sexta-feira, 18 de setembro de 2015

LEITURAS 2015 - XXXI - NÓS OS AFOGADOS - CARSTEN JENSEN


"NÓS, OS AFOGADOS" do dinamarquês CARSTEN JENSEN é um grande livro de aventuras e de personagens de toda a catadura. Narra a história da cidade portuária de Marstal, cujos habitantes se fizeram ao mar e navegaram pelo mundo inteiro a partir de meados do século XIX até ao final da Segunda Guerra Mundial. Por isso mesmo, no cemitério de Marstal quase só há mulheres e crianças porque durante séculos o mar não devolvia os seus mortos.

Aqui se contam as histórias de navios afundados e destruídos em guerras, de lugares de horror e violência que continuam a fascinar todas as gerações: aqui encontramos canibais, sonhos proféticos e sobrevivências miraculosas. O resultado é uma saga apaixonante, repleta de sabedoria e humor, de pais e filhos, das mulheres que eles amam e deixam para trás e da promessa assassina dos mares.  

Excelente livro cuja história se estende por quatro gerações, atravessando duas guerras mundiais e um século de história.

Também nele se fala de Portugal, quando um navio visitou Setúbal (logo a seguir à monarquia (1910)), eis a impressão dos marinheiros dinamarqueses sobre o nosso país:"Há sempre confusão por aqui. Eles criam algum caos e abatem-se uns aos outros. Dizem que querem mudança mas na próxima vez que se voltar cá, está tudo como sempre foi. É assim que eles são. Não dominam o seu temperamento e nunca fazem nada."

794 páginas cheias de acção, de conhecimento dos mares (e não só) que valeu a pena. Mais uma excelente descoberta.


   Carsten Jensen é um escritor dinamarquês nascido em 1952. Com este livro venceu em 2007
o mais importante dos prémios literários da Dinamarca.




segunda-feira, 14 de setembro de 2015

LEITURAS 2015 - XXX - "PERGUNTA AO PÓ" - JOHN FANTE


Mais um livro surpreendente da saga Bandini, uma personagem fascinante e duma dimensão por vezes odiosa e repelente, por vezes absolutamente verdadeira e adorável, que John Fante iniciou com o excelente "A PRIMAVERA HÁ-DE CHEGAR", continuando com o empolgante "ESTRADA PARA LOS ANGELES" e ainda com "OS SONHOS DE BUNKER HILL" (o único que ainda não li e por isso não o poderei cognominar) .

Este "PERGUNTA AO PÓ" de JOHN FANTE é a história de Arturo Bandini, um jovem aspirante a escritor recém-chegado à Los Angeles dos anos 30. Lutando pela dura sobrevivência diária enquanto sonha com o sucesso literário, Bandini vai-se deixando fascinar pelo sórdido da cidade até se envolver com a esquiva e temperamental Camila Lopez, uma empregada de bar mexicana. A paixão que a um tempo o arrebata transforma-se, pouco a pouco, numa destrutiva relação de amor-ódio que vai conduzir a um trágico desenlace.

"Pergunta ao Pó" é uma obra marcante de um mestre da ficção americana do séc. XX e foi adaptado ao cinema por Robert Towne que o classificou como o melhor romance alguma vez escrito sobre Los Angeles.    

John Fante - a loucura genial gerou um grande escritor!
EUA 1909 -1983 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

SALTARAM DAS TORRES GÉMEAS - (A BELA SUICIDA)


Calcula-se que no dia 11 de Setembro de 2001, perto de 200 pessoas tenham saltado das Torres Gémeas.

Precedendo os que saltaram no 11 de Setembro de 2001, Evelyn McHale de 23 anos, lançou-se, na manhã do dia 1 de Maio de 1947, do 86º. andar do Empire State Building de Nova York, depois de discutir com o seu namorado. Deram-lhe o nome da "Bela Suicida"

Um jovem estudante de fotografia que circulava no outro lado da rua, captou a imagem da rapariga jazendo sobre o tecto da limusina (Cadillac) de um mandatário das Nações Unidas. O motorista, que tinha ido a uma farmácia ali perto, escapou do impacto.

A polícia encontrou  dentro do casaco cinzento da bela mulher, um livro de bolso, alguns dólares e uma bolsa de maquilhagem com várias fotos de familiares e uma nota manuscrita que dizia: -"Ele está muito melhor sem mim...eu não seria uma boa esposa para ninguém".



quarta-feira, 9 de setembro de 2015

LEITURAS 2015 - XXIX - "conta-corrente" nova série I

  Vergílio Ferreira nasceu em Melo (Gouveia) em 28 de Janeiro de 1916
e morre a 1 de Março de 1996, estando sepultado em Melo. 
"conta-corrente" é um diário excelente, distribuído em nove volumes, que inicialmente deveria ter apenas cinco, mas que Vergílio Ferreira entendeu prolongar, com a publicação numa nova série, de mais quatro, totalizando assim esta escrita diarística: nove volumes.
Todavia, a este propósito escreve, neste volume I desta nova série, o próprio autor: "É absolutamente necessário deixar aqui expresso para mim mesmo que isto não é a continuação de "conta-corrente". O diário acaba no volume V. O que aqui vão são escorralhas do acontecer diário, pois que as "reflexões" vão no outro livro que escrevo também paralelamente a este e ao romance..."

Já os tinha lido todos há cerca de três anos mas resolvi relê-los e este que acabei de (re)ler nas férias é o primeiro da nova série (de quatro volumes). E como todos os anteriores é um retrato excelente de anos passados ainda muito próximos, este volume I desta nova série aborda o ano de 1989. Vale a pena ler pois ajuda-nos a perceber um rico pedaço da nossa história recente. obviamente que pela perspectiva do autor. 

Curioso como se esquece rapidamente um livro e daí me ter voltado a deliciar com esta escrita como se estivesse a ler o livro pela primeira vez. Escusado será acrescentar que gostei pois sou um apreciador desta escrita diarística deste grande escritor português. 

Por exemplo sobre quem lê e quem não lê escreve o autor a dado passo:
   -  Detesto absolutamente os livros deste tipo.
   -  Quais leu?
   -  Essa tem graça. Como queria você que eu os lesse, se os detesto? 

Com a mulher (Regina) e o filho (Gilo), em 1970


sábado, 5 de setembro de 2015

LEITURAS 2015 - XXVIII - "BILLY BUD" - HERMAN MELVILLE


Este pequeno livro (de cento e poucas páginas) é admirável!
Foi-me recomendado por um amigo com gostos de leitura semelhantes aos meus.

Relata-nos a vida de um jovem (Billy Bud) que é recrutado para a Marinha de Guerra e que no navio em que é incorporado vai lidar com os mais variados tipos de homens. Ele, que é um jovem bom e inocente, sem qualquer maldade, vai ser confrontado com todas as maldades, ódios e inveja de alguns homens que com ele convivem diariamente e que o vão trair e o irão conduzir à forca. -Quantas vezes um de nós não confiou cegamente numa pessoa e por ela fomos traídos e enganados?-

Billy, como outras pessoas que são essencialmente boas, tinha algumas fraquezas inerentes a esta bondade. Entre elas, a relutância, quase a incapacidade de dizer peremptoriamente não a qualquer proposta abrupta desde que esta não fosse obviamente absurda, desleal ou injusta.

"Billy Bud" "agarrou-me" da primeira à última página, é uma pequena pérola.

Herman Melville 1819-1891
Um grande escritor, nascido em Nova Iorque, que praticamente só depois de morto viu reconhecido o seu génio 


terça-feira, 1 de setembro de 2015

LEITURAS 2015 - XXVII - PATERNIDADE - DOMINGOS MONTEIRO




Curiosamente será nas férias que os leitores que lêem muito, aqueles que normalmente lêem em média um livro por semana, é nesta altura que efectivamente menos costumam ler; não sei qual será o fenómeno mas comigo sempre assim aconteceu.

Ora cá estamos então em Setembro e a todos desejo bom regresso e boas leituras.  

Voltamos e voltamos para falar do tema que aqui será certamente o mais abordado: livros.

Muito velhinho e muito amarelado do sol que parece ter apanhado, este "PATERNIDADE" de Domingos Monteiro (1903-1980), é o nº. 14 da excelente colecção de livros (miniatura) ANTOLOGIA DOS AMIGOS DO LIVRO, da Editorial Inquérito; comprei-o há uns anos (€ 1) num Alfarrabista em Lisboa, e foi escrito por volta de 1950.

Quando (no livro de leituras que possuo para ir anotando e tomando notas sobre os livros que vou lendo) quis pontuar este livro fiquei algo indeciso pois é um livro de uma outra época, com uma história algo ingénua e que parece absolutamente desfasada dos tempos que correm, não deixando no entanto, na minha perspectiva, de estar bem escrito.

Começa assim: "Eu conhecia há muito tempo o Dr. Silveira. Pequenino, magro, comunicativo, rira-me muitas vezes com as anedotas que ele contava ao seu numeroso grupo de amigos, na mesa ao lado do café que ambos frequentávamos..."

Contado na primeira pessoa (pelo seu amigo Antunes) narra a história de um filho nascido de um romance que o Dr. Silveira manteve com uma inglesa (Kitty), quando estudava em Coimbra, e que o Dr. Silveira não quis perfilhar. Assim, Kitty, magoada e desiludida, parte para Inglaterra levando consigo o filho de ambos -John-.

Entretanto, em Lisboa o Dr. Silveira dá um rumo à sua vida e casa com Lucília. E quando passam dez anos resolve ir à procura do filho rumando a Inglaterra para tentar localizá-lo. E aqui começa um grande imbróglio...

Não deixa de ser um livro interessante; apreciei o modo simples e directo do narrador, descrevendo muito bem a emoção de gente simples mas, ao mesmo tempo, a emoção dum ser de excepção como é o personagem principal deste livro (o Dr. Silveira).

Contudo, nota-se perfeitamente que será já uma literatura doutra época, não só porque após a sua primeira publicação já passaram mais de 60 anos, mas também pelo ambiente em que a acção decorre. Mas não deixa de ser, repito, um livro bem escrito de um escritor que desconhecia.

DOMINGOS MONTEIRO   advogado e escritor; Trás-os-Montes 1903-1980

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

sexta-feira, 31 de julho de 2015

LEITURAS 2015 - XXVI - "SEMPRE O DIABO"



Há quanto tempo não lia um livro que me "amarrasse" assim? 

Desde a primeira página que fiquei preso e agarrado a este livro -sente-se logo que estamos perante um imenso livro, daqueles que estamos sempre ansiosos e a espreitar a página seguinte-.

Na linha do excelente "FERRUGEM AMERICANA", este "SEMPRE O DIABO" é o primeiro romance de Donald Ray Pollock, com uma escrita que me arrastou da primeira à última página, sempre, repito, ansioso pela seguinte; um enredo muito parecido ao que leio nos livros das excelentes Flannery O'Connor e Joyce Carol Oates.

Personagens cruéis, vingativos a respirar ódio por todos os poros, ambientes negros e terríveis em que não há lugar a mais nada para além do ódio, da maldade, da vingança de pessoas sem objectivos na vida arrastando-se em situações que apenas visam a degradação das suas e das vidas dos outros que se encontram à sua volta e dos que vão encontrando pelo caminho. E assim vamos conhecendo o ser humano, porque esta gente existe. Até a alma me doeu!

Localizado no sul do Ohio e da Virgínia, a intriga de "SEMPRE O DIABO" segue um elenco de bizarras e magnéticas personagens, desde o fim da Segunda Guerra Mundial até aos anos 60. 

Willard Russel veterano da 2ª. Guerra Mundial, atormentado pela carnificina no Pacífico Sul, uma personagem magnífica e duma grandeza imensa mas que perante o cancro terminal da sua esposa entra, como se costuma dizer, em "parafuso". Decide criar na floresta perto da sua casa um altar de orações onde sacrifica animais, vertendo o seu sangue sobre o tronco das orações e criando um ambiente absolutamente lunático e que marcam profundamente o seu filho Arvin, um adorador da imagem e da personalidade do seu pai, pois assiste a cenas absolutamente marcantes do seu progenitor, cenas tão bem descritas que há muito tempo não lia um livro em que para além das palavras eu VI as cenas!  

Se "CANADÁ" de Richard Ford foi o livro que mais gostei em 2014, este "SEMPRE O DIABO" foi, dos que li até agora, o que mais me prendeu e o que mais me encantou em 2015.

FASCINANTE!

Donald Ray Pollock - 01.01.1954 - Knockemstiff, Ohio, EUA



quarta-feira, 29 de julho de 2015

A VOLTA A PORTUGAL EM BICICLETA 2015


77ª. VOLTA A PORTUGAL EM BICICLETA



Como se permite chamar VOLTA A PORTUGAL a uma "competição" que decorre apenas em metade do país? de Lisboa para sul não será Portugal?
enfim...é o vale tudo.

sábado, 25 de julho de 2015

LEITURAS 2015 - XXV - O BARÃO DE LAVOS - ABEL BOTELHO


Livro escrito há mais de cem anos pelo escritor português Abel Botelho, foi publicado em 1891, com grande escândalo dado o tema abordado: o homossexualismo e a pedofilia.

Está considerado o primeiro livro publicado em Portugal sobre o tema. 
Atrevo-me a dizer que, em termos de conteúdo, dentro da mesma paridade literária, nada ficará a dever a "Lolita" de Vladimir Nabokov ou a "Morte em Veneza" de Thomas Man. 

É de uma linguagem nua e crua abordando o homossexualismo sem quaisquer rodeios tendo certamente, à data da publicação, provocado muito "barulho" já que a sociedade (monárquica) era dominada por um conservadorismo e clericalismo que não davam tréguas a qualquer liberdade que ultrapassasse os (bons) costumes da época. 

"O BARÃO DE LAVOS", homem de elite e da alta sociedade lisboeta, casado com Elvira, retrata a vida e queda de Sebastião, o Barão de Lavos, que se apaixona por um jovem vendedor de rua (Eugénio), rapaz de 16 anos sem eira nem beira nem quaisquer modos de educação.

Com o intuito de aprofundar a sua relação com o rapaz acolhe-o (cedendo-lhe uma das suas casas, na Rua da Rosa, com criada para o servir, cama, (boa) mesa e roupa lavada) e educa-o nas artes e convenções da alta sociedade de modo a integrá-lo nos círculos sociais da elite lisboeta. Só que a sua paixão cega, ignora todos os riscos e perigos que lhe irá trazer esta vida de pederasta. 
Assim, na pessoa da sua paixão (Eugénio) se revelarão os mais baixos sentimentos mostrando a torpeza e indignidade a que a ganância poderá conduzir alguns seres humanos.

Elvira, sua mulher, acaba por traí-lo com Eugénio, tudo se começando a desmoronar e a queda de Sebastião dá-se a pique, caindo (com o seu vício pederasta) na mais extrema miséria acabando a vegetar na lama e no lixo das ruas de Lisboa entre toda a bandidagem, gente da pior espécie e a maior escumalha das profundezas da capital do reino.  
 1855 - Tabuaço (Viseu) - 1915 Buenos Aires (Argentina)


terça-feira, 21 de julho de 2015

LEITURAS 2015 - XXIV - "O TEMPO ENVELHECE DEPRESSA" - ANTÓNIO TABUCCHI



Todas as personagens deste livro (de contos) parecem estar empenhados numa confrontação com o tempo: - o tempo dos acontecimentos que viveram ou estão a viver e o tempo da memória da consciência.

O tema desperta expectativas, não desperta? só que mais uma vez um livro deste autor me desiludiu e por isso mesmo não me vou alongar muito sobre ele. Não gostei, devo até confessar que nem li todos os contos pois quando o livro não me consegue "agarrar" às primeiras cinquenta páginas, dificilmente conseguirei lê-lo até ao fim, torna-se uma mastigação difícil, enrola, enrola... 
Mas tem uma bonita capa.

Deste mesmo autor já tinha lido três livros (Afirma Pereira; Tristano Morre e Nocturno indiano) mas também, nenhum deles, me despertou um interesse especial, apenas ficou a indiferença e este "O TEMPO ENVELHECE DEPRESSA" foi mais um.


António Tabucchi  -   Pisa (Itália) 1943  - 2012 (Lisboa)

sexta-feira, 17 de julho de 2015

LEITURAS 2015 - XXIII - "conta-corrente 5" - VERGÍLIO FERREIRA



O estilo e o modo de escrever de Vergílio Ferreira prendem-me. Cada palavra, cada frase é quase um ensinamento. E nestes diários que estou a reler isto é bem visível. 
Leio e releio e é sobretudo na releitura que confirmo o grande escritor que foi.

Este "conta-corrente 5" aborda os anos de 1984 e 1985 e é, tal como os quatro anteriores, excelente. 
Permito-me salientar alguns trechos que anotei:

-A vida devia ser insuportável se inteiramente previsível.

-Um vilão não é de perder a oportunidade quando tem a vara na mão.

-O que mais se vê é o que nunca se vê. Por exemplo, ao lado deste sofá onde todos os dias me sento tenho uma estante de livros. Olhos todos os dias nunca os vejo.

-As histórias dos romances lidos, por exemplo, evaporam-se como ar.

-O comer e o coçar vai do começar.

-Num mundo de cegos quem tem um olho é aleijado.

-O contrário da justiça é a caridade.


Vergílio Ferreira - 1916 - 1996


segunda-feira, 13 de julho de 2015

LEITURAS 2015 - XXII - "O RELÓGIO DO CÁRCERE" - JOSÉ RIÇO DIREITINHO



Tendo como cenário o mesmo mundo rural que José Riço Direitinho elegeu como palco das suas ficções anteriores e, mais uma vez, retratando muito bem um país que aos poucos está a desaparecer, a acção de "O RELÓGIO DO CÁRCERE" decorre entre o início de 1832 e os primeiros meses de 1834, no lugar imaginário de Vilarinho dos Loivos, o mesmo onde decorreu o cenário do livro que deste mesmo autor li anteriormente, e de que também já tinha gostado imenso, o excelente "BREVIÁRIO DAS MÁS INCLINAÇÕES". 

O fidalgo da Casa do Seixo, Afonso Aires de Navarra (a quem, apesar de ainda não ter completado trinta anos chamavam há muito tempo "O VELHO"), e António de Soutelinho (que o acaso fez um dia guerrilheiro) são as duas personagens principais desta história onde ecoam os rumores da queda anunciada da Monarquia Absoluta e da sua substituição por um regime liberal.

Depois do muito que gostei do "Breviário das Más Inclinações" este livro confirma um lugar de destaque que José Riço Direitinho já ocupa, por direito próprio, no panorama da nova ficção nacional. 

Gostei deste livro que nos mostra um mundo rural português que está a desaparecer se não desapareceu já na quase totalidade.

Um escritor a seguir.

José Riço Direitinho nasceu em Lisboa em Julho de 1965, sendo licenciado em Agronomia
"A CASA DO FIM" maca a sua estreia literária, em 1992.
Os seus livros estão traduzidos na Alemanha, Holanda, Itália, Espanha, França, Inglaterra e Israel, sendo a sua obra reconhecida como uma das mais representativas da nova geração europeia.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

LEITURAS 2015 - XXI - BARTLEBY & COMPANHIA - ENRIQUE VILA-MATAS





Bartleby é uma memorável personagem de um conto de Herman Melville, um escriturário que faz cópias de documentos burocráticos e que dia após dia entra no escritório, onde, aliás, vive, aparenta não ter vida para além da sua mesa de trabalho não conversando com ninguém, escondendo-se no seu canto, e que, quando o encarregam com algo ou lhe perguntam qualquer coisa sobre si, responde invariavelmente: PREFERIA NÃO O FAZER.


Bartleby o escriturário 

Nesta obra, Vila-Matas dedica-se a escrever sobre escritores "bartleby", isto é, aqueles que não escrevem ou estão longos períodos inactivos, paralisados devido a prolongadas crises de inspiração, adiando a hora de escrever ad infinitum... 

Um desses escritores "bartleby" foi o suiço Robert Walser que passou os vinte e oito últimos anos da sua vida encerrado em manicómios, entregue a uma frenética actividade de letra microscópica, fictícia e indecifrável numa linguagem sem qualquer sentido, nuns minúsculos  bocados de papel.


Robert Walser - Suiça  1878-1956
Fala-nos daqueles escritores que se apagam para deixar que os outros assinem as suas obras, como é o caso da autora de "O Divã", um conto assinado por Göethe e escrito pela sua amante.

Dedica ainda a sua atenção a Kafka, Samuel Bechett, Hermann Melville, Marcel Proust, Fernando Pessoa, incluindo ainda muitos outros escritores. 

Talvez devido às grandes expectativas que depositei neste livro, fundamentalmente devido à extraordinária personagem de Herman Melville, este livro não correspondeu inteiramente à expectativa que nele depositava; quase sempre isso me acontece quando a expectativa é demasiado elevada.  

Não deixa no entanto de, na minha perspectiva, ser um bom livro deste excelente escritor espanhol.
Enrique Vila-Matas - Barcelona 1978

domingo, 5 de julho de 2015

LEITURAS 2015 - XX - BREVIÁRIO DAS MÁS INCLINAÇÕES - JOSÉ RIÇO DIREITINHO



Esta é a história de José de Risso, uma espécie de santo popular, nascido com um sinal vermelho no meio das costas, em forma de folha de carvalho. Um sinal de onde sangra de cada vez que faz um milagre.

São muitas as malvadezas de José de Risso ao longo dos seus 33 anos de vida, entre 1923 e 1956 na localidade ficcionada  de Vilarinho dos Loivos, no norte de Portugal, próximo da fronteira com a Espanha.

Este romance "agarrou-me" da primeira à última página. O seu protagonista José de Risso nasce de um relacionamento ocasional entre uma mulher de Vilarinho dos Loivos e um caixeiro viajante. A mãe morreu após o parto e o pai desapareceu após a primeira noite em que se encontraram.

Uma surpresa, um livro absolutamente surpreendente em que o autor nos dá a conhecer os rituais das gentes do campo (de então). Fascinante.


José Riço Direitinho é um dos jovens escritores portugueses mais elogiados pela crítica nacional e internacional.  




quarta-feira, 1 de julho de 2015

LISBON SOUTH BAY

Almada, Seixal e Barreiro no editorial do jornal «Público»<br />
Lisbon South Bay ou o Sul ridicularizado<br />

Depois do ridículo Allgarve a ignorância continua a avançar (a passos largos), agora é Almada, Seixal e Barreiro que se transforma em Lisbon South Bay.

E é assim que este povo está a ser "educado" basta ver os vários programas das três TV´s com títulos estrangeirados, daí sermos, como dizia um grande escritor português, um povo com dez milhões de analfabetos alguns dos quais sabem ler. Oiço diariamente na rádio indivíduos com responsabilidades a falar em que por tudo e por nada invocam estrangeirismos que, sinceramente, não percebo, nem eu nem com certeza a maioria dos ouvintes.

Esta gente (autênticos vendidos por um prato de lentilhas) parece querer esquecer a sua língua, a sua cultura, as suas origens e caiem neste ridículo e nesta completa parolice.   
   


domingo, 28 de junho de 2015

LEITURAS 2015 - XIX - "BIBLIOTECAS CHEIAS DE FANTASMAS" - JACQUES BONNET




Este livro aborda essencialmente o tema da biblioteca e de todas as consequências que esta traz. 

Encontra-se dividido em capítulos que abordam temas como as bibliomanias, a arrumação dos livros, práticas de leitura, ou a forma como o leitor sabe mais sobre as pessoas que encontra nos livros do que sobre as pessoas que os escrevem.

"Já os leste todos?" - é uma pergunta que normalmente me é feita quando entram na minha casa e olham para aquelas prateleiras abarrotadas de livros, de alto a baixo; normalmente esta pessoa que nos questiona não gosta de livros. Na verdade, uma biblioteca, seja qual for o seu tamanho não precisa de ter sido lida de uma ponta à outra.

É um facto que esquecemos a maior parte do que lemos e, por sinal, este é um livro que já tinha lido em 2010, facto que vem comprovar o que o meu amigo Almeidinha me diz com muita frequência: um livro esquece-se com muita facilidade, por melhor que seja. Claro que há aqueles que nunca esquecemos, aqueles que normalmente até colocamos como os livros da nossa vida, e desses, alguns tenho eu aqui falado (LIVROS DE UMA VIDA).  

Jacques Bonnet é um editor, escritor e tradutor francês, além de bibliófilo e uma autoridade quando se trata de livros raros. Bonnet é considerado, juntamente com Umberto Eco, José Mindlin ou Alberto Manguel, um dos maiores especialistas em bibliofilia e teoria de leitura.  

Jacques Bonnet - escritor francês

Ainda a propósito do título deste livro - FANTASMA: folha ou cartão que se coloca no lugar de um livro tirado de uma prateleira de biblioteca, de um documento que foi emprestado.

Este é portanto um livro que fala de livros daí o considerar excelente.




quarta-feira, 24 de junho de 2015

LEITURAS 2015 - XVIII - CONTA CORRENTE 4 - VERGÍLIO FERREIRA


Vergílio Ferreira foi realmente um grande filósofo; vejam-se alguns trechos que retirei do último livro que dele acabei de (re)ler, "conta corrente 4", um diário magnífico, este abrangendo os anos de 1982 e 1983:


  • Escrever bem, escrever mal. Assentemos neste princípio: nem todo o tipo que escreve mal é estúpido; mas todo o tipo que é estúpido escreve mal.
  • O que é um génio? Um génio é um tipo que vive intensamente seja o que for
  • Para ajuizar do que é inferior é preciso ser-se superior. É por isso, que um imbecil facilmente se julga um génio
  • Porque ser neto é ser sempre pequeno
  • Negar é ter muitas hipóteses de verdade, afirmar é ter uma só
  • Não acreditar já numa verdade mas continuar a defendê-la. A isto chama-se "firmeza de carácter"
  • Perguntar se se é feliz é começar a ser infeliz, como perguntar se Deus existe é começar a ser ateu
  • Quem procura a glória não a merece, quem a merece não a procura   

sexta-feira, 19 de junho de 2015

CHRISTINE LAGARDE versus PIMENTA MACHADO


O Fundo Monetário Internacional (FMI) é uma das instituições que integra a "troika", além do Banco Central Europeu e da Comissão Europeia, a que Portugal pediu ajuda financeira. 

A directora geral do FMI, Christine Lagarde, foi quem exigiu a Portugal uma maior flexibilização nas relações laborais. 



Pois foi esta advogada e política francesa de 59 anos, do Partido francês de centro direita: União por um Movimento Popular, nascida em Paris, mãe de dois filhos, que, agora em 2015, vem, qual Pimenta Machado, proclamar que afinal a flexibilização nas relações laborais exigida a Portugal, só veio aumentar ainda mais as desigualdades económicas e sociais.

"No futebol o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira". Esta é uma das frases mais célebres do futebol português, uma frase que é hoje uma das "máximas" do nosso futebol  e foi proferida, durante o seu reinado de quase duas décadas, por Pimenta Machado que, aos 29 anos, se tornou (em 1980) presidente do VITÓRIA DE GUIMARÃES. 

Pimenta Machado pronunciou esta frase em 1987. 
Depois de um empate do Vitória em casa perante o Marítimo, torna-se iminente o despedimento do treinador brasileiro René Simões. Porém, devido a uma fuga de informação, Pimenta Machado volta atrás e decide manter o técnico (apenas mais uma semana...)

"No futebol (e não só) o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira"
Pimenta Machado


segunda-feira, 15 de junho de 2015

GRÉCIA - PARA MEDITAR


A bandeira de um país cuja cultura e cujo passado deveriam merecer respeito

Ouvi hoje na rádio, li na imprensa:

-Com vista à concretização do plano de entendimento com a Comissão Europeia, o Governo Grego previa, nos seus planos de negociações com a UE, cortes de 400 milhões no orçamento da Defesa da Grécia.

E então não é que o FMI não aceita cortes neste sector (armamento, guerra, etc...) e pretende que os mesmos sejam efectuados nas pensões...

Será que quem decide o destino de um povo é uma instituição que não representa nenhum país?

Pasme-se e medite-se.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

LIVROS DE UMA VIDA - "SE ISTO É UM HOMEM" - PRIMO LEVI


Primo Levi químico e escritor italiano 1919-1987
Gosto de ler livros que exponham cruamente o sofrimento dos homens e consequentemente toda a sua crueldade, "SE ISTO É UM HOMEM" de PRIMO LEVI foi um dos livros que, sobre o tema, me impressionou. 

E é preciso não esquecer tempos abomináveis e de selvajaria humana, não esquecer para que nunca mais possam voltar a acontecer.

Na noite de 13 de Dezembro de 1943, Primo Levi, um jovem químico membro da Resistência é detido pelas forças alemãs e deportado para Auschwitz em Fevereiro do ano seguinte, aí permanecendo até finais de Janeiro de 1945, quando o campo é finalmente libertado. Dessa experiência de 11 meses nasce o escritor que relata a luta pela sobrevivência num meio em que o homem já nada conta.

"Percebo que me mandaram calar (...)
A confusão das línguas é um factor fundamental da maneira de viver aqui; estamos mergulhados numa perpétua Babel em que todos gritam ordens e ameaças em línguas que nunca ouvimos antes, e ai e quem não perceba à primeira (...) Nós, os recém-chegados, reunimo-nos instintivamente nos cantos, ao pé das paredes, como as ovelhas, para sentirmos as costas materialmente protegidas." 

É este o tom do relato, sóbrio e factual apesar da brutalidade da situação que Primo Levi imprime  ao seu escrito sobre uma experiência dramática e brutal vivida pelo próprio.

Primo Levi acabaria por suicidar-se em 1987.

Sobre os campos de concentração nazis "SE ISTO É UM HOMEM" foi dos livros que mais gostei de ler a par de "TREBLINKA" e de  "O COMPRADOR DE ANIVERSÁRIOS" este, do espanhol Adolfo Garcia Ortega, um livro absolutamente imperdível.


sábado, 6 de junho de 2015

LIVROS DE UMA VIDA - "A PASTORAL AMERICANA"


"A PASTORAL AMERICANA" de PHILIP ROTH foi o livro de que mais gostei deste excelente escritor americano. É um livro que retrata, como nunca tinha lido, a América dos anos 50 dado que abrange o período de 1950 a 1980 nos EUA. 

Acompanhando a vida do SUECO, o personagem principal, um indivíduo em que tudo é perfeito, a família. a popularidade, a beleza levando-nos a pensar como é possível existirem vidas assim tão perfeitas. Só que fora do seu mundo as coisas que vão acontecer vão permitir-nos conhecer e detectar nas atitudes dos seres humanos as suas virtudes, qualidades e defeitos. E o Sueco não merecia...

É um livro soberbo dum grande escritor americano vivo! 





Philip Roth - 19.03.1933 (82 anos) - Newark, Nova Jérsia - EUA


E assim começa "A PASTORAL AMERICANA:

-"O SUECO. No tempo da guerra, quando eu ainda era um estudante da escola primária, este era um nome mágico nos arredores de Newark, mesmo para os adultos, havia apenas uma geração transferidos do gueto da velha rua Prince, no centro da cidade, e ainda não tão perfeitamente americanizados a ponto de ficarem deslumbrados com a destreza de um atleta da escola secundária. O nome era mágico; bem como o rosto anómalo. Entre os poucos estudantes judeus de boa compleição física na nossa escola pública secundária frequentada predominantemente por judeus, nenhum possuía nada sequer remotamente parecido com a máscara viking implacável e a mandíbula enérgica daquele louro de olhos azuis nascido na nossa tribo com o nome de Seymour Irving Levov. 
O Sueco, brilhava como ponta do futebol americano, meio campo no basquete e primeira base no baisebol. Só a equipa de basquete valia alguma coisa..."



quarta-feira, 3 de junho de 2015

CARIDADE


Vergílio Ferreira no seu diário "conta corrente 5", o livro que ando actualmente a ler, escreveu:

"O CONTRÁRIO DA JUSTIÇA É A CARIDADE" 


domingo, 31 de maio de 2015

LIVROS DE UMA VIDA - "A FILHA DO COVEIRO" - JOYCE CAROL OATES


JOYCE CAROL OATES  -  EUA  1938


Este foi um livro que me prendeu desde a primeira página, li-o há não mais de dois anos, é um livro onde a degradação do ser humano atinge momentos incríveis.
Em 1936 a família Schawart chega aos Estados Unidos fugindo da Alemanha nazi e instalam-se numa pequena cidade do estado de Nova Iorque. O pai, antigo professor de liceu, vê-se obrigado a aceitar o único trabalho que encontra disponível: coveiro e guarda de um cemitério. 
Os prejuízos e a fragilidade emocional da família conduzirão a uma terrível tragédia, e Rebecca, a filha do coveiro, começa então a surpreendente peregrinação pela América, uma odisseia arriscada repleta de erotismo e audácia. 

Uma obra-prima que me deslumbrou com personagens de uma crueza que nos faz abrir os olhos de espanto.

Extraordinário livro que, sem dúvida, é um dos livros de uma vida. 
Uma escritora absolutamente arrebatadora. A não perder.  




sexta-feira, 29 de maio de 2015

FRANÇOISE HARDY E O NOBEL DA LITERATURA




Françoise Hardy e Patrick Modiano (Prémio Nobel da Literatura 2014)
Françoise Hardy conheci-a há mais de quarenta anos e ainda hoje a oiço com um agrado inultrapassável mas o efeito nostálgico é demasiado..., Patrick Modiano conheci-o há meses, li um livro dele mas, sinceramente, não gostei mesmo nada do que li, um daqueles pastéis que se enrolam, enrolam, enrolam...

domingo, 24 de maio de 2015

LEITURAS 2015 - XVII - "MAZAGRAN" - J. RENTES DE CARVALHO


Foi de J. RENTES DE CARVALHO o último livro que acabei de ler -"MAZAGRAN-Recordações & outras fantasias", um livro de pequenas e simples histórias de vida que, aqui e ali, foram acontecendo com este excelente escritor português, uma das mais estimulantes descobertas dos últimos anos.

Este livro, que reúne cartas, artigos de jornal e outros escritos deste português nascido em Vila Nova de Gaia em 1930, foi afinal uma releitura dado que já o tinha lido em 2013, mas não o reli intencionalmente só que como era de J. RENTES DE CARVALHO comecei a lê-lo e só a páginas tantas é que senti que já tinha lido aquilo, mas não retrocedi pois este homem escreve tão bem que não me importei de voltar a saborear a sua escrita.    


MAZAGRAN-designa uma bebida favorita no Magrebi: um copo grande cheio até mais de um terço com café forte, um volume igual de água gasosa, muito açúcar, uma rodela de limão. Pode juntar-se um cálice de conhaque. Bebe-se quente no Inverno e quase gelado nos dias de calor. 

Como eu gostava de escrever assim...

sexta-feira, 22 de maio de 2015

A OCASIÃO FAZ O LADRÃO



surpreende o à vontade das pessoas no saque ao armazém do V.Guimarães, minutos depois do
final do jogo em que o Benfica se sagrou campeão nacional

quarta-feira, 20 de maio de 2015

LIVROS DE UMA VIDA - "GERMINAL" - EMILE ZOLA

Emile ZOLA  1840-1902
A obra deste grande escritor francês preencheu as leituras dos meus vinte e tal anos quando li quase tudo deste excelente escritor e este livro é um dos que entra em todas as listas dos livros da minha vida.   

"GERMINAL" é um dos grandes romances do séc. XIX e baseia-se em acontecimentos verídicos. 

O livro aborda as péssimas condições de vida dos trabalhadores das minas de carvão na França do séc. XIX.

Para escrevê-lo, Emile Zola trabalhou como mineiro numa mina de carvão, onde ocorreu uma greve sangrenta que durou dois meses. Actuando como repórter, Zola pintou a vida política e social duma época como jamais alguém o havia feito. 

Mais um dos livros de uma vida que é importante ler.