segunda-feira, 13 de julho de 2015

LEITURAS 2015 - XXII - "O RELÓGIO DO CÁRCERE" - JOSÉ RIÇO DIREITINHO



Tendo como cenário o mesmo mundo rural que José Riço Direitinho elegeu como palco das suas ficções anteriores e, mais uma vez, retratando muito bem um país que aos poucos está a desaparecer, a acção de "O RELÓGIO DO CÁRCERE" decorre entre o início de 1832 e os primeiros meses de 1834, no lugar imaginário de Vilarinho dos Loivos, o mesmo onde decorreu o cenário do livro que deste mesmo autor li anteriormente, e de que também já tinha gostado imenso, o excelente "BREVIÁRIO DAS MÁS INCLINAÇÕES". 

O fidalgo da Casa do Seixo, Afonso Aires de Navarra (a quem, apesar de ainda não ter completado trinta anos chamavam há muito tempo "O VELHO"), e António de Soutelinho (que o acaso fez um dia guerrilheiro) são as duas personagens principais desta história onde ecoam os rumores da queda anunciada da Monarquia Absoluta e da sua substituição por um regime liberal.

Depois do muito que gostei do "Breviário das Más Inclinações" este livro confirma um lugar de destaque que José Riço Direitinho já ocupa, por direito próprio, no panorama da nova ficção nacional. 

Gostei deste livro que nos mostra um mundo rural português que está a desaparecer se não desapareceu já na quase totalidade.

Um escritor a seguir.

José Riço Direitinho nasceu em Lisboa em Julho de 1965, sendo licenciado em Agronomia
"A CASA DO FIM" maca a sua estreia literária, em 1992.
Os seus livros estão traduzidos na Alemanha, Holanda, Itália, Espanha, França, Inglaterra e Israel, sendo a sua obra reconhecida como uma das mais representativas da nova geração europeia.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

LEITURAS 2015 - XXI - BARTLEBY & COMPANHIA - ENRIQUE VILA-MATAS





Bartleby é uma memorável personagem de um conto de Herman Melville, um escriturário que faz cópias de documentos burocráticos e que dia após dia entra no escritório, onde, aliás, vive, aparenta não ter vida para além da sua mesa de trabalho não conversando com ninguém, escondendo-se no seu canto, e que, quando o encarregam com algo ou lhe perguntam qualquer coisa sobre si, responde invariavelmente: PREFERIA NÃO O FAZER.


Bartleby o escriturário 

Nesta obra, Vila-Matas dedica-se a escrever sobre escritores "bartleby", isto é, aqueles que não escrevem ou estão longos períodos inactivos, paralisados devido a prolongadas crises de inspiração, adiando a hora de escrever ad infinitum... 

Um desses escritores "bartleby" foi o suiço Robert Walser que passou os vinte e oito últimos anos da sua vida encerrado em manicómios, entregue a uma frenética actividade de letra microscópica, fictícia e indecifrável numa linguagem sem qualquer sentido, nuns minúsculos  bocados de papel.


Robert Walser - Suiça  1878-1956
Fala-nos daqueles escritores que se apagam para deixar que os outros assinem as suas obras, como é o caso da autora de "O Divã", um conto assinado por Göethe e escrito pela sua amante.

Dedica ainda a sua atenção a Kafka, Samuel Bechett, Hermann Melville, Marcel Proust, Fernando Pessoa, incluindo ainda muitos outros escritores. 

Talvez devido às grandes expectativas que depositei neste livro, fundamentalmente devido à extraordinária personagem de Herman Melville, este livro não correspondeu inteiramente à expectativa que nele depositava; quase sempre isso me acontece quando a expectativa é demasiado elevada.  

Não deixa no entanto de, na minha perspectiva, ser um bom livro deste excelente escritor espanhol.
Enrique Vila-Matas - Barcelona 1978

domingo, 5 de julho de 2015

LEITURAS 2015 - XX - BREVIÁRIO DAS MÁS INCLINAÇÕES - JOSÉ RIÇO DIREITINHO



Esta é a história de José de Risso, uma espécie de santo popular, nascido com um sinal vermelho no meio das costas, em forma de folha de carvalho. Um sinal de onde sangra de cada vez que faz um milagre.

São muitas as malvadezas de José de Risso ao longo dos seus 33 anos de vida, entre 1923 e 1956 na localidade ficcionada  de Vilarinho dos Loivos, no norte de Portugal, próximo da fronteira com a Espanha.

Este romance "agarrou-me" da primeira à última página. O seu protagonista José de Risso nasce de um relacionamento ocasional entre uma mulher de Vilarinho dos Loivos e um caixeiro viajante. A mãe morreu após o parto e o pai desapareceu após a primeira noite em que se encontraram.

Uma surpresa, um livro absolutamente surpreendente em que o autor nos dá a conhecer os rituais das gentes do campo (de então). Fascinante.


José Riço Direitinho é um dos jovens escritores portugueses mais elogiados pela crítica nacional e internacional.  




quarta-feira, 1 de julho de 2015

LISBON SOUTH BAY

Almada, Seixal e Barreiro no editorial do jornal «Público»<br />
Lisbon South Bay ou o Sul ridicularizado<br />

Depois do ridículo Allgarve a ignorância continua a avançar (a passos largos), agora é Almada, Seixal e Barreiro que se transforma em Lisbon South Bay.

E é assim que este povo está a ser "educado" basta ver os vários programas das três TV´s com títulos estrangeirados, daí sermos, como dizia um grande escritor português, um povo com dez milhões de analfabetos alguns dos quais sabem ler. Oiço diariamente na rádio indivíduos com responsabilidades a falar em que por tudo e por nada invocam estrangeirismos que, sinceramente, não percebo, nem eu nem com certeza a maioria dos ouvintes.

Esta gente (autênticos vendidos por um prato de lentilhas) parece querer esquecer a sua língua, a sua cultura, as suas origens e caiem neste ridículo e nesta completa parolice.   
   


domingo, 28 de junho de 2015

LEITURAS 2015 - XIX - "BIBLIOTECAS CHEIAS DE FANTASMAS" - JACQUES BONNET




Este livro aborda essencialmente o tema da biblioteca e de todas as consequências que esta traz. 

Encontra-se dividido em capítulos que abordam temas como as bibliomanias, a arrumação dos livros, práticas de leitura, ou a forma como o leitor sabe mais sobre as pessoas que encontra nos livros do que sobre as pessoas que os escrevem.

"Já os leste todos?" - é uma pergunta que normalmente me é feita quando entram na minha casa e olham para aquelas prateleiras abarrotadas de livros, de alto a baixo; normalmente esta pessoa que nos questiona não gosta de livros. Na verdade, uma biblioteca, seja qual for o seu tamanho não precisa de ter sido lida de uma ponta à outra.

É um facto que esquecemos a maior parte do que lemos e, por sinal, este é um livro que já tinha lido em 2010, facto que vem comprovar o que o meu amigo Almeidinha me diz com muita frequência: um livro esquece-se com muita facilidade, por melhor que seja. Claro que há aqueles que nunca esquecemos, aqueles que normalmente até colocamos como os livros da nossa vida, e desses, alguns tenho eu aqui falado (LIVROS DE UMA VIDA).  

Jacques Bonnet é um editor, escritor e tradutor francês, além de bibliófilo e uma autoridade quando se trata de livros raros. Bonnet é considerado, juntamente com Umberto Eco, José Mindlin ou Alberto Manguel, um dos maiores especialistas em bibliofilia e teoria de leitura.  

Jacques Bonnet - escritor francês

Ainda a propósito do título deste livro - FANTASMA: folha ou cartão que se coloca no lugar de um livro tirado de uma prateleira de biblioteca, de um documento que foi emprestado.

Este é portanto um livro que fala de livros daí o considerar excelente.




quarta-feira, 24 de junho de 2015

LEITURAS 2015 - XVIII - CONTA CORRENTE 4 - VERGÍLIO FERREIRA


Vergílio Ferreira foi realmente um grande filósofo; vejam-se alguns trechos que retirei do último livro que dele acabei de (re)ler, "conta corrente 4", um diário magnífico, este abrangendo os anos de 1982 e 1983:


  • Escrever bem, escrever mal. Assentemos neste princípio: nem todo o tipo que escreve mal é estúpido; mas todo o tipo que é estúpido escreve mal.
  • O que é um génio? Um génio é um tipo que vive intensamente seja o que for
  • Para ajuizar do que é inferior é preciso ser-se superior. É por isso, que um imbecil facilmente se julga um génio
  • Porque ser neto é ser sempre pequeno
  • Negar é ter muitas hipóteses de verdade, afirmar é ter uma só
  • Não acreditar já numa verdade mas continuar a defendê-la. A isto chama-se "firmeza de carácter"
  • Perguntar se se é feliz é começar a ser infeliz, como perguntar se Deus existe é começar a ser ateu
  • Quem procura a glória não a merece, quem a merece não a procura   

sexta-feira, 19 de junho de 2015

CHRISTINE LAGARDE versus PIMENTA MACHADO


O Fundo Monetário Internacional (FMI) é uma das instituições que integra a "troika", além do Banco Central Europeu e da Comissão Europeia, a que Portugal pediu ajuda financeira. 

A directora geral do FMI, Christine Lagarde, foi quem exigiu a Portugal uma maior flexibilização nas relações laborais. 



Pois foi esta advogada e política francesa de 59 anos, do Partido francês de centro direita: União por um Movimento Popular, nascida em Paris, mãe de dois filhos, que, agora em 2015, vem, qual Pimenta Machado, proclamar que afinal a flexibilização nas relações laborais exigida a Portugal, só veio aumentar ainda mais as desigualdades económicas e sociais.

"No futebol o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira". Esta é uma das frases mais célebres do futebol português, uma frase que é hoje uma das "máximas" do nosso futebol  e foi proferida, durante o seu reinado de quase duas décadas, por Pimenta Machado que, aos 29 anos, se tornou (em 1980) presidente do VITÓRIA DE GUIMARÃES. 

Pimenta Machado pronunciou esta frase em 1987. 
Depois de um empate do Vitória em casa perante o Marítimo, torna-se iminente o despedimento do treinador brasileiro René Simões. Porém, devido a uma fuga de informação, Pimenta Machado volta atrás e decide manter o técnico (apenas mais uma semana...)

"No futebol (e não só) o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira"
Pimenta Machado


segunda-feira, 15 de junho de 2015

GRÉCIA - PARA MEDITAR


A bandeira de um país cuja cultura e cujo passado deveriam merecer respeito

Ouvi hoje na rádio, li na imprensa:

-Com vista à concretização do plano de entendimento com a Comissão Europeia, o Governo Grego previa, nos seus planos de negociações com a UE, cortes de 400 milhões no orçamento da Defesa da Grécia.

E então não é que o FMI não aceita cortes neste sector (armamento, guerra, etc...) e pretende que os mesmos sejam efectuados nas pensões...

Será que quem decide o destino de um povo é uma instituição que não representa nenhum país?

Pasme-se e medite-se.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

LIVROS DE UMA VIDA - "SE ISTO É UM HOMEM" - PRIMO LEVI


Primo Levi químico e escritor italiano 1919-1987
Gosto de ler livros que exponham cruamente o sofrimento dos homens e consequentemente toda a sua crueldade, "SE ISTO É UM HOMEM" de PRIMO LEVI foi um dos livros que, sobre o tema, me impressionou. 

E é preciso não esquecer tempos abomináveis e de selvajaria humana, não esquecer para que nunca mais possam voltar a acontecer.

Na noite de 13 de Dezembro de 1943, Primo Levi, um jovem químico membro da Resistência é detido pelas forças alemãs e deportado para Auschwitz em Fevereiro do ano seguinte, aí permanecendo até finais de Janeiro de 1945, quando o campo é finalmente libertado. Dessa experiência de 11 meses nasce o escritor que relata a luta pela sobrevivência num meio em que o homem já nada conta.

"Percebo que me mandaram calar (...)
A confusão das línguas é um factor fundamental da maneira de viver aqui; estamos mergulhados numa perpétua Babel em que todos gritam ordens e ameaças em línguas que nunca ouvimos antes, e ai e quem não perceba à primeira (...) Nós, os recém-chegados, reunimo-nos instintivamente nos cantos, ao pé das paredes, como as ovelhas, para sentirmos as costas materialmente protegidas." 

É este o tom do relato, sóbrio e factual apesar da brutalidade da situação que Primo Levi imprime  ao seu escrito sobre uma experiência dramática e brutal vivida pelo próprio.

Primo Levi acabaria por suicidar-se em 1987.

Sobre os campos de concentração nazis "SE ISTO É UM HOMEM" foi dos livros que mais gostei de ler a par de "TREBLINKA" e de  "O COMPRADOR DE ANIVERSÁRIOS" este, do espanhol Adolfo Garcia Ortega, um livro absolutamente imperdível.


sábado, 6 de junho de 2015

LIVROS DE UMA VIDA - "A PASTORAL AMERICANA"


"A PASTORAL AMERICANA" de PHILIP ROTH foi o livro de que mais gostei deste excelente escritor americano. É um livro que retrata, como nunca tinha lido, a América dos anos 50 dado que abrange o período de 1950 a 1980 nos EUA. 

Acompanhando a vida do SUECO, o personagem principal, um indivíduo em que tudo é perfeito, a família. a popularidade, a beleza levando-nos a pensar como é possível existirem vidas assim tão perfeitas. Só que fora do seu mundo as coisas que vão acontecer vão permitir-nos conhecer e detectar nas atitudes dos seres humanos as suas virtudes, qualidades e defeitos. E o Sueco não merecia...

É um livro soberbo dum grande escritor americano vivo! 





Philip Roth - 19.03.1933 (82 anos) - Newark, Nova Jérsia - EUA


E assim começa "A PASTORAL AMERICANA:

-"O SUECO. No tempo da guerra, quando eu ainda era um estudante da escola primária, este era um nome mágico nos arredores de Newark, mesmo para os adultos, havia apenas uma geração transferidos do gueto da velha rua Prince, no centro da cidade, e ainda não tão perfeitamente americanizados a ponto de ficarem deslumbrados com a destreza de um atleta da escola secundária. O nome era mágico; bem como o rosto anómalo. Entre os poucos estudantes judeus de boa compleição física na nossa escola pública secundária frequentada predominantemente por judeus, nenhum possuía nada sequer remotamente parecido com a máscara viking implacável e a mandíbula enérgica daquele louro de olhos azuis nascido na nossa tribo com o nome de Seymour Irving Levov. 
O Sueco, brilhava como ponta do futebol americano, meio campo no basquete e primeira base no baisebol. Só a equipa de basquete valia alguma coisa..."



quarta-feira, 3 de junho de 2015

CARIDADE


Vergílio Ferreira no seu diário "conta corrente 5", o livro que ando actualmente a ler, escreveu:

"O CONTRÁRIO DA JUSTIÇA É A CARIDADE" 


domingo, 31 de maio de 2015

LIVROS DE UMA VIDA - "A FILHA DO COVEIRO" - JOYCE CAROL OATES


JOYCE CAROL OATES  -  EUA  1938


Este foi um livro que me prendeu desde a primeira página, li-o há não mais de dois anos, é um livro onde a degradação do ser humano atinge momentos incríveis.
Em 1936 a família Schawart chega aos Estados Unidos fugindo da Alemanha nazi e instalam-se numa pequena cidade do estado de Nova Iorque. O pai, antigo professor de liceu, vê-se obrigado a aceitar o único trabalho que encontra disponível: coveiro e guarda de um cemitério. 
Os prejuízos e a fragilidade emocional da família conduzirão a uma terrível tragédia, e Rebecca, a filha do coveiro, começa então a surpreendente peregrinação pela América, uma odisseia arriscada repleta de erotismo e audácia. 

Uma obra-prima que me deslumbrou com personagens de uma crueza que nos faz abrir os olhos de espanto.

Extraordinário livro que, sem dúvida, é um dos livros de uma vida. 
Uma escritora absolutamente arrebatadora. A não perder.  




sexta-feira, 29 de maio de 2015

FRANÇOISE HARDY E O NOBEL DA LITERATURA




Françoise Hardy e Patrick Modiano (Prémio Nobel da Literatura 2014)
Françoise Hardy conheci-a há mais de quarenta anos e ainda hoje a oiço com um agrado inultrapassável mas o efeito nostálgico é demasiado..., Patrick Modiano conheci-o há meses, li um livro dele mas, sinceramente, não gostei mesmo nada do que li, um daqueles pastéis que se enrolam, enrolam, enrolam...

domingo, 24 de maio de 2015

LEITURAS 2015 - XVII - "MAZAGRAN" - J. RENTES DE CARVALHO


Foi de J. RENTES DE CARVALHO o último livro que acabei de ler -"MAZAGRAN-Recordações & outras fantasias", um livro de pequenas e simples histórias de vida que, aqui e ali, foram acontecendo com este excelente escritor português, uma das mais estimulantes descobertas dos últimos anos.

Este livro, que reúne cartas, artigos de jornal e outros escritos deste português nascido em Vila Nova de Gaia em 1930, foi afinal uma releitura dado que já o tinha lido em 2013, mas não o reli intencionalmente só que como era de J. RENTES DE CARVALHO comecei a lê-lo e só a páginas tantas é que senti que já tinha lido aquilo, mas não retrocedi pois este homem escreve tão bem que não me importei de voltar a saborear a sua escrita.    


MAZAGRAN-designa uma bebida favorita no Magrebi: um copo grande cheio até mais de um terço com café forte, um volume igual de água gasosa, muito açúcar, uma rodela de limão. Pode juntar-se um cálice de conhaque. Bebe-se quente no Inverno e quase gelado nos dias de calor. 

Como eu gostava de escrever assim...

sexta-feira, 22 de maio de 2015

A OCASIÃO FAZ O LADRÃO



surpreende o à vontade das pessoas no saque ao armazém do V.Guimarães, minutos depois do
final do jogo em que o Benfica se sagrou campeão nacional

quarta-feira, 20 de maio de 2015

LIVROS DE UMA VIDA - "GERMINAL" - EMILE ZOLA

Emile ZOLA  1840-1902
A obra deste grande escritor francês preencheu as leituras dos meus vinte e tal anos quando li quase tudo deste excelente escritor e este livro é um dos que entra em todas as listas dos livros da minha vida.   

"GERMINAL" é um dos grandes romances do séc. XIX e baseia-se em acontecimentos verídicos. 

O livro aborda as péssimas condições de vida dos trabalhadores das minas de carvão na França do séc. XIX.

Para escrevê-lo, Emile Zola trabalhou como mineiro numa mina de carvão, onde ocorreu uma greve sangrenta que durou dois meses. Actuando como repórter, Zola pintou a vida política e social duma época como jamais alguém o havia feito. 

Mais um dos livros de uma vida que é importante ler.



sábado, 16 de maio de 2015

LEITURAS 2015 - XVI - "conta corrente 3"

VERGÍLIO FERREIRA   -   1916-1996

Tomei-lhe o gosto! 

Esta forma de escrita de VERGÍLIO FERREIRA arrebata-me, daí estar a reler estes diários magníficos que transcrevem uma época da vida portuguesa. Este "conta corrente 3" revela, tal como os dois anteriores, também um sentido de humor inteligentíssimo e absorvente. Deixo apenas estes dois exemplos:

-Uma professora ensinava aos meninos as regras da metrificação. E para saber mais prático, exigiu que todos fizessem uma quadra nesse fim de semana. Um deles trouxe esta:

                                                        No domingo fui à praia,
                                                        vi vagas e vagalhões.
                                                        Meti-me pela água adentro
                                                        Molhei-me até aos joelhos.
- Ó menino! Mas isso não rima
-Pudera! estava a maré cheia.


E esta:

-Um dia um senhor feudal alentejano chamou um dos servos, a propósito de uma discussão havida entre elementos senhoriais: 
-João! Tu achas que fazer um filho é coisa desagradável?
-Patrão! Se fosse coisa chata fazer um filho, o patrão já me tinha dito: João! Vem cá fazer um filho na minha mulher! 




terça-feira, 12 de maio de 2015

LIVROS DE UMA VIDA - "AS VINHAS DA IRA"



Não errarei por muito se disser que li este livro há cerca de quarenta anos e sem dúvida que foi um dos grandes livros que li até hoje, daí o título da publicação que hoje inicio "LIVROS DE UMA VIDA"; pois é sobre eles que irei falar, começando hoje por este grande épico que é "AS VINHAS DA IRA".

John Steinbeck passou assim ser um dos meus escritores preferidos.

Ainda retenho a imagem de um cágado a subir um passeio no grande romance que é "A LESTE DO PARAÍSO" , a queda do cimo de uma macieira de um apanhador de maças no excelente panfleto que é "A BATALHA INCERTA", o delicioso "RATOS E HOMENS", a grande figura humana que é "O BORBULHAS" do magnífico "OS NÁUFRAGOS DO AUTOCARRO", um livro que disseca a alma humana como nunca a tinha lido...e muitos outros.

Pois "AS VINHAS DA IRA" é um dos grandes romances de um dos mais célebres, mais discutidos, mais lidos, mais controversos escritores norte-americanos.

A celeuma que, na altura da sua publicação, este livro provocou nos Estados Unidos não impediu que lhe concedessem o mais importante prémio literário que existe nesse país: o Prémio Pulitzer. Foi igualmente Prémio Nobel da Literatura em 1962.    


"AS VINHAS DA IRA" é por isso um dos livros de uma vida e que todos deveriam ler. 

O êxodo de uma família de lavradores que, vendo-se reduzida à miséria por uma tempestade de areia em Oklahoma, resolve emigrar para a Califórnia. 
A luta que todos os membros da família sustentam na sua exaustiva jornada contra os elementos e os homens e, até contra o próprio meio de transporte, a coragem de que dão provas, a generosidade da alma que afirmam, a piedade pelo sofrimento alheio, e o protesto, a revolta perante as injustiças do mundo que assinalam este épico tornam-no absolutamente eterno.   


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John Steinbeck - EUA   -  1902-1968

sexta-feira, 8 de maio de 2015

LEITURAS 2015 - XV - HARUKI MURAKAMI


O primeiro livro que li deste escritor japonês foi "Kafka à beira-mar" e foi um livro que me prendeu. Uma bela história com interessantes personagens e situações.  

Deste modo,claro que a partir daquele primeiro livro passei a ler os outros que, entretanto, se iam publicando em Portugal e confesso que os livros de HARUKI MURAKAMI nunca me desiludiram embora também nunca me deslumbrassem, atrevo-me até a dizer que será talvez uma literatura de consumo (não sei se será a palavra correcta, às vezes temos medo das palavras...), ou seja, literatura daquela que se esquece logo. 

Candidato ao Prémio Nobel ano após ano, é, na minha modesta opinião, um bom escritor mas não um Prémio Nobel.

Este livro que acabo de ler "A PEREGRINAÇÃO DO RAPAZ SEM COR" está dentro da linha de escrita de Murakami e, sem dúvida, que é igualmente um bom livro com todos os condimentos e ingredientes que tão bem este escritor japonês sabe juntar para nos contar uma boa história. 

"A PEREGRINAÇÃO DO RAPAZ SEM COR", conta-nos que, nos seus dias de adolescente, Tsukuru Tazaki gostava de ir sentar-se nas estações a ver passar os comboios. Leva uma existência pacífica, a condizer com a ausência de cor que caracteriza o seu nome, só que num repente a sua vida leva uma volta terrível quando os seus quatro melhores e inseparáveis amigos o desprezam e lhe deixam de falar não lhe dando para o facto qualquer explicação e ele "engole" e vai remoendo por dentro este seu terrível desgosto e vai-se embora da terra onde viveu...

Agora com 36 anos, muitos anos depois de desprezado pelos seus amigos, é engenheiro de profissão e projecta estações, mas nunca perdeu o hábito de ver chegar e partir os comboios. Regressa e resolve ir à procura dos seus amigos, dispersos pelo mundo, ignorando até se todos estariam vivos e vai tentar saber porque o desprezaram...  

Mais um bom livro que se lê com muito agrado e que nos distrai, bom para matar o tempo, e que poderei também incluir na tal literatura que se esquece logo... 

Haruki Murakami  1949

segunda-feira, 4 de maio de 2015

LEITURAS 2015 - XIV - "OS FRAGMENTOS" - FERREIRA DE CASTRO


1898 - 1974
Ferreira de Castro é talvez dos escritores portugueses mais esquecidos, um homem que acrescentava ao seu grande valor literário o seu grande valor humano. Uma obra que comparo à de um grande escritor norte americano, prémio Nobel da literatura em 1962, John Steinbeck.

Um grande romancista português que viveu uma existência dramática, num tempo dramático e num contexto em que a condição humana se viu particularmente humilhada.

 "OS FRAGMENTOS", o livro que acabo de ler é disso um bom exemplo.


"OS FRAGMENTOS" de FERREIRA DE CASTRO reúne três contos e um romance "O INTERVALO", escrito em 1936 mas que, por motivos relacionados com a censura, só foi publicado em 1974 após a sua morte. 

"O INTERVALO" relata a luta empreendida pelos operários espanhóis, na busca de uma melhoria geral de vida durante o pequeno período que durou a república espanhola e nele se revela toda a crueza e o sofrimento de um povo acontecidos durante a Guerra Civil Espanhola, uma guerra de uma crueldade absoluta.

"HISTÓRIA DA VELHA MINA" um dos outros três contos incluídos neste livro, é um excelente e real retrato do que foi a Mina de São Domingos (no Baixo Alentejo) nos primórdios da exploração da mina.



Sem dúvida que Ferreira de Castro descreve muitíssimo bem o que foi o sofrimento dos mineiros naquelas deploráveis condições de trabalho de quase absoluta escravidão. 

Também os patrões e empregados ingleses da mina são muito bem retratados na sua absoluta sobranceria, altivez e desprezo (característica inglesa) vivendo como que num mundo à parte no mais opulento e luxuoso dos mundos (nem a piscina faltava nas suas moradias) perante a miséria das gentes e famílias a quem exploravam e que, na mesma terra, passavam as maiores necessidades e sacrifícios, cujas casas, apesar de serem cedidas pela mina (e publicitadas aos quatro ventos com uma grande benesse) tão pequenas eram que nem janelas tinham. 

Também o Natal em Ossela, terra onde nasceu Ferreira de Castro, está muito bem descrito na crónica "A ALDEIA NATIVA".

Um bom livro de um grande escritor português, hoje, repito, infeliz e injustamente esquecido, mas que vale a pena conhecer.

terça-feira, 28 de abril de 2015

LEITURAS 2015 - XIII - HENRY DAVID THOREAU




"Walden ou a vida nos bosques" terá sido, porventura, o livro que trouxe mais notoriedade a HENRY DAVID THOREAU. Este "CAMINHADA" será a sua derradeira exposição sobre a natureza.

Thoreau era um andarilho, não um desportista "a caminhada a que me refiro nada tem a ver com a prática do exercício...". Thoreau praticava a caminhada como terapêutica natural e era um observador nato e exímio da natureza, da fauna e da flora.

"Caminhar sem rumo é uma grande arte

Thoreau era um naturalista e apreendeu a vantagem da vida natural e livre.

Thoreau era um escritor ecologista, humanista, libertário e pacifista que inspirou a vida de personalidades como Ghandi, Martin Luther King e Tolstoi.

Um visionário, e só para o ficar a conhecer um pouco melhor já valeu a pena ler este pequeno livrinho de pouco mais de oitenta páginas, escrito há cerca de duzentos anos.

Nos primórdios da industrialização americana, Thoreau entrevia precocemente um declínio civilizacional e os perigos da sociedade materialista prevendo já a "mutilação" da natureza e a chegada do consumismo. Um visionário!
EUA    -   1817-1862


sexta-feira, 24 de abril de 2015

LEITURAS 2015 - XII - "12 ANOS ESCRAVO"




Não obstante a escrita simples e ágil, "12 ANOS ESCRAVO" a obra que originou o filme com o mesmo nome, é talvez dos únicos livros em que gostei mais do filme o que do livro.

Nele se retrata a história de SOLOMON NORTHUP (escrita pelo próprio), um homem negro nascido livre nos Estados Unidos, que em 1841 vivia em Nova Iorque com a mulher e os filhos e ali levava uma vida pacífica entre os dotes de carpinteiro e o talento de tocar rabeca.

Após ter recebido de dois homens uma falsa proposta de trabalho, e após uma noite de copos, foi sequestrado, drogado e comercializado como escravo, tendo passado doze anos em cativeiro, trabalhando, na maior parte do tempo, numa plantação de algodão na Louisiana, onde sofreu as piores agruras que, na altura, um escravo poderia sofrer.

Após o seu (dificílimo e conseguido sabe-se lá como) resgate e ao fim de doze anos de grande sofrimento, Northup, com uma escrita simples, retrata os momentos mais marcantes e de absoluto sofrimento sofridos durante esta sua vida de escravo.  

Este é um dos poucos retratos da escravidão americana, redigido pelo próprio (Solomon Northup), uma pessoa que viveu a sua vida sob a óptica de uma dupla perspectiva: ter sido tanto um homem livre como um escravo.

Gosto de ler estes livros que retratam o sofrimento do homem que é imposto por outro homem, e era bom que nunca fosse esquecida esta negra fase da humanidade, que, infelizmente, a qualquer momento poderá voltar a acontecer, já que, em qualquer sociedade continua a haver espezinhadores e espezinhados.



segunda-feira, 20 de abril de 2015

LEITURAS 2015 - XI - "ESTRADA PARA LOS ANGELES"




Aos dezoito anos Arturo Bandini vive com a mãe e a irmã em San Pedro, perto de Los Angeles. Obrigado, pela morte do pai e pela grande crise de 1929, a trabalhar em empregos duros e mal pagos, tem nas revistas pornográficas o seu único alívio, um hábito muito censurado pela beatice da mãe e da irmã. As suas outras leituras consistem nos livros que procura na biblioteca, obras de grandes autores como Nietzsche e Schopenhauer, que Arturo mal compreende mas que gosta de se gabar de ter lido. É ateu e simpatizante do comunismo russo (o que gera o medo dos seus compatriotas). Em ESTRADA PARA LOS ANGELES deparamos com muitas situações que nos surgem ao longo da vida.

A saga de Arturo Bandini é composta por quatro romances: A PRIMAVERA HÁ-DE CHEGAR, BANDINI, publicado em 1938; ESTRADA PARA LOS ANGELES, publicado postumamente em 1985, embora tenha sido o primeiro a ser escrito e o segundo volume do quarto; PERGUNTA AO PÓ, publicado em 1939; e por fim SONHOS DE BUNKER HILE, ditado à mulher depois de o autor ter ficado cego em 1978, depois de em 1955 ter sido atingido pelos diabetes. Morreu em 1983, aos 74 anos.
John Fante  1909-1983

JOHN FANTE - poderei colocá-lo no patamar daqueles escritores transcendentes como Philip Roth, Saramago, Vergílio Ferreira. Uma escrita para ser lida com a máxima concentração. 

Alguém me disse (ou li algures) sobre John Fante que era um dos mais influentes escritores (esquecidos) da literatura norte-americana e olha que me parece bem acertado. 

Este é um bom livro, apesar de, repito, eu o considerar um livro nada fácil, que requer atenção, daqueles que nos obriga a pensar (o que mais gosto na literatura).

É um livro com uma história coleante, peganhosa, que se nos cola à pele e que deixa um rasto como o rasto de um caracol numa estrada de alcatrão. 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

LEITURAS 2015 - X - "A PAPOILA E O MONGE"




Este livro de JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA de centena e meia de poemas, composto por três versos curtos em cada página também ainda não me conseguiu "arrastar" para a poesia. 

"A PAPOILA E O MONGE" é o resultado de uma viagem que este poeta madeirense realizou ao Japão e resultou nesta forma de poesia de origem japonesa que se baseia maioritariamente nas relações entre o homem e a natureza. 

Efectivamente, apesar das minhas ocasionais tentativas, continuo a não ter qualquer proximidade com a poesia, nem mesmo com esta forma de poesia com versos tão curtos.

Tudo é efémero:
ontem escutava a tua voz
hoje só o vento

Recordo sempre as palavras de um amigo, mais velho do que eu, e que gostava muito de música clássica e de ópera e face à minha rejeição me dizia que, tal como ler, também da música e da ópera se aprende a gostar e talvez seja esse, porventura, também o caso da poesia. Porém...  



domingo, 12 de abril de 2015

LEITURAS 2015 - IX - FOTOBIOGRAFIA VERGÍLIO FERREIRA




Para além de retratar (no pleno sentido da palavra) a obra de Vergílio Ferreira, esta fotobiografia, muito bem organizada, delicia-nos com fotos de muita gente com quem o escritor conviveu, bem como retrata igualmente muito bem o seu âmbito familiar.

Contém uma autobiografia, também excelente, escrita naturalmente pelo próprio escritor em Maio de 1977.  

De lá retiro este excelente texto:

...e a minha biografia deve ter findado aqui. Lisboa é um sítio onde se está, não um lugar onde se vive. Mesmo que lá se viva há 18 anos, como eu.
Perguntam-me com frequência se eu não me sinto realizado. Respondo sempre que não. Porque eu sou maior do que eu e só me sentiria realizado se fosse do mesmo tamanho.