; aqui, mais do que lugares físicos onde tenha estado, Pedro Mexia escreve sobre lugares mentais. Há os teatros e as livrarias de Londres, mas também "Paris, Texas" de Wim Wenders. Há a Lisboa das Avenidas Novas e do Chiado, mas também as viagens de liteira de Camilo Castelo Branco. Há os Verões da infância na Figueira da Foz, mas também a ilha grega de Leonard Cohen. Deambulando por geografias de espécie diferente, Mexia descreve lugares por onde passou e que, de alguma forma, não esqueceu.

Pedro Mexia é realmente um talentoso cronista com olhar certeiro e prosa afiada, que leio sempre com muito interesse. É sóbrio, é contido e tem talento!


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Pedro Mexia  - Lisboa  1972
   
Li e anotei;

-KIPÁ (QUIPÁ)  -  é o chapéu, boina, touca ou outra peça de vestuário utilizada
pelos judeus tanto como símbolo da religião como símbolo de temor a Deus. 


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segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

"NO BOSQUE DO ESPELHO" - ALBERTO MANGUEL - LEITURAS 2019 - XXIV

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Alberto Manguel é um homem que gosta de livros, um homem que sabe de livros mas, na minha perspectiva, não será um grande escritor.

Contudo, tenho sempre alguma curiosidade em ler os livros dele, embora fiquem sempre aquém das minhas expectativas.

Neste livro de ensaios sobre literatura e o mundo, também se fala da ditadura na Argentina, das Mães da Praça de Maio, do político Mário Vargas Llosa (a antítese do escritor).

Alberto Manguel recorre a histórias pessoais e reflexões literárias com humor e uma erudição subtil, levando-nos a reflectir sobre as delícias e responsabilidades da leitura — uma viagem despoletada pela humanidade do autor, pela sua curiosidade insaciável e extraordinária abrangência da percepção do mundo.

Um livro que fala de livros é sempre interessante!


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Alberto Manguel  -  Buenos Aires  1948
Li e anotei:

-Poucos são os que têm a coragem ou a influência literária de um Graham Greene,
que, quando o editor lhe sugeriu a alteração do título do seu romance "Viagens com a minha tia" respondeu com um telegrama de cinco palavras: "Mais fácil trocar editor do que trocar título"
    



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quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

"VIAGEM MARÍTIMA COM DOM QUIXOTE" - THOMAS MANN - LEITURAS 2019 - XXIII

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Quando iniciei a leitura deste livro pensava que estava perante um pequeno diário, só que, afinal, este não é propriamente um diário mas sim um ensaio, escrito durante uma viagem do autor, com a sua mulher, aos Estados Unidos da América e que testemunha o envolvimento do escritor com a obra-prima de outro grande nome da literatura. 

Efectivamente é durante essa viagem marítima que o autor se dedica à leitura de Dom Quixote, expressando as suas opiniões sobre a obra de Cervantes. 

Devo realçar que estas opiniões não foram para mim entusiasmantes nem tão pouco me criaram grandes (nem grandes nem pequenas) expectativas com vista a uma futura leitura deste clássico, aliás, fizeram até muita mossa nas muitas que eu mantinha sobre o livro, há muito tempo.

E sobre a vida a bordo?
E sobre os eventuais incidentes que porventura poderão ter ocorrido durante a travessia?
São  muito poucas as páginas em que tal é descrito.

Por isso as expectativas que depositava neste pequeno livrinho de 123 páginas, deste grande escritor, foram por água abaixo. 
Desilusão!

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Thomas Mann - Império Alemão - 1875-1955
fotografia tirada durante a travessia rumo a
Nova Iorque, em 18 de Junho 1934, com sua
mulher Katia Mann
Li e anotei:

-Tudo o que é bom requer o seu tempo
    


0 - li, mas foi zero
1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
3,5 - interessante
4 - bom
5 - muito bom
6 - excelente
7 - obra prima
     

domingo, 22 de dezembro de 2019

"EM TUDO HAVIA BELEZA" - MANUEL VILAS - LEITURAS 2019 - XXII

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Quantas vezes não pensámos já no que não dissemos e queríamos dizer a quem já partiu, aos nossos pais já perdidos, aos nossos tios mais queridos.

Um relato intimo de perda e vida, de luto e dor, de afecto e pudor.

"Livro potente, sincero, por vezes descarnado, sobre a perda dos pais, sobre a dor das palavras não ditas e sobre a necessidade de amar e ser amado. Além de tudo isto, muito bem escrito". Estas são palavras do escritor espanhol Fernando Aramburu, de quem li, não há muito tempo, um livro excelente e que nos traça um retrato assombroso da extinta ETA.

A história profundamente íntima e comovente de um homem que procura no passado o caminho para regressar ao presente.

Um livro autobiográfico de uma força telúrica em que a tristeza e a melancolia varre cada página do mesmo. 


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Manuel Vilas -  n. 1962 - Aragão-Espanha


Li e anotei:

-Por muito mal que nos corra a vida, há sempre alguém que nos inveja

-As pessoas amam os heróis, não vítimas 
    

0 - li, mas foi zero
1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
3,5 - interessante
4-bom
5 - muito bom
6 - excelente
7 - obra prima

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

"SOLDADOS DE SALAMINA" - JAVIER CERCAS - LEITURAS 2019 - XXI


Soldados de Salamina

Este é o nº. 2 da Colecção Miniatura, numa nova edição dos Livros do Brasil, e da qual já estão publicados doze. A antiga Colecção foi publicada entre 1951 e 1967.

Aborda um tema que sempre me despertou curiosidade pela escassez de informação referente à mesma — a Guerra Civil Espanhola, que decorreu entre 17.07.1936 e 01.04.1939—.

Neste livro, em que o autor cria, como se poderá ler na contracapa, uma nova forma de abordagem deste fratricídio, construindo o seu relato sem apriorismos ideológicos.

Um soldado republicano pôde matar um militar fascista mas não o fez. Javier Cercas transforma esse soldado que teve um gesto de piedade num herói.

Refira-se que o soldado fascista tinha escapado a um pelotão de fuzilamento e andava fugido, tendo um dos seus perseguidores, o soldado republicano, conseguido localizá-lo, ficando frente a frente com ele mas fez que o não viu, poupando-lhe assim a vida e, consequentemente, facilitando-lhe a fuga.  


Imagem relacionada
Javier Cercas  1962 -   Cáceres-Espanha 

Nota: a antiga e excelente Colecção Miniatura, Edição Livros do Brasil, compreendia 170 volumes em formato de bolso (11 x 16 cm, mais pequena que a actual) foi editada entre 1951 - 1967. 
As bonitas capas dos primeiros 115 volumes foram ilustradas por Bernardo Marques e os restantes por Infante do Carmo.
Traduções dos mais credenciados escritores portugueses (e não só), nomeadamente Jorge de Sena, Alexandre Pinheiro Torres, João Palma Ferreira, Alexandre Cabral, Artur Portela Filho, Erico Veríssimo, Ilse Losa, António Ramos Rosa, António Lopes Ribeiro e outros.

Nº. 1 da antiga Colecção Miniatura
"O LIivro das Lendas" - Selma Lagerlöf
Nº. 170  -  "O Aniversário da Infanta"
Oscar Wilde e outros (o último volume publicado
desta antiga colecção)

Li e anotei;

-Javier Cercas em conversa com Bolaño:
    JC - leste os livros que te dei?
     B  - claro, eu até leio os papéis que encontro na rua 


0 - li, mas foi zero
1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
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5 - muito bom
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quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

"UMA LONGA VIAGEM COM MIGUEL TORGA" - JOÃO CÉU E SILVA - LEITURAS 2019 - XX

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Adolfo Correia da Rocha era o seu verdadeiro nome, Miguel Torga era o seu pseudónimo, criado quando tinha vinte e sete anos (em 1934).

TORGA é o nome de uma planta modestíssima que se queimava nas lareiras dos pobres que não tinham lenha mas, ao mesmo tempo a torga é um arbusto muito retorcido e o Torga também era uma pessoa assim. Está perfeitamente adequado ao seu temperamento, é uma planta silvestre, modesta, humilde, com as raízes retorcidas na terra para custar mais a arrancar. Não é por acaso que a escolhe.

MIGUEL por ser um nome universal, Miguel Ângelo, o singular, o húmus nativo e o mundo.  

Também se diz que (Miguel) em homenagem a dois grandes vultos  da cultura ibérica, Miguel de Cervantes e Miguel Unamuno.

Torga não seria um homem de trato fácil e tal como refere João Céu e Silva "a primeira conversa feita com os que o conheceram foi sempre difícil. E se me apresentava como jornalista pior ainda, portanto, à terceira foi de vez e a partir daí deixei de mencionar esta parte da identificação".

Gosto muito de ler Miguel Torga mas desconhecia este livro (uma edição da ASA de 2007) que tanto prazer me proporcionou, pois fiquei a conhecer um pouco mais do homem e do seu amor à terra e aos seus lugares de eleição. 

"Torga era um homem que foi criado com valores de pessoas que quando deixavam cair ao chão um bocado de pão o apanhavam e beijavam, e um homem assim tem um compromisso com a vida e com a dignidade do ser humano". 


1984
Miguel Torga   -  1907-1995  


retive e anotei:

-...lembra-se de o poeta lhe perguntar com é que iam os estudos e que ao dizer-lhe que iam mais ou menos ele respondeu-me que as coisas mornas não interessam ou é quente ou é frio.



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