domingo, 31 de maio de 2015

LIVROS DE UMA VIDA - "A FILHA DO COVEIRO" - JOYCE CAROL OATES


JOYCE CAROL OATES  -  EUA  1938


Este foi um livro que me prendeu desde a primeira página, li-o há não mais de dois anos, é um livro onde a degradação do ser humano atinge momentos incríveis.
Em 1936 a família Schawart chega aos Estados Unidos fugindo da Alemanha nazi e instalam-se numa pequena cidade do estado de Nova Iorque. O pai, antigo professor de liceu, vê-se obrigado a aceitar o único trabalho que encontra disponível: coveiro e guarda de um cemitério. 
Os prejuízos e a fragilidade emocional da família conduzirão a uma terrível tragédia, e Rebecca, a filha do coveiro, começa então a surpreendente peregrinação pela América, uma odisseia arriscada repleta de erotismo e audácia. 

Uma obra-prima que me deslumbrou com personagens de uma crueza que nos faz abrir os olhos de espanto.

Extraordinário livro que, sem dúvida, é um dos livros de uma vida. 
Uma escritora absolutamente arrebatadora. A não perder.  




sexta-feira, 29 de maio de 2015

FRANÇOISE HARDY E O NOBEL DA LITERATURA




Françoise Hardy e Patrick Modiano (Prémio Nobel da Literatura 2014)
Françoise Hardy conheci-a há mais de quarenta anos e ainda hoje a oiço com um agrado inultrapassável mas o efeito nostálgico é demasiado..., Patrick Modiano conheci-o há meses, li um livro dele mas, sinceramente, não gostei mesmo nada do que li, um daqueles pastéis que se enrolam, enrolam, enrolam...

domingo, 24 de maio de 2015

LEITURAS 2015 - XVII - "MAZAGRAN" - J. RENTES DE CARVALHO


Foi de J. RENTES DE CARVALHO o último livro que acabei de ler -"MAZAGRAN-Recordações & outras fantasias", um livro de pequenas e simples histórias de vida que, aqui e ali, foram acontecendo com este excelente escritor português, uma das mais estimulantes descobertas dos últimos anos.

Este livro, que reúne cartas, artigos de jornal e outros escritos deste português nascido em Vila Nova de Gaia em 1930, foi afinal uma releitura dado que já o tinha lido em 2013, mas não o reli intencionalmente só que como era de J. RENTES DE CARVALHO comecei a lê-lo e só a páginas tantas é que senti que já tinha lido aquilo, mas não retrocedi pois este homem escreve tão bem que não me importei de voltar a saborear a sua escrita.    


MAZAGRAN-designa uma bebida favorita no Magrebi: um copo grande cheio até mais de um terço com café forte, um volume igual de água gasosa, muito açúcar, uma rodela de limão. Pode juntar-se um cálice de conhaque. Bebe-se quente no Inverno e quase gelado nos dias de calor. 

Como eu gostava de escrever assim...

sexta-feira, 22 de maio de 2015

A OCASIÃO FAZ O LADRÃO



surpreende o à vontade das pessoas no saque ao armazém do V.Guimarães, minutos depois do
final do jogo em que o Benfica se sagrou campeão nacional

quarta-feira, 20 de maio de 2015

LIVROS DE UMA VIDA - "GERMINAL" - EMILE ZOLA

Emile ZOLA  1840-1902
A obra deste grande escritor francês preencheu as leituras dos meus vinte e tal anos quando li quase tudo deste excelente escritor e este livro é um dos que entra em todas as listas dos livros da minha vida.   

"GERMINAL" é um dos grandes romances do séc. XIX e baseia-se em acontecimentos verídicos. 

O livro aborda as péssimas condições de vida dos trabalhadores das minas de carvão na França do séc. XIX.

Para escrevê-lo, Emile Zola trabalhou como mineiro numa mina de carvão, onde ocorreu uma greve sangrenta que durou dois meses. Actuando como repórter, Zola pintou a vida política e social duma época como jamais alguém o havia feito. 

Mais um dos livros de uma vida que é importante ler.



sábado, 16 de maio de 2015

LEITURAS 2015 - XVI - "conta corrente 3"

VERGÍLIO FERREIRA   -   1916-1996

Tomei-lhe o gosto! 

Esta forma de escrita de VERGÍLIO FERREIRA arrebata-me, daí estar a reler estes diários magníficos que transcrevem uma época da vida portuguesa. Este "conta corrente 3" revela, tal como os dois anteriores, também um sentido de humor inteligentíssimo e absorvente. Deixo apenas estes dois exemplos:

-Uma professora ensinava aos meninos as regras da metrificação. E para saber mais prático, exigiu que todos fizessem uma quadra nesse fim de semana. Um deles trouxe esta:

                                                        No domingo fui à praia,
                                                        vi vagas e vagalhões.
                                                        Meti-me pela água adentro
                                                        Molhei-me até aos joelhos.
- Ó menino! Mas isso não rima
-Pudera! estava a maré cheia.


E esta:

-Um dia um senhor feudal alentejano chamou um dos servos, a propósito de uma discussão havida entre elementos senhoriais: 
-João! Tu achas que fazer um filho é coisa desagradável?
-Patrão! Se fosse coisa chata fazer um filho, o patrão já me tinha dito: João! Vem cá fazer um filho na minha mulher! 




terça-feira, 12 de maio de 2015

LIVROS DE UMA VIDA - "AS VINHAS DA IRA"



Não errarei por muito se disser que li este livro há cerca de quarenta anos e sem dúvida que foi um dos grandes livros que li até hoje, daí o título da publicação que hoje inicio "LIVROS DE UMA VIDA"; pois é sobre eles que irei falar, começando hoje por este grande épico que é "AS VINHAS DA IRA".

John Steinbeck passou assim ser um dos meus escritores preferidos.

Ainda retenho a imagem de um cágado a subir um passeio no grande romance que é "A LESTE DO PARAÍSO" , a queda do cimo de uma macieira de um apanhador de maças no excelente panfleto que é "A BATALHA INCERTA", o delicioso "RATOS E HOMENS", a grande figura humana que é "O BORBULHAS" do magnífico "OS NÁUFRAGOS DO AUTOCARRO", um livro que disseca a alma humana como nunca a tinha lido...e muitos outros.

Pois "AS VINHAS DA IRA" é um dos grandes romances de um dos mais célebres, mais discutidos, mais lidos, mais controversos escritores norte-americanos.

A celeuma que, na altura da sua publicação, este livro provocou nos Estados Unidos não impediu que lhe concedessem o mais importante prémio literário que existe nesse país: o Prémio Pulitzer. Foi igualmente Prémio Nobel da Literatura em 1962.    


"AS VINHAS DA IRA" é por isso um dos livros de uma vida e que todos deveriam ler. 

O êxodo de uma família de lavradores que, vendo-se reduzida à miséria por uma tempestade de areia em Oklahoma, resolve emigrar para a Califórnia. 
A luta que todos os membros da família sustentam na sua exaustiva jornada contra os elementos e os homens e, até contra o próprio meio de transporte, a coragem de que dão provas, a generosidade da alma que afirmam, a piedade pelo sofrimento alheio, e o protesto, a revolta perante as injustiças do mundo que assinalam este épico tornam-no absolutamente eterno.   


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John Steinbeck - EUA   -  1902-1968

sexta-feira, 8 de maio de 2015

LEITURAS 2015 - XV - HARUKI MURAKAMI


O primeiro livro que li deste escritor japonês foi "Kafka à beira-mar" e foi um livro que me prendeu. Uma bela história com interessantes personagens e situações.  

Deste modo,claro que a partir daquele primeiro livro passei a ler os outros que, entretanto, se iam publicando em Portugal e confesso que os livros de HARUKI MURAKAMI nunca me desiludiram embora também nunca me deslumbrassem, atrevo-me até a dizer que será talvez uma literatura de consumo (não sei se será a palavra correcta, às vezes temos medo das palavras...), ou seja, literatura daquela que se esquece logo. 

Candidato ao Prémio Nobel ano após ano, é, na minha modesta opinião, um bom escritor mas não um Prémio Nobel.

Este livro que acabo de ler "A PEREGRINAÇÃO DO RAPAZ SEM COR" está dentro da linha de escrita de Murakami e, sem dúvida, que é igualmente um bom livro com todos os condimentos e ingredientes que tão bem este escritor japonês sabe juntar para nos contar uma boa história. 

"A PEREGRINAÇÃO DO RAPAZ SEM COR", conta-nos que, nos seus dias de adolescente, Tsukuru Tazaki gostava de ir sentar-se nas estações a ver passar os comboios. Leva uma existência pacífica, a condizer com a ausência de cor que caracteriza o seu nome, só que num repente a sua vida leva uma volta terrível quando os seus quatro melhores e inseparáveis amigos o desprezam e lhe deixam de falar não lhe dando para o facto qualquer explicação e ele "engole" e vai remoendo por dentro este seu terrível desgosto e vai-se embora da terra onde viveu...

Agora com 36 anos, muitos anos depois de desprezado pelos seus amigos, é engenheiro de profissão e projecta estações, mas nunca perdeu o hábito de ver chegar e partir os comboios. Regressa e resolve ir à procura dos seus amigos, dispersos pelo mundo, ignorando até se todos estariam vivos e vai tentar saber porque o desprezaram...  

Mais um bom livro que se lê com muito agrado e que nos distrai, bom para matar o tempo, e que poderei também incluir na tal literatura que se esquece logo... 

Haruki Murakami  1949

segunda-feira, 4 de maio de 2015

LEITURAS 2015 - XIV - "OS FRAGMENTOS" - FERREIRA DE CASTRO


1898 - 1974
Ferreira de Castro é talvez dos escritores portugueses mais esquecidos, um homem que acrescentava ao seu grande valor literário o seu grande valor humano. Uma obra que comparo à de um grande escritor norte americano, prémio Nobel da literatura em 1962, John Steinbeck.

Um grande romancista português que viveu uma existência dramática, num tempo dramático e num contexto em que a condição humana se viu particularmente humilhada.

 "OS FRAGMENTOS", o livro que acabo de ler é disso um bom exemplo.


"OS FRAGMENTOS" de FERREIRA DE CASTRO reúne três contos e um romance "O INTERVALO", escrito em 1936 mas que, por motivos relacionados com a censura, só foi publicado em 1974 após a sua morte. 

"O INTERVALO" relata a luta empreendida pelos operários espanhóis, na busca de uma melhoria geral de vida durante o pequeno período que durou a república espanhola e nele se revela toda a crueza e o sofrimento de um povo acontecidos durante a Guerra Civil Espanhola, uma guerra de uma crueldade absoluta.

"HISTÓRIA DA VELHA MINA" um dos outros três contos incluídos neste livro, é um excelente e real retrato do que foi a Mina de São Domingos (no Baixo Alentejo) nos primórdios da exploração da mina.



Sem dúvida que Ferreira de Castro descreve muitíssimo bem o que foi o sofrimento dos mineiros naquelas deploráveis condições de trabalho de quase absoluta escravidão. 

Também os patrões e empregados ingleses da mina são muito bem retratados na sua absoluta sobranceria, altivez e desprezo (característica inglesa) vivendo como que num mundo à parte no mais opulento e luxuoso dos mundos (nem a piscina faltava nas suas moradias) perante a miséria das gentes e famílias a quem exploravam e que, na mesma terra, passavam as maiores necessidades e sacrifícios, cujas casas, apesar de serem cedidas pela mina (e publicitadas aos quatro ventos com uma grande benesse) tão pequenas eram que nem janelas tinham. 

Também o Natal em Ossela, terra onde nasceu Ferreira de Castro, está muito bem descrito na crónica "A ALDEIA NATIVA".

Um bom livro de um grande escritor português, hoje, repito, infeliz e injustamente esquecido, mas que vale a pena conhecer.

terça-feira, 28 de abril de 2015

LEITURAS 2015 - XIII - HENRY DAVID THOREAU




"Walden ou a vida nos bosques" terá sido, porventura, o livro que trouxe mais notoriedade a HENRY DAVID THOREAU. Este "CAMINHADA" será a sua derradeira exposição sobre a natureza.

Thoreau era um andarilho, não um desportista "a caminhada a que me refiro nada tem a ver com a prática do exercício...". Thoreau praticava a caminhada como terapêutica natural e era um observador nato e exímio da natureza, da fauna e da flora.

"Caminhar sem rumo é uma grande arte

Thoreau era um naturalista e apreendeu a vantagem da vida natural e livre.

Thoreau era um escritor ecologista, humanista, libertário e pacifista que inspirou a vida de personalidades como Ghandi, Martin Luther King e Tolstoi.

Um visionário, e só para o ficar a conhecer um pouco melhor já valeu a pena ler este pequeno livrinho de pouco mais de oitenta páginas, escrito há cerca de duzentos anos.

Nos primórdios da industrialização americana, Thoreau entrevia precocemente um declínio civilizacional e os perigos da sociedade materialista prevendo já a "mutilação" da natureza e a chegada do consumismo. Um visionário!
EUA    -   1817-1862


sexta-feira, 24 de abril de 2015

LEITURAS 2015 - XII - "12 ANOS ESCRAVO"




Não obstante a escrita simples e ágil, "12 ANOS ESCRAVO" a obra que originou o filme com o mesmo nome, é talvez dos únicos livros em que gostei mais do filme o que do livro.

Nele se retrata a história de SOLOMON NORTHUP (escrita pelo próprio), um homem negro nascido livre nos Estados Unidos, que em 1841 vivia em Nova Iorque com a mulher e os filhos e ali levava uma vida pacífica entre os dotes de carpinteiro e o talento de tocar rabeca.

Após ter recebido de dois homens uma falsa proposta de trabalho, e após uma noite de copos, foi sequestrado, drogado e comercializado como escravo, tendo passado doze anos em cativeiro, trabalhando, na maior parte do tempo, numa plantação de algodão na Louisiana, onde sofreu as piores agruras que, na altura, um escravo poderia sofrer.

Após o seu (dificílimo e conseguido sabe-se lá como) resgate e ao fim de doze anos de grande sofrimento, Northup, com uma escrita simples, retrata os momentos mais marcantes e de absoluto sofrimento sofridos durante esta sua vida de escravo.  

Este é um dos poucos retratos da escravidão americana, redigido pelo próprio (Solomon Northup), uma pessoa que viveu a sua vida sob a óptica de uma dupla perspectiva: ter sido tanto um homem livre como um escravo.

Gosto de ler estes livros que retratam o sofrimento do homem que é imposto por outro homem, e era bom que nunca fosse esquecida esta negra fase da humanidade, que, infelizmente, a qualquer momento poderá voltar a acontecer, já que, em qualquer sociedade continua a haver espezinhadores e espezinhados.



segunda-feira, 20 de abril de 2015

LEITURAS 2015 - XI - "ESTRADA PARA LOS ANGELES"




Aos dezoito anos Arturo Bandini vive com a mãe e a irmã em San Pedro, perto de Los Angeles. Obrigado, pela morte do pai e pela grande crise de 1929, a trabalhar em empregos duros e mal pagos, tem nas revistas pornográficas o seu único alívio, um hábito muito censurado pela beatice da mãe e da irmã. As suas outras leituras consistem nos livros que procura na biblioteca, obras de grandes autores como Nietzsche e Schopenhauer, que Arturo mal compreende mas que gosta de se gabar de ter lido. É ateu e simpatizante do comunismo russo (o que gera o medo dos seus compatriotas). Em ESTRADA PARA LOS ANGELES deparamos com muitas situações que nos surgem ao longo da vida.

A saga de Arturo Bandini é composta por quatro romances: A PRIMAVERA HÁ-DE CHEGAR, BANDINI, publicado em 1938; ESTRADA PARA LOS ANGELES, publicado postumamente em 1985, embora tenha sido o primeiro a ser escrito e o segundo volume do quarto; PERGUNTA AO PÓ, publicado em 1939; e por fim SONHOS DE BUNKER HILE, ditado à mulher depois de o autor ter ficado cego em 1978, depois de em 1955 ter sido atingido pelos diabetes. Morreu em 1983, aos 74 anos.
John Fante  1909-1983

JOHN FANTE - poderei colocá-lo no patamar daqueles escritores transcendentes como Philip Roth, Saramago, Vergílio Ferreira. Uma escrita para ser lida com a máxima concentração. 

Alguém me disse (ou li algures) sobre John Fante que era um dos mais influentes escritores (esquecidos) da literatura norte-americana e olha que me parece bem acertado. 

Este é um bom livro, apesar de, repito, eu o considerar um livro nada fácil, que requer atenção, daqueles que nos obriga a pensar (o que mais gosto na literatura).

É um livro com uma história coleante, peganhosa, que se nos cola à pele e que deixa um rasto como o rasto de um caracol numa estrada de alcatrão. 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

LEITURAS 2015 - X - "A PAPOILA E O MONGE"




Este livro de JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA de centena e meia de poemas, composto por três versos curtos em cada página também ainda não me conseguiu "arrastar" para a poesia. 

"A PAPOILA E O MONGE" é o resultado de uma viagem que este poeta madeirense realizou ao Japão e resultou nesta forma de poesia de origem japonesa que se baseia maioritariamente nas relações entre o homem e a natureza. 

Efectivamente, apesar das minhas ocasionais tentativas, continuo a não ter qualquer proximidade com a poesia, nem mesmo com esta forma de poesia com versos tão curtos.

Tudo é efémero:
ontem escutava a tua voz
hoje só o vento

Recordo sempre as palavras de um amigo, mais velho do que eu, e que gostava muito de música clássica e de ópera e face à minha rejeição me dizia que, tal como ler, também da música e da ópera se aprende a gostar e talvez seja esse, porventura, também o caso da poesia. Porém...  



domingo, 12 de abril de 2015

LEITURAS 2015 - IX - FOTOBIOGRAFIA VERGÍLIO FERREIRA




Para além de retratar (no pleno sentido da palavra) a obra de Vergílio Ferreira, esta fotobiografia, muito bem organizada, delicia-nos com fotos de muita gente com quem o escritor conviveu, bem como retrata igualmente muito bem o seu âmbito familiar.

Contém uma autobiografia, também excelente, escrita naturalmente pelo próprio escritor em Maio de 1977.  

De lá retiro este excelente texto:

...e a minha biografia deve ter findado aqui. Lisboa é um sítio onde se está, não um lugar onde se vive. Mesmo que lá se viva há 18 anos, como eu.
Perguntam-me com frequência se eu não me sinto realizado. Respondo sempre que não. Porque eu sou maior do que eu e só me sentiria realizado se fosse do mesmo tamanho. 


quarta-feira, 8 de abril de 2015

CARTA DE DESPEDIDA DE GABRIEL GARCIA MARQUÉZ


Viajando pelo mundo virtual na procura de notícias e novidades literárias, descobri uma verdadeira pérola de literatura, que aqui me atrevo a reproduzir.

É uma carta escrita em jeito de despedida pelo grande escritor colombiano Gabriel Garcia Marquéz, pouco antes de morrer e numa altura em que se aproximava da demência senil. Revelada ao mundo pelo seu irmão Jaime Garcia Marquéz:  

"Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marioneta de trapo e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas, certamente pensaria tudo o que digo. Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam. Dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os demais parassem, acordaria quando os outros dormem. Escutaria quando os outros falassem e desfrutaria de um bom gelado de chocolate.

Se Deus me presenteasse com um pedaço de vida vestiria simplesmente, jogar-me-ia de bruços no solo, deixando descoberto não apenas meu corpo, como também a minha alma.

Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria o meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saísse. Pintaria como um sonho de Van Gogh sobre as estrelas um poema de Mário Benedetti e uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à Lua. Regaria as rosas com as minhas lágrimas para sentir a dor dos espinhos e o encarnado beijo das suas pétalas.    


1927 - 2014
Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida!...Não deixaria passar um só dia sem dizer às pessoas: amo-te, amo-te. Convenceria cada mulher e cada homem de que são os meus favoritos e viveria apaixonado pelo amor. 

 Aos homens, provar-lhes-ia como estão enganados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar.

A uma criança, daria asas, mas deixaria que aprendesse a voar sozinha.

Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento. 

Tantas coisas aprendi com vocês, os homens...Aprendi que todos querem viver no cimo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a rampa. Aprendi que quando um recém-nascido aperta, com sua pequena mão, pela primeira vez, o dedo do pai, tem-no prisioneiro para sempre. Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se.

São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas, a mim não poderão servir muito, porque quando me olharem dentro dessa maleta, infelizmente estarei a morrer."

sexta-feira, 3 de abril de 2015

LEITURAS 2015 - VIII - conta corrente 2 - VERGÍLIO FERREIRA



Continuo a reler "conta corrente", esta excelente narrativa sob a forma de diário (em nove volumes) do que foi a vida portuguesa entre 1969 e 1993. 

Acabei de reler "conta-corrente 2" que relata o período entre 1969 e 1976.

Mais um excelente diário que nos dá uma belíssima perspectiva da vida de um cidadão comum contada por um cidadão que é escritor e não é comum.

Sempre que leio um livro de Vergílio Ferreira estou munido de um lápis e de um caderno em que assento pensamentos seus absolutamente marcantes, alguns de excelente humor:


Vergílio Ferreira  1916-1996

-não fui eu que fiz os livros, senhores. Foi um tipo que mora comigo e com quem, aliás, não mantenho grandes relações.

-O problema da morte é para vivos, e um velho começa a sê-lo menos.

-Só se imagina o que está ausente.

-Um livro não pode simplesmente distrair-nos. É necessário um "saldo" final que nos comprometa com a vida. Que nos perturbe.

-O contrário da verdade, não é mentira, mas a razão.

-Os pequenos crescem. Um modo de nós diminuirmos.

-Se te dizem que estás novo, é porque estás mesmo velho.

-Uma homenagem é uma forma de nos inscreverem na necrologia.     

domingo, 29 de março de 2015

A TRAGÉDIA AÉREA DOS ALPES E O NEGÓCIO


Um avião Airbus A320 despenhou-se, tendo sido propositadamente atirado contra a montanha, nesta terça-feira (24.03.2015) no sul de França, com 150 pessoas a bordo, não havendo sobreviventes.

Segundo a imprensa, a caixa negra do avião revela que o comandante saiu do cockpit, ficando ali apenas o co-piloto, que se trancou e não abriu a porta, apesar do desespero do comandante na tentativa de entrar e evitar a tragédia causada deliberadamente pelo co-piloto.

Na sequência da tragédia e relativamente ao facto de apenas haver duas pessoas na cabine, ouvi na rádio o comandante Miguel Silveira, presidente da Associação de Pilotos de Linha Aérea, dar entender que estas companhias aéreas reduzem ao mínimo regulamentar as pessoas que deverão constituir a tripulação, sendo um facto que na mira de reduzir custos tudo se permite, aliás, referiu ainda que "se fosse por vontade deles (dos patrões), deixaria de haver mais de uma pessoa na cabine, se possível nenhuma, nem cabines haveria, nada de nada, o lucro é tudo o que interessa, os números, os números..." 




Dá que pensar. 
- o dinheiro,a ganância, o lucro está mesmo a "matar" os homens -

É o vale tudo na busca dos números, na insaciável procura do lucro, vale tudo mas, para determinada gente, cada vez menos vale a vida humana.


as lágrimas de crocodilo(s)

quarta-feira, 25 de março de 2015

BOM DIA NO ELEVADOR


Ontem entrei num elevador onde já estavam cinco pessoas, disse bom dia, e eis que, boquiabertos, estas olharam para mim como se ali tivesse entrado um marciano. Será que pareço mesmo um marciano?



Já não é a primeira que me acontece e dá que pensar...ou talvez não...



sexta-feira, 20 de março de 2015

LEITURAS 2015 - VII - EM NOME DA TERRA - VERGÍLIO FERREIRA




Já no fim da vida - a gente chega ao fim, que é quando já não tem embalagem para haver mais futuro, e então senta-se - João Vieira, viúvo e reformado, decide viver os últimos anos da vida num lar, já depois de, por motivos de saúde, lhe terem cortado a perna esquerda.

Ali, depois de ter doado todos os seus bens à sua filha Márcia, guardando para si apenas: a memória, um Cristo mutilado, um desenho de Durer e um disco de Mozart.

E ali na solidão e reclusão do lar vai mantendo um diálogo sem resposta, através de uma carta que decide escrever à sua mulher Mónica, já falecida, e que descreve como o seu amor eterno, rememorando toda uma vida que passaram juntos, falando dos três filhos do casal (Teo, Marta e André) que em comum têm um grande distanciamento do pai e talvez por isso fale deles de passagem.

É um livro duro que aborda igualmente, numa linguagem crua, toda uma série de questões reais como o envelhecimento e a degradação do corpo.  

É mesmo um livro triste, um livro que dói mas uma magnífica e pungente narrativa de um profundo amor.  

- o maior prazer de quem precisa é haver quem precise mais

-Querer esquecer é lembrar, o que não se lembra é apenas o que se esquece mas não se quer esquecer


Vergílio Ferreira 1916-1996 um grande escritor da língua portuguesa






sábado, 14 de março de 2015

OS CORVOS DE LISBOA



Andava eu na busca do "gato-pingado" ligado aos enterros na cidade de Lisboa no século passado, quando deparei com os corvos de Lisboa que vejo constantemente pelas esquinas e candeeiros da cidade e na bandeira do município e perguntei-me, porquê dois corvos?

Os dois corvos que aparecem no brasão de Lisboa estão ligados a São Vicente, mártir cristão do século IV e padroeiro dessa cidade. Por não querer abjurar (renunciar) da sua fé, os romanos o torturaram e atiraram o seu cadáver às aves de rapina. Segundo a lenda, um corvo defendeu os despojos. Os cristãos de Valência (Espanha) onde esta história se passa, receando que os árabes invasores da Península Ibérica, em meados do século VIII, profanassem o corpo do santo, resolveram trasladá-lo para o promontório Sacro, no Algarve. Ali construíram uma igreja e um convento, e o local passou a chamar-se Cabo de São Vicente. Dizia-se que os corvos que voavam sobre a igreja eram descendentes daquele primeiro corvo.  


Em 1173, o primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, mandou trazer o corpo para Lisboa; dois corvos acompanharam as sagradas relíquias desde o Algarve, postando-se um à popa e outro à proa da embarcação que as transportava. 

Da tradição dos corvos de São Vicente, ficou a chamar-se vicente ao corvo e, por extensão, a outros animais negros.


segunda-feira, 9 de março de 2015

LEITURAS 2015 - VI - Dai Sijie




"BALZAC E A COSTUREIRINHA CHINESA", de DAI SIJIE (o primeiro livro escrito por este chinês, nascido em 1954, residente em França que escreve em francês, e que foi um dos grandes êxitos da edição francesa em 1999), que deve ser muito difícil de encontrar à venda nos tempos que correm mas que merecia ser reeditado. Foi o sexto livro que li este ano. 

Conta os destinos de dois adolescentes chineses durante a Revolução Cultural (nos tempos de Mao) que são castigados pelas suas origens intelectuais (filhos de médicos e engenheiros) enviados para o interior da China para trabalharem no campo. Aí conhecem, porém, uma jovem costureirinha, a filha do alfaiate da aldeia, muito atraente mas quase analfabeta que resolvem ensinar a ler. E como? Graças à ajuda da surpreendente descoberta (ou, melhor dito, surripiada por eles numa casa semi-abandonada) de uma misteriosa mala recheada de grandes livros, de grandes escritores do património universal (além de Balzac, Tolstoi, Flaubert, Gogol, Melville, Romain Rolland e outros) todos traduzidos para chinês. 

E estes dois amigos transferidos para uma longínqua aldeia, lá para as bandas do Tibete, apaixonam-se pela costureirinha e hão-de disputá-la com o chamariz do poder mágico da literatura. Ignoram, porém, que, no momento em que ela se tornar igualmente ilustrada, decidirá pela sua própria cabeça...

É daqueles livros que estava destinado a morrer esquecido na prateleira e que, após alguns anos depois de ali repousar, resolvi trazê-lo à vida... e ressuscitou.

Numa classificação de 0 a 7 merece-me pelo menos 3,5



quarta-feira, 4 de março de 2015

LEITURAS 2015 - V - PAULO MOURA


"LONGE DO MAR" de PAULO MOURA 

Uma agradável surpresa este pequeno livrinho editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (comprado no pingo doce), que nos conta histórias bem portuguesas, histórias de lugares e de gente simples, de gente que vive e viveu na mais negra miséria e que passou as maiores fomes.

"LONGE DO MAR" é uma viagem pela Estrada Nacional 2 de Chaves a Faro pelo interior. Paulo Moura percorreu a mais longínqua estrada do país, contando histórias de lugares e pessoas.

-Que aconteceu aos contrabandistas de Viva Verde da Raia? 

-à menina que amou de mais, 

-ao play-boy de Tortosendo, e às elites desta terra (do tempo da outra senhora) que o escritor covilhanense Manuel da Silva Ramos descreveu no seu livro "Café Montalto"

-à louca de Trevim, 

-ao casal de ferreiros (de Faro) apaixonado por livros, 

-a Natália que dormiu na cela o assassino do marido, 

-ou Joaquina, que viveu sozinha com a filha, Iria, durante 20 anos, numa aldeia abandonada? 

Os seus destinos, não o da estrada, marcaram o rumo desta agradável e excitante viagem.

Às vezes descobrimos estas pequenas maravilhas.