domingo, 17 de abril de 2016
SERES HUMANOS?
O lutador português João Carvalho, mais conhecido, imagine-se, como "rafeiro" (a sua boca confirmava-o), morreu na passada segunda feira à noite em Dublin, Irlanda, depois de ter sido absolutamente massacrado com murros, pontapés e toda uma série de golpes na cabeça durante um combate de artes marciais mistas (MMA); uma selvajaria em três assaltos, uma verdadeira estupidez em que vale tudo, boxe, kick-boxing, karaté, judo, wrestling, jiu-jitsu brasileiro e sei lá que mais barbaridades. Absolutamente horripilante o vídeo disponível nas redes sociais.
E para assistir a este espectáculo degradante de violência e morte, o recinto cheio de alguns milhares de "pessoas". Afinal que gente é esta? Como é possível num mundo que se diz civilizado gente a praticar e (ainda mais vergonhoso) gente a assistir a esta humilhante e estúpida degradação do ser humano que, afinal, parece ter regredido (nos seus sentimentos) desde o tempo das cavernas em que porventura se poderia matar mas para sobreviver e não por prazer.
Mas que gente será esta? Mas que passará pela cabeça destas "pessoas"?
quarta-feira, 13 de abril de 2016
CARÁCTER
"Um homem de carácter pode amar a insignificância"-esta frase, que julgo ter sido escrita por Agustina Bessa Luís no seu excelente romance "Fanny Owen", vem-me sempre à ideia quando, por exemplo, como hoje me aconteceu durante a caminhada que efectuei, me vi de repente a transferir (quase que envergonhadamente) caracóis de um para o outro lado da estrada de modo a colocá-los a salvo dos eventuais esmagamentos que pudessem ocorrer durante a passagem dos outros caminhantes.
Esta cena, em que apenas funciona o meu subconsciente, acontece-me frequentemente e penso que certamente poderá parecer ridicula para quem eventualmente me possa observar; contudo, por outro lado, é nessa altura que me vem à cabeça a tal frase de Agustina.
São feitios...
sexta-feira, 8 de abril de 2016
A MEMÓRIA
| Miguel Torga 1907 - 1995 |
"É difícil a uma nação que desconhece ou despreza os seus grandes homens em vida doirar-lhes depois a memória. Se viveram em pocilgas, mal poderão depois ser relembrados em castelos, a não ser nas academias, onde a hipocrisia supre tudo, com carpideiras oficiais, louros falsos e mármores de gesso. Mas há uma maneira decente de sanar as indecências: é esquecê-las.".


Uma opinião expressa por Miguel Torga em 30 de de Julho de 1943, que, infelizmente, continua tão actual!
E estou a pensar em tantos portugueses que têem servido o bem comum, enquanto se premiaram ou vão premiando outros(as) que apenas se têem servido a eles.

segunda-feira, 4 de abril de 2016
LEITURAS 2016 - XIV- "MENTIRA" - Enrique de Hériz

"MENTIRA" do espanhol Enrique de Hériz, é um livro que, apesar de publicado em 2006, desconhecia em absoluto. São mais de quinhentas páginas que nos revelam a história de três gerações de uma família. Não direi que foi um livro que não me cativou mas também não posso dizer que me "agarrou" e creio que metade das páginas chegariam para nos revelar esta (imaginativa) história, que até começa com uma surpresa.
Uma antropóloga espanhola (especialista em ritos funerários), durante uma viagem de trabalho à Guatemala, descobre que foi dada como morta, depois de esquecer a mochila com a documentação junto de um cadáver feminino, quando os jornais do seu país noticiam o seu falecimento num acidente. Ao saber que a filha identificou erradamente um cadáver mutilado como sendo o seu, decide manter a verdade escondida e continuar "morta", evitando assim regressar a uma vida junto da família (tem marido e três filhos).
A partir desta MENTIRA inicial sucedem-se outras que vão revelando a história de três gerações de uma família.
Mas livros de quinhentas ou mais páginas (formato José Rodrigues dos Santos) só com "selo" de garantia...(e este não é bem o caso).
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| enrique de hériz - n. Barcelona 1964 |
3 - razoável
0 - li, mas foi zero
1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
3,5 - interessante
4 - bom
5 - muito bom
6 - excelente
7 - obra-prima
quarta-feira, 30 de março de 2016
A LENDA - JOHAN CRUIJFF

Até hoje, Cruijff foi o jogador que mais gostei de ver jogar futebol.
Um autêntico líder em campo (e fora dele-como treinador)!
Foi porventura o jogador (e treinador) que mais influenciou o futebol moderno.
O líder da selecção holandesa que ficou conhecida como "laranja mecânica" foi o expoente máximo do futebol total.

Como em todas as artes há aqueles (muito poucos) que são quase sobrenaturais na sua; no futebol ouso nomear quatro (já retirados) dos que vi jogar: Pelé, Maradona, Eusébio e Cruijff.
O seleccionador Rinus Michelis (talvez o melhor treinador de futebol que conheci até hoje), que levou a Holanda à final do Mundial de 1974 dizia: "sem Cruijff não tenho equipa".
Morreu em Barcelona a 24 de Março de 2016, vítima de cancro do pulmão que lhe havia sido diagnosticado em Outubro de 2015.
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| Johannes Cruijff ( há 4 dias)- Amesterdão - 1947 - 2016 |
Johannes Cruijff disse:
- - Não sou religioso. Em Espanha, os 22 jogadores faziam o sinal da cruz antes de entrar em campo. Se isso funcionasse todas as partidas terminariam empatadas
- - Jogadores que não são verdadeiros líderes mas tentam ser, discutem sempre com os outros depois de um erro. Os verdadeiros líderes dentro do campo já sabem que os outros vão errar.
sábado, 26 de março de 2016
LEITURAS 2016 - XIII - "ÍNDICE MÉDIO DE FELICIDADE" - DAVID MACHADO

David Machado (n. em Lisboa em 1978) é um dos grandes talentos da nova geração de escritores.
Já tinha gostado do seu excelente romance "Deixem falar as pedras" e este "ÍNDICE MÉDIO DE FELICIDADE" veio reafirmar o seu talento, pois é um romance admirável e extremamente actual sobre a crise que tem varrido Portugal e o quanto mal ela tem causado às pessoas, sobretudo àquelas que perderam os seus empregos e que viram as suas vidas viradas do avesso, como é o caso de Daniel o protagonista principal deste excelente livro.
Daniel tinha um plano de vida, uma espécie de diário do futuro, escrito num caderno. às vezes voltava atrás para corrigir pequenas coisas, mas, ainda assim, a via parecia fácil - e a felicidade também. De repente, porém, tudo se complicou: Portugal entrou em colapso e Daniel perdeu o emprego, deixando de poder pagar a renda casa, a conta da água, do gás da electricidade e a mulher também desempregada...
David Machado é, sem dúvida, um dos melhores ficcionistas da sua geração.
3.5 - interessante
0 - li, mas foi zero
1 - desisti
2 - li, mas não me cativou
3 - razoável
3,5-interessante
4 - bom
5 - muito bom
6 - excelente
7 - obra-prima
terça-feira, 22 de março de 2016
LEITURAS 2016 - XII - "AMOR QUE MATA" - ROSA MONTERO
Desde que li "A louca da Casa", da espanhola Rosa Montero fiquei sempre atento aos seus livros e "Instruções para salvar o mundo" e "História do Rei Transparente" foram mais dois excelentes livros que contribuíram para que continuasse a ser um seu leitor.
Acabei agora de ler "AMOR QUE MATA" e confesso que este, ao contrário do que antes acontecera, soube-me a pouco e acho que não irá acrescentar muito à sua obra literária.
"AMOR QUE MATA" fala de um outro lado da vida de quatro dos tiranos mais conhecidos: a intimidade partilhada com as mulheres das suas vidas. Esposas, amantes, filhas, sobrinhas, todas elas desempenharam um papel significativo na vida destes ditadores; algumas delas foram determinantes no decurso de certos acontecimentos históricos.
-ESTALINE-que era violento e cruel com as mulheres, levando-as ao desespero, mas ponderava o suicídio quando elas morriam.
-MUSSOLINI-um machista cruel que dizia que as mulheres eram como as massas, ambas feitas para serem violadas.
-HITLER-que nunca quis assumir qualquer relação, consciente de que a sua "disponibilidade" seria um factor decisivo junto do eleitorado feminino.
-FRANCO-que ordenou as mais bárbaras execuções mas, na intimidade, era altamente influenciado pela mulher, D. Carmen, extremamente mandona, extremamente religiosa (uma ferrenha beata) e uma autêntica avarenta que não olhava a meios para aumentar o seu património, (a sua avidez levou-a, por exemplo, a fundir as medalhas, bandejas e placas que Franco fora recebendo, convertendo-as em lingotes de prata ou de ouro).
"AMOR QUE MATA" não deixa contudo de se revelar um documento curioso que nos ajuda a conhecer um outro lado destes cruéis ditadores.
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| Rosa Montero, Madrid 1951 |
quinta-feira, 17 de março de 2016
LEITURAS 2016 - XI - "HISTÓRIAS DE VER E ANDAR" - TEOLINDA GERSÃO

A escrita de TEOLINDA GERSÃO é simples, fácil, acessível, directa. Qualquer um dos seus livros que já li nenhum me desiludiu, todos li com muito agrado; recomendo especialmente o romance "PASSAGENS".
"HISTÓRIAS DE VER E ANDAR" é um bom livro de contos, quase todos de apenas duas ou três páginas, mas excelentes.
Como se refere na contracapa do livro, no fim de cada um dos contos descobriremos que a vida, a nossa própria vida, não estava exactamente no lugar que pensávamos.
Gostei de todos os contos, gostei especialmente de "As cartas deitadas" em que se retrata exactamente os tempos em que os filhos dos empregados usavam a roupa que os meninos já tinham deixado de usar, que brincam com os filhos dos patrões quando eles querem brincar (são eles que têem os brinquedos).
São catorze contos onde são descritas situações que certamente muitos de nós poderão ter passado.

sábado, 12 de março de 2016
LEITURAS 2016 - X - "BUTCHER'S CROSSING" - JOHN WILLIAMS

John Williams, Professor Universitário, autor e editor escreveu apenas quatro romances (deixou um quinto inacabado). Que eu saiba apenas dois foram publicados em Portugal, este "BUTCHER'S CROSSING" (escrito em 1960) e "STONER" (em 1965) que ainda não li mas que, pelo que tenho ouvido e do que já tive oportunidade de espreitar, deverá ser excelente.
"BUTCHER'S CROSSING" é uma excelente história: em 1870 Will Andrews, que se fartou de Harvard (onde frequentava a Universidade), ansioso por aventura, chega a Butcher's Crossing uma pequena localidade no duro Oeste, onde vai conhecer figuras curiosas, gente dura e que se confunde com a paisagem.Ali encontra o seu mentor: Miller, um caçador de poucas falas, que conhece o refúgio da última grande manada de búfalos. Seduzido pela promessa de aventura, o protagonista junta-se à expedição. Serão quatro homens em marcha, por terra bravia, numa luta épica contra o tempo, a sede e os elementos.
É um grande romance que, tal como "STONER", passou despercebido durante mais de cinquenta anos. É um grande romance de um grande escritor.
Excelente!
Nota: a páginas tantas (não tomei nota do nº. de página) leio estavam enxendo os copos, em vez de enchendo os copos; não queria acreditar mas é verdade como é que uma editora lança um livro com um erro destes, é que eu atrevo-me a pensar que poderá não ser uma gralha mas que eventualmente até poderá tratar-se mesmo de um erro de quem não sabe. Por vezes já começo a duvidar de mim próprio nesta questão do português, tantos pontapés na língua que ouço e, pasme-se, agora até os leio num livro à venda ao público!
| John Williams-EUA - Clarksville - Texas - 1922-1994 |
terça-feira, 8 de março de 2016
LEITURAS 2016 - IX - "O PEQUENO LIVRO DO GRANDE TERRAMOTO" - RUI TAVARES

O Terramoto de 1755 foi, seguramente, a maior catástrofe natural que algum dia se abateu sobre Portugal e é considerado como o maior dos sismos de que há notícia histórica.
Com epicentro localizado a cerca de cento e cinquenta quilómetros a sudoeste do Cabo de S, Vicente, os seus efeitos destrutivos, sentidos fortemente em Lisboa, estenderam-se ao Algarve, sul de Espanha e a uma vasta área de Marrocos (onde foi sentido à mesma hora e com igual rigor). Por acção conjunta do tremor de terra e do tsunami que se lhe seguiu Lisboa, Setúbal e muitas outras povoações foram largamente destruídas tendo morrido milhares de Portugueses. Embora sem causar danos, também foi sentido por quase toda a Europa, nos Açores e na Madeira.
"O PEQUENO LIVRO DO GRANDE TERRAMOTO", um ensaio sobre 1755, propõe uma abordagem inovadora da história e acompanha-nos numa travessia a que é difícil resistir e ficamos a conhecer factos curiosos sobre esta calamidade;
-o sismo deu-se às nove e meia da manhã do dia 1 de Novembro de 1755.
-o tsunami terá ocorrido entre uma e duas horas depois
-os incêndios que terão começado logo durante o abalo só se tornaram notórios a partir do meio-dia e duraram vários dias
-o terramoto durou mais de sete minutos, com duas curtas paragens
-a onda gigante chegou à capital do reino e tinha seis metros de altura

Neste ensaio sobre o terramoto de 1755 fiquei a saber quem eram algumas das figuras que só conhecia por nome de rua, como por exemplo, entre outras, o engenheiro militar MANUEL DA MAIA que ficou como sua obra principal a construção do Aqueduto das Águaas Livres e que no próprio dia do sismo passou-o, tentando salvar, com sucesso os documentos do arquivo da Torre do Tombo (de que foi guarda-mor).
É um ensaio interessante sobre esta grande calamidade. Devo no entanto confessar que cheguei a temer pela continuação da leitura do livro já que as primeiras trinta páginas, em que era abordada uma relação entre o terramoto de 1755, o 11 de Setembro de 2001, o tsunami de 2004 e os incêndios de Roma em 64 d.c., não me conseguiram prender e achei-as (estas primeiras trinta e tal páginas) desinteressantes no contexto do que pretendia o leitor ( o meu caso) -saber mais sobre o Terramoto de 1755, o que, no entanto, foi, quanto a mim, conseguido.
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| Rui Tavares nasceu em Lisboa em 1972 |
sexta-feira, 4 de março de 2016
UMBERTO ECO E OS LIVROS
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| Itália 1932-2016 |
Não li mais de três/quatro livros de UMBERTO ECO, o escritor, filósofo, semiólogo, linguísta, bibliófilo e sábio italiano, que faleceu há pouco mais de quinze dias (dia 19 de Fevereiro 2016), com 83 anos.
Dos livros que já li deste grande escritor italiano tenho extraído e anotado algumas considerações, que vou relendo de vez em quando; eis duas delas:

E o que é que eu respondo? nenhum, de modo porque os guardaria aqui? o senhor porventura costuma guardar as latas de conserva depois de as esvaziar? os cinquenta mil que já li ofereci-os a prisões e hospitais. E o imbecil estremece..."
(do livro "A MISTERIOSA CHAMA DA RAINHA LOANA"

(do livro "NÚMERO ZERO")

domingo, 28 de fevereiro de 2016
LEITURAS 2016 - VIII - "ERNESTINA" - J. RENTES DE CARVALHO

Os Holandeses sempre foram um povo que me despertou alguma atenção e curiosidade e terá sido certamente esse o motivo que, na altura (já lá vão uns anos), me empurrou para a leitura do livro "COM OS HOLANDESES" através do qual descobri um grande escritor português, que era para mim, até à altura, um completo desconhecido.
Depois de ter lido aquele excelente livro é sempre com alguma expectativa que começo a ler outro do autor. "ERNESTINA" foi o que acabei agora de ler, e mais uma vez não me desiludiu; é como que uma viagem à nossa infância, aos primeiros tempos da nossa vida, tempos que à medida que os anos vão passando mais vamos recordando com saudade, e talvez até com alguma amargura, sentindo os cheiros, vendo a escola, os amigos, as ruas, as pessoas, os largos, os muros, as árvores, enfim, toda aquela nuvem que nos invade quando ("sonhando") recuamos no tempo.
ERNESTINA é mais do que um romance autobiográfico ou um volume de memórias de família ficcionadas. É um retrato de Trás-os-Montes, dos anos 1930 aos anos 1950, um romance que transcende o relato regionalista e que transpôs fronteiras, transformando-se num fenómeno editorial na Holanda (J.Rentes de Carvalho vive há quase ou mais de meio século na Holanda, actualmente entre cá e lá).
Ernestina é também o nome da mãe do autor e da intrépida protagonista deste livro. Sobre ela J. Rentes de Carvalho disse (como a maioria de nós poderíamos também dizer das nossas mães): "Mãe de um só filho, a sua vida, que foi de uma tristeza, amargura e terrível solidão, dava um livro. Escrevi-lho eu. E a sua morte quebra o último elo carnal que me ligava à terra onde nasci. Felizmente são ainda muito fortes os laços que a ela me prendem".
Gostei
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| José Rentes de Carvalho - Vila Nova de Gaia 1930 |
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
ROSTO CONHECIDO, OBRA DESCONHECIDA

No post anterior falei da situação curiosa em que me cruzei em Lisboa, na Estação do Rossio, com o pintor da noite, o misterioso Arnaldo Ferreira, quando este levava na mão (ao alto) o busto com o rosto de um português notável e perguntava (cara a cara) aos transeuntes, num tom que amedrontava, se sabiam quem era a personagem...
Era o Alexandre Herculano, um escritor que, penso eu, a sua figura e imagem será muito mais conhecida do que a sua obra.
Pois desde essa altura que fiquei com a imagem (e o semblante pesado) deste notável português, bem presente. Contudo, confesso que até hoje nunca ousei ler um livro dele pois, ao relembrar o seu semblante sério, fiquei, não sei porquê, com a sensação de que será um escritor de leitura pesada e difícil.
"Estamos pobres, somos ignorantes, vivemos na corrupção e no aviltamento"-escreve Alexandre Herculano, em 1851, em editorial no jornal "O País".
Participa na redacção do 1º. Código Civil Português (1860-1865), propondo o casamento civil como alternativa ao casamento religioso, o que provoca acessa polémica com o Clero.
Poeta, romancista, historiador, bibliotecário, ensaísta e polemista, Herculano é, sem dúvida, a par de Garrett, a grande figura fundadora do Romantismo em Portugal, e uma grande figura nacional.
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| Alexandre Herculano - 1810 - 1877 |
domingo, 21 de fevereiro de 2016
MEMÓRIAS LONGÍNQUAS DA BAIXA DE LISBOA
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| Arnaldo de Benavente Ferreira, o pintor da noite (1923-2000) |
Num certo dia, em que, em vez do habitual bouquet de flores que costumava levar consigo, vejo-o, junto à Estação do Rossio, com um busto em madeira do poeta, romancista e historiador Alexandre Herculano, a dirigir-se às pessoas que por ali passavam e colocava-lhes o busto à frente da cara perguntando-lhes em voz alta mas nem sempre bem audível: -não sabes quem é pois não? ignorantes, canalhas, claro que não sabem nada, mas se fosse o Eusébio sabiam de certeza absoluta, cambada de ignorantes; e assim, clamando impropérios, seguia em passo apressado. Conservo perfeitamente na memória a imagem daquele homem alto, falando tão alto e tão ameaçadoramente que por vezes chegava a assustar quem, calma e distraidamente, seguia no seu caminho.

Nunca mais esqueci aquele personagem gigante, embora não tivesse certamente mais de 1,75. Era o Arnaldo, sempre impecavelmente vestido de negro, sapatos de verniz reluzentes, cabelo bem penteado para trás com brilhantina e a quem chamavam o pintor da noite, ou o sempre noivo. Dizia-se que teria enlouquecido quando a sua noiva morreu uns dias antes do casamento (também corria a história de que a noiva não teria aparecido no dia da boda).
As suas deambulações pela baixa de Lisboa fazia-as durante o dia já que à noite ficava sempre em casa a pintar - pintava na sua maioria os bairros e as zonas mais características da Lisboa nocturna, sem vivalma.
Sei que o Museu da Cidade tem quadros seus e que, em 2005, foi homenageado pela Câmara Municipal de Lisboa com a Medalha de Mérito Municipal.
Na alta de Lisboa existe uma rua com o seu nome.
A última vez que o vi foi num eléctrico, quando este "amarelo" ainda circulava na Baixa de Lisboa.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
LEITURAS 2016 - VII - "PRIMEIRA PESSOA" - PEDRO MEXIA

Não o conheço pessoalmente mas gosto de Pedro Mexia, especialmente do que escreve, sejam livros, sejam crónicas em jornais ou revistas, e este "PRIMEIRA PESSOA", que reúne as crónicas publicadas na (creio que extinta) revista Grande Reportagem entre Novembro de 2003 e Dezembro de 2005, foi outro dos seus livros de que gostei. Pedro Mexia parece-me um dos jornalistas mais honestos intelectualmente que conheço e estas crónicas, que assumem, muitas delas, confissões íntimas, parecem comprovar isso mesmo.
Gosto especialmente das suas observações sobre livros e sobre escritores:
-"Os livros são possessivos e ciumentos. Detestam vida social, namoradas, vizinhos, detestam cães, gatos. Os livros querem o seu reino absoluto sobre os metros quadrados todos disponíveis e mais alguns que se inventem. Os livros vão ficando em monte, em pilha, em coluna, vão sendo propriedade vertical, dominam tudo e tudo é seu domínio..."
-"Céline (um dos modelos de Lobo Antunes) era um fulano intragável. Thomas Bernhard, o austríaco que escreveu "O Sobrinho de Wittgenstein era um energúmeno. Céline e Bernhard eram pessoas detestáveis; rancorosos, mesquinhos, intoleráveis..."
-"Victoria Becham confirmou que nunca leu nenhum livro. Nem um. Houve quem se escandalizasse com essa confisssão obscena. Não percebo porquê....."
-"Há um certo totalitarismo dos leitores face aos que não lêem que tem aspectos detestáveis. Os leitores tratam os outros como gentalha. E dizem sempre que quem não lê "não sabe o que perde".....Não há nenhuma razão para que os letrados se achem acima dos outros, e consideram o seu gosto como gosto universal...."
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| Pedro Mexia, nasceu em Lisboa em 1972 |
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016
IR AO CINEMA - II

Mais uma ida ao cinema; desta vez nem pipocas nem telemóveis, apenas dez espectadores (contando comigo) e um filme que se desenrola numa pequena cidade americana, na década de 1990, uma fita que me parecia ter todos os ingredientes para ser um bom filme mas que acabou por se revelar uma confusão e...uma chatice.
Veio-me à lembrança, como me acontece de vez em quando (principalmente se for o caso de não ter gostado do filme), nos tempos áureos da ida ao cinema, das ACTUALIDADES FRANCESAS quando, antes de começar o ansiado filme, uma voz forte e inconfundível, nos mostrava (a preto e branco) aqueles interessante comentários, por vezes electrizantes e que até nos traziam algum conhecimento; é que se ao menos ainda agora pudéssemos assistir a esses comentários não daríamos tudo como perdido, só que nos tempos que correm, antes do filme começar, levamos com publicidade consumista durante pelo menos uma dezena de infindáveis minutos e com o som tão alto, tão alto que dará certamente para ensurdecer qualquer ouvido humano (ou até animal).

domingo, 7 de fevereiro de 2016
LEITURAS 2016 - VI - "A HARPA DE ERVAS" - TRUMAN CAPOTE
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TRUMAN CAPOTE, que se descrevia a si próprio como um drogado, um alcoólico, um homossexual e um génio, faleceu em 1984, com 60 anos de idade e deixou-nos neste pequeno e excelente romance "A HARPA DE ERVAS" (uma edição do Círculo de Leitores, que comprei por 35 escudos em 29.10.1976), uma crónica de fundo sonhador, tudo aqui é irreal, tudo mergulha numa sonolência morna que o próprio ambiente desta pequena cidade do Sul dos EU favorece, através do calor que possuem as coisas, da população de hábitos antigos e gestos lentos, da sua gente de cor, do comércio provinciano e ambicioso, das suas ruas poeirentas, onde o asfalto queima durante o Verão.
Neste cenário quase irreal. movem-se, ou amam-se e odeiam-se, as personagens de um realismo que contrasta com o ambiente descrito. Envolve-as um clima de irresponsabilidade, e a força que muitas vezes usam é-lhes transmitida pelo próprio meio em que vivem. Assim, o cerne deste romance -a casa construída no cimo de uma árvore- é uma arma e um refúgio para Dolly, Catherine, Collin, três das várias e brilhantes personagens que neste livro me fizeram lembrar a escrita de Carson McCullers ou de Joyce Carol Oates.
Excelente este "A HARPA DE ERVAS" de TRUMAN CAPOTE.
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| Truman Streckfus Persons, mais conhecido como Truman Capote - Nova Orleães-USA-1924-1984 |
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
LEITURAS 2016 - V - "A VIAGEM VERTICAL" - ENRIQUE VILA-MATAS

Enrique Vila-Matas tem uma escrita diferente; neste livro que agora acabei de ler lá estão, como quase sempre nos seus livros, os fantasmas da velhice, da loucura, do abandono, da solidão, do medo de estar só.
Federico Mayol, um catalão com setenta e sete anos de idade, vê-se, um dia depois de celebrar as suas bodas de ouro, confrontado pela sua mulher, com estas palavras: Queria dizer-te o muito que me gostaria que te fosses embora, que te fosses embora desta casa para sempre e me deixasses só. Ele pensou que ela brincava, mas a sua mulher, que tanto medo tinha dele, não estava a brincar.
E assim inicia este catalão uma viagem sem regresso, uma odisseia que vai transformar um indivíduo que já não regressa a casa. Esta situação, seria, na vida real, certamente algo que transtornaria qualquer indivíduo que eventualmente pudesse sequer pensar que poderia vir a estar nas suas circunstâncias.
Federico Mayol inicia esta viagem vertical na cidade do Porto, passa por Lisboa e termina no Funchal...
Devo salientar que, embora não seja propriamente o caso deste livro, uma das capacidades que mais gosto nos livros de Enrique Vila-Matas, (daqueles que tenho lido) é a sua capacidade de elaborar tramas em que os personagens são os personagens autores dos seus livros preferidos; por exemplo no livro "Dr. Pasavento", um dos personagens principais é o escritor austríaco Roberto Walser que viveu mais de um quarto de século em clínicas psiquiátricas e que, no Natal de 1956, quando, numa das suas solitárias caminhadas pela cidade de Herisau (Suiça) sofreu um violento ataque cardíaco tendo o seu corpo vindo a ser descoberto quando algumas crianças que caminhavam pela neve tropeçaram num corpo congelado.
ENRIQUE VILA-MATAS será, na actualidade, um dos melhores autores espanhóis, a par de Javier Marias e de Javier Cercas.
"A VIAGEM VERTICAL" é um bom livro de um bom (e diferente) escritor (e jornalista) catalão.
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| Enrique Vila-Matas, nasceu em Barcelona em 1948 |
sábado, 30 de janeiro de 2016
IR AO CINEMA
Ir ao cinema era, em tempos não muito distantes, um acto festivo que merecia indumentária apropriada, vestiamo-nos para ir ao cinema como se fôssemos para uma festa, era um dia especial. Era até quase um acto social - ia-se para ver e ser visto.
Um hábito que se perdeu. Creio que o aparecimento dos centros comerciais e o fim das grandes salas de cinema para isso contribuíram decisivamente, criando novos hábitos.
As pipocas são agora uma praga, os telemóveis não param de reflectir não só a luz mas também o som -há (muitíssima) gente que é absolutamente incapaz de sobreviver sem telemóvel- e o gosto pelo cinema virá, talvez, por acréscimo...
Eu não perdi nem o gosto nem o hábito de ir ao cinema, talvez já não com expectativas de ir ver e ser visto mas o meu gosto pelo cinema permanece (sem pipocas e sem telemóvel). Neste mês de Janeiro vi dois excelentes filmes: "A RAPARIGA DINAMARQUESA", baseado no romance homónimo de David Ebershoff e inspirado na vida das pintoras dinamarquesas Lili Elbe e Gerda Wegener, com uma interpretração absolutamente avassaladora do personagem principal -Lili- (o actor Eddie Redmayne).
O outro bom filme que vi (no passado fim de semana) foi "O RENASCIDO", inspirado em factos verídicos, (baseado no romance de Michael Punk), com LEONARDO DICAPRIO a revelar-se um belíssimo actor e um seriíssimo candidato ao Óscar.
São dois filmes excelentes!

terça-feira, 26 de janeiro de 2016
LEITURAS 2016 - IV - "O IMPOSTOR" - JAVIER CERCAS
Esta é a história (verídica) de um mentiroso: Enric Marco. Um nonagenário barcelonês que se fez passar por sobrevivente dos campos nazis e que foi desmascarado em Maio de 2005, depois de presidir durante três anos à associação espanhola dos sobreviventes, de dar centenas de conferências e de receber importantes distinções.
Javier Cercas persegue nestas 470 páginas o enigma da personagem, a sua verdade e as suas falsidades.
Só que, quase quinhentas páginas pareceram-me excessivas, pois na primeira centena a história já estaria quase contada. Ainda cheguei à página 210, mas sentindo que a partir daí seria a repetição de uma história que já estava por demais dissecada, (e por mais que me custe não acabar um livro) fiquei por ali...
Percebe-se por isso que gostei mais do seu livro anterior (A leis da fronteira).
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| Javier Cercas - Espanha n. 1962 |
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
LEITURAS 2016 - III - "O GRANDE REBANHO" - JEAN GIONO

Este é um romance sobre a Primeira Guerra Mundial, (cujo centenário foi assinalado há dois anos) em que o autor, que participou no conflito, tenta denunciar os horrores e o absurdo da guerra.
Todavia, confesso, nunca consegui apanhar "o fio à meada", já que a alternância entre episódios passados na linha da frente e os que ocorrem nas zonas distantes do campo de batalha, sempre me pareceram episódios desgarrados, diálogos completamente sem nexo que nunca me conseguiram prender muito menos fazer entrar em algo que o autor pretenderia transmitir. É um livro para arrumar num canto, numa das prateleiras lá de detrás pois será um autor a que dificilmente voltarei.
Quando à página cinquenta e tal ainda não sabia bem o que se estava a desenrolar, em que as personagens e as cenas me apareciam completamente desgarradas tive, com grande pena minha, de desistir.
Para esquecer, às vezes acontece, e quando as expectativas são algumas (e as críticas boas) a desilusão é ainda maior.

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