segunda-feira, 16 de maio de 2016

LEITURAS 2016 - XVIII - "A SANGUE FRIO" - TRUMAN CAPOTE


Foi a lembrança de Caryl Chessmann que me levou a este romance.

Efectivamente, dos primeiros nomes que me lembro de fixar, logo que comecei a ter entendimento, foi o de Caryl Chessmann, um ladrão, raptor e violador (o homem da lanterna vermelha), que morreu na câmara de gás em 2 de Junho de 1960, na Califórnia ( EUA), depois de julgado e condenado baseado apenas em provas circunstanciais. Ele próprio (Caryl Chessmann) fez a sua defesa. e lembro-me de quase diariamente ouvir este nome aos meus pais e no ambiente onde então vivia.

Truman Capote 1924, Nova Orleães, EUA - 1984

"A SANGUE FRIO", que ando para ler há muitos anos, de Truman Capote é precisamente a narração verídica de um quádrupulo assassínio ocorrido realmente num lugarejo chamado Holcomb e situado no estado do Kansas (EUA). Todos os factos nele descritos são reais, mas a forma de os conceber e analisar pertence a Truman Capote. A realidade, também neste caso, é mais fértil do que a mais fecunda imaginação de qualquer romancista. Contudo, só um escritor de génio poderia ter desvendado essa realidade, e só à custa de três anos de apuramento dos factos e de mais três anos de redacção laboriosa é que teria sido possível fazer surgir esta verdadeira obra-prima da literatura.

As personagens, os locais, as situações, tudo neste livro me fascinou.

Excelente!    


os assassinos Perry Smith que, enquanto esperava pelo julgamento, escreveu um diário no qual falava sobre tudo, enquanto
Richard Hickok lia romances de Irving Wallace e Harold Robbins

A família Clutter assassinada, na sua fazenda River Valley, Kansas EUA  em 15.11.1959 (domingo)





quinta-feira, 12 de maio de 2016

A LITERATURA NA TELEVISÃO


Falar de livros na televisão é como descobrir petróleo na Serra de Monchique. 

Sobre o tema, "Literatura aqui" é um dos raros programas da nossa televisão. Pedro Lamares é o apresentador, e passa na RTP2 às terças-feiras, por volta das 23h00.

Poderei até estar a ser injusto mas, sinceramente, o programa parece-me uma completa maçada, começando logo pela voz do apresentador que parece querer afastar todo e qualquer telespectador que se aproxime, pois aquela voz robótica e monocórdica é um apelativo à fuga (ainda por cima àquela hora)...

O programa mais parece um catálogo onde se rebuscam uns poemas, escolhidos e lidos por uma voz tão pachorrenta que é um verdadeiro apelo ao sono.


As raras reportagens sobre livros são tudo menos sobre livros; e quem gosta de livros sabe do que falo...
Porque não se vai à rua abordar as pessoas sobre livros? porque não se vai às livrarias falar com quem vende os livros? porque não se fala com personagens do mundo da música, da televisão, do cinema, da rádio, do desporto, da política, sobre livros?

Porque, por exemplo, não se aborda, uma vez por semana, em cada programa a obra de um escritor famoso? porque não se fala, uma vez por semana, de um grande livro? porque não se fala dos grandes escritores portugueses, nomeadamente dos esquecidos?   

É realmente um programa fraquíssimo e, pior do que isso, sonolento que afasta qualquer candidato a leitor e aqueles que são leitores só o vêem na esperança de que dali ainda possa sair algo que fale efectivamente de livros. Se pretende ser um programa elitista creio que nem isso terá conseguido...

Mais uma oportunidade perdida para se falar de livros e para desgosto dos que gostam de livros.





domingo, 8 de maio de 2016

LEITURAS 2016 - XVII - "O ESTRANHO CASO DE BENJAMIN BUTTON" - F. SCOTT FITZGERALD


Benjamin Button é um homem que viveu uma vida ao contrário.

Nasceu com cerca de setenta anos. Nasceu como um velho, com barba, olhos cansados e lacrimejantes. Só que à medida que vai vivendo vai rejuvenescendo, o que lhe vai permitir viver as situações mais extraordinárias, que a idade/aparência lhe vão permitir, como a entrada na escola, na universidade, no exército, o casamento com uma linda mulher de cerca de vinte e poucos anos quando ele, na altura aparenta cerca de cinquenta, só que virá a altura em que ele parece ter vinte anos e ela já uma velha que, com o passar dos anos, vê o seu cabelo cor de mel tornar-se de um castanho sensaborão, o azul esmalte dos seus olhos adquirir o aspecto de louça de barro barata, enquanto que ele cada vez mais jovem e mais belo.

Benjamin Button morreu ao fim de setenta anos de vida com a aparência e a mente de um bebé.

Este pequeno e excelente livro de F. Scott Fitzgerald é desconcertante e constitui uma crítica maliciosa a uma sociedade que não admite ver para além das aparências.

Esta obra foi adaptada ao cinema e, convem salientar, é daqueles filmes que, ao contrário do que geralmente acontece, em nada é inferior a este bom livro.











quarta-feira, 4 de maio de 2016

LEITURAS 2016 - XVI - "CONTA - CORRENTE nova série IV"


Este foi o nono e último dos diários que Vergílio Ferreira escreveu e que foi publicado na série a que deu o nome "conta-corrente". Este reporta ao ano de 1992.Tal como os anteriores, está escrito numa linguagem simples e acessível mas muito rica, cheia de pérolas, que apetece tomar nota: 

-eu devo ter muita saúde para aguentar tanta doença
-ver é imaginar o que se viu
-o mau cheiro nunca cheira mal a quem o produz
.muito amor também não é garantia de um bom casamento   
-quanto mais leve é a cabeça da mulher mais pesada é a do marido

Excelente.



sexta-feira, 29 de abril de 2016

ROSA MOTA e VERGÍLIO FERREIRA




De algum modo, determinadas acções definem a sensibilidade e o carácter do ser humano. É precisamente uma dessas acções que Vergílio Ferreira nos dá a conhecer, em 1 de Junho de 1992, num dos seus excelentes diários:

-Estava eu de pé a assistir a este evento, sob um sol que me estorricava a mioleira. Então aconteceu uma coisa gentil. Foi o caso que a Rosa Mota, figurinha frágil de campeã mundial maratonista, veio dizer-me que tinha um lugar na tribuna. Para lá fui. Mas só depois reparei que o lugar era dela. Ergui-me de novo e insisti para ela o reocupar. Não quis. Sentada minúscula num degrau do palanque, ali se manteve até ao fim.-   


O Professor Vergílio Ferreira no Liceu Camões

segunda-feira, 25 de abril de 2016

LEITURAS 2016 - XV - "DIÁRIO vols. III e IV" - MIGUEL TORGA

Miguel Torga   1907-1995

Tornei-me um ávido leitor de diários (de escritores) depois de ter lido oito dos nove que Vergílio Ferreira publicou sob o título de  "Conta-Corrente".

E também estou a gostar imenso dos diários de Miguel Torga. Acabei agora de ler os volumes III (1943 a 1946) e IV (1946 a 1949).

Miguel Torga, apesar de não conduzir, era um viajante e por isso corre Portugal do Gerês a Monchique e do Caldeirão a Bornes e, segundo sei, sem saber ao certo para quê, já que "não sou geógrafo, tenho um patriotismo suspeito, sou fraco apreciador de petiscos, de modo que nem eu chego a saber por que é tanta peregrinação". 
Mas ver, olhar era para o poeta uma forma de vida (ver e olhar é um dom de que actualmente poucos conseguem desfrutar), para além disso nestes diários há muita literatura, mais um dado que faz com que me tornasse um acérrimo leitor do género.

Torga era um homem "terra a terra" e descreve-se a si próprio como intransigente, duro e obcecado.
A imagem que Torga tem de si próprio confunde-se com a paisagem das terras onde nasceu e onde se sente como peixe na água; é no meio das pedras da natureza que se sente feliz, e não no seu consultório de médico em Coimbra.

Torga era contra os caçadores de autógrafos e contra a publicidade.
O "contra" era mesmo o seu forte.
Gostava da solidão, e prezava muito quem lha respeitava.
A arte para ele não era uma ambição era um destino.
"Ansiedade" foi o primeiro livro que escreveu, aos 20 anos. 

Excelente!




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quinta-feira, 21 de abril de 2016

MIGUEL TORGA E OS SEGUROS



"Faça um seguro...

-Deus me livre!

-Olhe que é útil! Morre-se, recebem os herdeiros; tem-se um desastre, pagam-nos o hospital; fica-se inválido, dão-nos uma pensão...

-Não teime. Eu gostava de me segurar mas para não morrer, para nunca ficar inválido, para não ser esmagado por nenhum automóvel...Agora segurar-me para depois dessas desgraças, não me interessa. Se o destino me ganhar o jogo, quero que ele assuma a responsabilidade do que fez!"

Miguel Torga em Coimbra, 4 de Novembro de 1948, no seu Diário III







domingo, 17 de abril de 2016

SERES HUMANOS?


O lutador português João Carvalho, mais conhecido, imagine-se, como "rafeiro" (a sua boca confirmava-o), morreu na passada segunda feira à noite em Dublin, Irlanda, depois de ter sido absolutamente massacrado com murros, pontapés e toda uma série de golpes na cabeça durante um combate de artes marciais mistas (MMA); uma selvajaria em três assaltos, uma verdadeira estupidez em que vale tudo, boxe, kick-boxing, karaté, judo, wrestling, jiu-jitsu brasileiro e sei lá que mais barbaridades. Absolutamente horripilante o vídeo disponível nas redes sociais.  

E para assistir a este espectáculo degradante de violência e morte, o recinto cheio de alguns milhares de "pessoas". Afinal que gente é esta? Como é possível num mundo que se diz civilizado gente a praticar e (ainda mais vergonhoso) gente a assistir a esta humilhante e estúpida degradação do ser humano que, afinal, parece ter regredido (nos seus sentimentos) desde o tempo das cavernas em que porventura se poderia matar mas para sobreviver e não por prazer. 

Mas que gente será esta? Mas que passará pela cabeça destas "pessoas"?  



quarta-feira, 13 de abril de 2016

CARÁCTER

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"Um homem de carácter pode amar a insignificância"-esta frase, que julgo ter sido escrita por Agustina Bessa Luís no seu excelente romance "Fanny Owen", vem-me sempre à ideia quando, por exemplo, como hoje me aconteceu durante a caminhada que efectuei, me vi de repente a transferir (quase que envergonhadamente) caracóis de um para o outro lado da estrada de modo a colocá-los a salvo dos eventuais esmagamentos que pudessem ocorrer durante a passagem dos outros caminhantes.

Esta cena, em que apenas funciona o meu subconsciente, acontece-me frequentemente e penso que certamente poderá parecer ridicula para quem eventualmente me possa observar; contudo, por outro lado, é nessa altura que me vem à cabeça a tal frase de Agustina. 


   
São feitios...

sexta-feira, 8 de abril de 2016

A MEMÓRIA

Miguel Torga   1907 - 1995

"É difícil a uma nação que desconhece ou despreza os seus grandes homens em vida doirar-lhes depois a memória. Se viveram em pocilgas, mal poderão depois ser relembrados em castelos, a não ser nas academias, onde a hipocrisia supre tudo, com carpideiras oficiais, louros falsos e mármores de gesso. Mas há uma maneira decente de sanar as indecências: é esquecê-las.".







Uma opinião expressa por Miguel Torga em 30 de de Julho de 1943, que, infelizmente, continua tão actual!

E estou a pensar em tantos portugueses que têem servido o bem comum, enquanto se premiaram ou vão premiando outros(as) que apenas se têem servido a eles.




segunda-feira, 4 de abril de 2016

LEITURAS 2016 - XIV- "MENTIRA" - Enrique de Hériz



"MENTIRA" do espanhol Enrique de Hériz, é um livro que, apesar de publicado em 2006, desconhecia em absoluto. São mais de quinhentas páginas que nos revelam a história de três gerações de uma família. Não direi que foi um livro que não me cativou mas também não posso dizer que me "agarrou" e creio que metade das páginas chegariam para nos revelar esta (imaginativa) história, que até começa com uma surpresa.

Uma antropóloga espanhola (especialista em ritos funerários), durante uma viagem de trabalho à Guatemala, descobre que foi dada como morta, depois de esquecer a mochila com a documentação junto de um cadáver feminino, quando os jornais do seu país noticiam o seu falecimento num acidente. Ao saber que a filha identificou erradamente um cadáver mutilado como sendo o seu, decide manter a verdade escondida e continuar "morta", evitando assim regressar a uma vida junto da família (tem marido e três filhos).
A partir desta MENTIRA inicial sucedem-se outras que vão revelando a história de três gerações de uma família.

Mas livros de quinhentas ou mais páginas (formato José Rodrigues dos Santos) só com "selo" de garantia...(e este não é bem o caso).

enrique de hériz - n. Barcelona 1964


3 - razoável

0 - li, mas foi zero
1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
3,5 - interessante
4 - bom
5 - muito bom
6 - excelente
7 - obra-prima 


quarta-feira, 30 de março de 2016

A LENDA - JOHAN CRUIJFF


Até hoje, Cruijff foi o jogador que mais gostei de ver jogar futebol.

Um autêntico líder em campo (e fora dele-como treinador)! 

Foi porventura o jogador (e treinador) que mais influenciou o futebol moderno.

O líder da selecção holandesa que ficou conhecida como "laranja mecânica" foi o expoente máximo do futebol total.




Como em todas as artes há aqueles (muito poucos) que são quase sobrenaturais na sua; no futebol ouso nomear quatro (já retirados) dos que vi jogar: Pelé, Maradona, Eusébio e Cruijff.

O seleccionador Rinus Michelis (talvez o melhor treinador de futebol que conheci até hoje), que levou a Holanda à final do Mundial de 1974 dizia: "sem Cruijff não tenho equipa".

Morreu em Barcelona a 24 de Março de 2016, vítima de cancro do pulmão que lhe havia sido diagnosticado em Outubro de 2015.
   
Johannes Cruijff ( há 4 dias)-  Amesterdão - 1947 - 2016



Johannes Cruijff disse:

  •  - Não sou religioso. Em Espanha, os 22 jogadores faziam o sinal da cruz antes de entrar em campo. Se isso funcionasse todas as partidas terminariam empatadas


  • - Jogadores que não são verdadeiros líderes mas tentam ser, discutem sempre com os outros depois de um erro. Os verdadeiros líderes dentro do campo já sabem que os outros vão errar.

sábado, 26 de março de 2016

LEITURAS 2016 - XIII - "ÍNDICE MÉDIO DE FELICIDADE" - DAVID MACHADO


David Machado (n. em Lisboa em 1978) é um dos grandes talentos da nova geração de escritores.

Já tinha gostado do seu excelente romance "Deixem falar as pedras" e este "ÍNDICE MÉDIO DE FELICIDADE" veio reafirmar o seu talento, pois é um romance admirável e extremamente actual sobre a crise que tem varrido Portugal e o quanto mal ela tem causado às pessoas, sobretudo àquelas que perderam os seus empregos e que viram as suas vidas viradas do avesso, como é o caso de Daniel o protagonista principal deste excelente livro.

Daniel tinha um plano de vida, uma espécie de diário do futuro, escrito num caderno. às vezes voltava atrás para corrigir pequenas coisas, mas, ainda assim, a via parecia fácil - e a felicidade também. De repente, porém, tudo se complicou: Portugal entrou em colapso e Daniel perdeu o emprego, deixando de poder pagar a renda casa, a conta da água, do gás da electricidade e a mulher também desempregada...

David Machado é, sem dúvida, um dos melhores ficcionistas da sua geração.

3.5 - interessante



0 - li, mas foi zero
1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
3,5-interessante 
4 - bom
5 - muito bom
6 - excelente
7 - obra-prima  

terça-feira, 22 de março de 2016

LEITURAS 2016 - XII - "AMOR QUE MATA" - ROSA MONTERO


Desde que li "A louca da Casa", da espanhola Rosa Montero fiquei sempre atento aos seus livros e "Instruções para salvar o mundo" e "História do Rei Transparente" foram mais dois excelentes livros que contribuíram para que continuasse a ser um seu leitor. 

Acabei agora de ler "AMOR QUE MATA" e confesso que este, ao contrário do que antes acontecera, soube-me a pouco e acho que não irá acrescentar muito à sua obra literária.

"AMOR QUE MATA" fala de um outro lado da vida de quatro dos tiranos mais conhecidos: a intimidade partilhada com as mulheres das suas vidas. Esposas, amantes, filhas, sobrinhas, todas elas desempenharam um papel significativo na vida destes ditadores; algumas delas foram determinantes no decurso de certos acontecimentos históricos. 

-ESTALINE-que era violento e cruel com as mulheres, levando-as ao desespero, mas ponderava o suicídio quando elas morriam.

-MUSSOLINI-um machista cruel que dizia que as mulheres eram como as massas, ambas feitas para serem violadas.

-HITLER-que nunca quis assumir qualquer relação, consciente de que a sua "disponibilidade" seria um factor decisivo junto do eleitorado feminino.

-FRANCO-que ordenou as mais bárbaras execuções mas, na intimidade, era altamente influenciado pela mulher, D. Carmen, extremamente mandona, extremamente religiosa (uma ferrenha beata) e uma autêntica avarenta que não olhava a meios para aumentar o seu património, (a sua avidez levou-a, por exemplo, a fundir as medalhas, bandejas e placas que Franco fora recebendo, convertendo-as em lingotes de prata ou de ouro).   

"AMOR QUE MATA" não deixa contudo de se revelar um documento curioso que nos ajuda a conhecer um outro lado destes cruéis ditadores.   


Rosa Montero, Madrid 1951
  

quinta-feira, 17 de março de 2016

LEITURAS 2016 - XI - "HISTÓRIAS DE VER E ANDAR" - TEOLINDA GERSÃO

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A escrita de TEOLINDA GERSÃO é simples, fácil, acessível, directa. Qualquer um dos seus livros que já li nenhum me desiludiu, todos li com muito agrado; recomendo especialmente o  romance "PASSAGENS".


"HISTÓRIAS DE VER E ANDAR" é um bom livro de contos, quase todos de apenas duas ou três páginas, mas excelentes.

Como se refere na contracapa do livro, no fim de cada um dos contos descobriremos que a vida, a nossa própria vida, não estava exactamente no lugar que pensávamos.

Gostei de todos os contos, gostei especialmente de "As cartas deitadas" em que se retrata exactamente os tempos em que os filhos dos empregados usavam a roupa que os meninos já tinham deixado de usar, que brincam com os filhos dos patrões quando eles querem brincar (são eles que têem os brinquedos).

São catorze contos onde são descritas situações que certamente muitos de nós poderão ter passado.




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sábado, 12 de março de 2016

LEITURAS 2016 - X - "BUTCHER'S CROSSING" - JOHN WILLIAMS


John Williams, Professor Universitário, autor e editor escreveu apenas quatro romances (deixou um quinto inacabado). Que eu saiba apenas dois foram publicados em Portugal, este "BUTCHER'S CROSSING" (escrito em 1960) e "STONER" (em 1965) que ainda não li mas que, pelo que tenho ouvido e do que já tive oportunidade de espreitar, deverá ser excelente.

"BUTCHER'S CROSSING" é uma excelente história: em 1870 Will Andrews, que se fartou de Harvard (onde frequentava a Universidade), ansioso por aventura, chega a Butcher's Crossing uma pequena localidade no duro Oeste, onde vai conhecer figuras curiosas, gente dura e que se confunde com a paisagem.Ali encontra o seu mentor: Miller, um caçador de poucas falas, que conhece o refúgio da última grande manada de búfalos. Seduzido pela promessa de aventura, o protagonista junta-se à expedição. Serão quatro homens em marcha, por terra bravia, numa luta épica contra o tempo, a sede e os elementos.

É um grande romance que, tal como "STONER", passou despercebido durante mais de cinquenta anos. É um grande romance de um grande escritor. 

Excelente!

Nota: a páginas tantas (não tomei nota do nº. de página) leio estavam enxendo os copos, em vez de enchendo os copos; não queria acreditar mas é verdade como é que uma editora lança um livro com um erro destes, é que eu atrevo-me a pensar que poderá não ser uma gralha mas que eventualmente até poderá tratar-se mesmo de um erro de quem não sabe. Por vezes já começo a duvidar de mim próprio nesta questão do português, tantos pontapés na língua que ouço e, pasme-se, agora até os leio num livro à venda ao público!  


Resultado de imagem para John Edward Williams - Texas EUA - 1922-1994
John Williams-EUA - Clarksville - Texas - 1922-1994
   


terça-feira, 8 de março de 2016

LEITURAS 2016 - IX - "O PEQUENO LIVRO DO GRANDE TERRAMOTO" - RUI TAVARES


O Terramoto de 1755 foi, seguramente, a maior catástrofe natural que algum dia se abateu sobre Portugal e é considerado como o maior dos sismos de que há notícia histórica. 

Com epicentro localizado a cerca de cento e cinquenta quilómetros a sudoeste do Cabo de S, Vicente, os seus efeitos destrutivos, sentidos fortemente em Lisboa, estenderam-se ao Algarve, sul de Espanha e a uma vasta área de Marrocos (onde foi sentido à mesma hora e com igual rigor). Por acção conjunta do tremor de terra e do tsunami que se lhe seguiu Lisboa, Setúbal e muitas outras povoações foram largamente destruídas tendo morrido milhares de Portugueses. Embora sem causar danos, também foi sentido por quase toda a Europa, nos Açores e na Madeira.

"O PEQUENO LIVRO DO GRANDE TERRAMOTO", um ensaio sobre 1755, propõe uma abordagem inovadora da história e acompanha-nos numa travessia a que é difícil resistir e ficamos a conhecer factos curiosos sobre esta calamidade; 

-o sismo deu-se às nove e meia da manhã do dia 1 de Novembro de 1755.
-o tsunami terá ocorrido entre uma e duas horas depois
-os incêndios que terão começado logo durante o abalo só se tornaram notórios a partir do meio-dia e duraram vários dias
-o terramoto durou mais de sete minutos, com duas curtas paragens
-a onda gigante chegou à capital do reino e tinha seis metros de altura   



Neste ensaio sobre o terramoto de 1755 fiquei a saber quem eram algumas das figuras que só conhecia por nome de rua, como por exemplo, entre outras, o engenheiro militar MANUEL DA MAIA que ficou como sua obra principal a construção do Aqueduto das Águaas Livres e que no próprio dia do sismo passou-o, tentando salvar, com sucesso os documentos do arquivo da Torre do Tombo (de que foi guarda-mor).

É um ensaio interessante sobre esta grande calamidade. Devo no entanto confessar que cheguei a temer pela continuação da leitura do livro já que as primeiras trinta páginas, em que era abordada uma relação entre o terramoto de 1755, o 11 de Setembro de 2001, o tsunami de 2004 e os incêndios de Roma em 64 d.c., não me conseguiram prender e achei-as (estas primeiras trinta e tal páginas) desinteressantes no contexto do que pretendia o leitor ( o meu caso) -saber mais sobre o Terramoto de 1755, o que, no entanto, foi, quanto a mim, conseguido.

Rui Tavares nasceu em Lisboa em 1972

sexta-feira, 4 de março de 2016

UMBERTO ECO E OS LIVROS

Itália  1932-2016

Não li mais de três/quatro livros de UMBERTO ECO, o escritor, filósofo, semiólogo, linguísta, bibliófilo e sábio italiano, que faleceu há pouco mais de quinze dias (dia 19 de Fevereiro 2016), com 83 anos.

Dos livros que já li deste grande escritor italiano tenho extraído e anotado algumas considerações, que vou relendo de vez em quando; eis duas delas:

-"Tenho cinco mil livros e há sempre o imbecil do costume que entra (em minha casa) e diz: quantos livros tem? leu-os todos?
E o que é  que eu respondo? nenhum, de modo porque os guardaria aqui? o senhor porventura costuma guardar as latas de conserva depois de as esvaziar? os cinquenta mil que já li ofereci-os a prisões e hospitais. E o imbecil estremece...
(do livro "A MISTERIOSA CHAMA DA RAINHA LOANA"



-"Os perdedores, como os autodidatas, têm sempre conhecimentos mais vastos do que os vencedores; se queres vencer, tens de saber uma coisa só e não perder tempo a sabê-las todas, o prazer da erudição está reservado aos perdedores"
(do livro "NÚMERO ZERO")







domingo, 28 de fevereiro de 2016

LEITURAS 2016 - VIII - "ERNESTINA" - J. RENTES DE CARVALHO


Os Holandeses sempre foram um povo que me despertou alguma atenção e curiosidade e terá sido certamente esse o motivo que, na altura (já lá vão uns anos), me empurrou para a leitura do livro "COM OS HOLANDESES" através do qual descobri um grande escritor português, que era para mim, até à altura, um completo desconhecido. 

Depois de ter lido aquele excelente livro é sempre com alguma expectativa que começo a ler outro do autor.  "ERNESTINA" foi o que acabei agora de ler, e mais uma vez não me desiludiu; é como que uma viagem à nossa infância, aos primeiros tempos da nossa vida, tempos que à medida que os anos vão passando mais vamos recordando com saudade, e talvez até com alguma amargura, sentindo os cheiros, vendo a escola, os amigos, as ruas, as pessoas, os largos, os muros, as árvores, enfim, toda aquela nuvem que nos invade quando ("sonhando") recuamos no tempo.  

ERNESTINA é mais do que um romance autobiográfico ou um volume de memórias de família ficcionadas. É um retrato de Trás-os-Montes, dos anos 1930 aos anos 1950, um romance que transcende o relato regionalista e que transpôs fronteiras, transformando-se num fenómeno editorial na Holanda (J.Rentes de Carvalho vive há quase ou mais de meio século na Holanda, actualmente entre cá e lá). 

Ernestina é também o nome da mãe do autor e da intrépida protagonista deste livro. Sobre ela J. Rentes de Carvalho disse (como a maioria de nós poderíamos também dizer das nossas mães): "Mãe de um só filho, a sua vida, que foi de uma tristeza, amargura e terrível solidão, dava um livro. Escrevi-lho eu. E a sua morte quebra o último elo carnal que me ligava à terra onde nasci. Felizmente são ainda muito fortes os laços que a ela me prendem".

Gostei


José Rentes de Carvalho - Vila Nova de Gaia 1930

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

ROSTO CONHECIDO, OBRA DESCONHECIDA


No post anterior falei da situação curiosa em que me cruzei em Lisboa, na Estação do Rossio, com o pintor da noite, o misterioso Arnaldo Ferreira, quando este levava na mão (ao alto) o busto com o rosto de um português notável e perguntava (cara a cara) aos transeuntes, num tom que amedrontava, se sabiam quem era a personagem...

Era o Alexandre Herculano, um escritor que, penso eu, a sua figura e imagem será muito mais conhecida do que a sua obra. 

Pois desde essa altura que fiquei com a imagem (e o semblante pesado) deste notável português, bem presente. Contudo, confesso que até hoje nunca ousei ler um livro dele pois, ao relembrar o seu semblante sério, fiquei, não sei porquê, com a sensação de que será um escritor de leitura pesada e difícil.

"Estamos pobres, somos ignorantes, vivemos na corrupção e no aviltamento"-escreve Alexandre Herculano, em 1851, em editorial no jornal "O País".

Participa na redacção do 1º. Código Civil Português (1860-1865), propondo o casamento civil como alternativa ao casamento religioso, o que provoca acessa polémica com o Clero.

Poeta, romancista, historiador, bibliotecário, ensaísta e polemista, Herculano é, sem dúvida, a par de Garrett, a grande figura fundadora do Romantismo em Portugal, e uma grande figura nacional.

Alexandre Herculano  -   1810 - 1877


domingo, 21 de fevereiro de 2016

MEMÓRIAS LONGÍNQUAS DA BAIXA DE LISBOA

Arnaldo de Benavente Ferreira, o pintor da noite (1923-2000)
Foi há muitos anos, trabalhava eu na Baixa de Lisboa, na zona do Rossio, teria talvez uns quinze anos e lembro-me de ver, como se fosse hoje, nas suas deambulações diárias, sempre em passo apressado, rumo à Brasileira do Chiado, parando na Pastelaria Bénard e na Livraria Bertrand e aproveitando para alcunhar de calões todos com quem se cruzava, um homem alto, bem vestido, (vi-o algumas vezes de fraque) e flor branca na lapela. 

Num certo dia, em que, em vez do habitual bouquet de flores que costumava levar consigo, vejo-o, junto à Estação do Rossio, com um busto em madeira do poeta, romancista e historiador Alexandre Herculano, a dirigir-se às pessoas que por ali passavam e colocava-lhes o busto à frente da cara perguntando-lhes em voz alta mas nem sempre bem audível: -não sabes quem é pois não? ignorantes, canalhas, claro que não sabem nada, mas se fosse o Eusébio sabiam de certeza absoluta, cambada de ignorantes; e assim, clamando impropérios, seguia em passo apressado. Conservo perfeitamente na memória a imagem daquele homem alto, falando tão alto e tão ameaçadoramente que por vezes chegava a assustar quem, calma e distraidamente, seguia no seu caminho.    




Nunca mais esqueci aquele personagem gigante, embora não tivesse certamente mais de 1,75. Era o Arnaldo, sempre impecavelmente vestido de negro, sapatos de verniz reluzentes, cabelo bem penteado para trás com brilhantina e a quem chamavam o pintor da noite, ou o sempre noivo. Dizia-se que teria enlouquecido quando a sua noiva morreu uns dias antes do casamento (também corria a história de que a noiva não teria aparecido no dia da boda). 
As suas deambulações pela baixa de Lisboa fazia-as durante o dia já que à noite ficava sempre em casa a pintar - pintava na sua maioria os bairros e as zonas mais características da Lisboa nocturna, sem vivalma.

Sei que o Museu da Cidade tem quadros seus e que, em 2005, foi homenageado pela Câmara Municipal de Lisboa com a Medalha de Mérito Municipal.
Na alta de Lisboa existe uma rua com o seu nome. 

A última vez que o vi foi num eléctrico, quando este "amarelo" ainda circulava na Baixa de Lisboa.