segunda-feira, 20 de abril de 2015

LEITURAS 2015 - XI - "ESTRADA PARA LOS ANGELES"




Aos dezoito anos Arturo Bandini vive com a mãe e a irmã em San Pedro, perto de Los Angeles. Obrigado, pela morte do pai e pela grande crise de 1929, a trabalhar em empregos duros e mal pagos, tem nas revistas pornográficas o seu único alívio, um hábito muito censurado pela beatice da mãe e da irmã. As suas outras leituras consistem nos livros que procura na biblioteca, obras de grandes autores como Nietzsche e Schopenhauer, que Arturo mal compreende mas que gosta de se gabar de ter lido. É ateu e simpatizante do comunismo russo (o que gera o medo dos seus compatriotas). Em ESTRADA PARA LOS ANGELES deparamos com muitas situações que nos surgem ao longo da vida.

A saga de Arturo Bandini é composta por quatro romances: A PRIMAVERA HÁ-DE CHEGAR, BANDINI, publicado em 1938; ESTRADA PARA LOS ANGELES, publicado postumamente em 1985, embora tenha sido o primeiro a ser escrito e o segundo volume do quarto; PERGUNTA AO PÓ, publicado em 1939; e por fim SONHOS DE BUNKER HILE, ditado à mulher depois de o autor ter ficado cego em 1978, depois de em 1955 ter sido atingido pelos diabetes. Morreu em 1983, aos 74 anos.
John Fante  1909-1983

JOHN FANTE - poderei colocá-lo no patamar daqueles escritores transcendentes como Philip Roth, Saramago, Vergílio Ferreira. Uma escrita para ser lida com a máxima concentração. 

Alguém me disse (ou li algures) sobre John Fante que era um dos mais influentes escritores (esquecidos) da literatura norte-americana e olha que me parece bem acertado. 

Este é um bom livro, apesar de, repito, eu o considerar um livro nada fácil, que requer atenção, daqueles que nos obriga a pensar (o que mais gosto na literatura).

É um livro com uma história coleante, peganhosa, que se nos cola à pele e que deixa um rasto como o rasto de um caracol numa estrada de alcatrão. 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

LEITURAS 2015 - X - "A PAPOILA E O MONGE"




Este livro de JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA de centena e meia de poemas, composto por três versos curtos em cada página também ainda não me conseguiu "arrastar" para a poesia. 

"A PAPOILA E O MONGE" é o resultado de uma viagem que este poeta madeirense realizou ao Japão e resultou nesta forma de poesia de origem japonesa que se baseia maioritariamente nas relações entre o homem e a natureza. 

Efectivamente, apesar das minhas ocasionais tentativas, continuo a não ter qualquer proximidade com a poesia, nem mesmo com esta forma de poesia com versos tão curtos.

Tudo é efémero:
ontem escutava a tua voz
hoje só o vento

Recordo sempre as palavras de um amigo, mais velho do que eu, e que gostava muito de música clássica e de ópera e face à minha rejeição me dizia que, tal como ler, também da música e da ópera se aprende a gostar e talvez seja esse, porventura, também o caso da poesia. Porém...  



domingo, 12 de abril de 2015

LEITURAS 2015 - IX - FOTOBIOGRAFIA VERGÍLIO FERREIRA




Para além de retratar (no pleno sentido da palavra) a obra de Vergílio Ferreira, esta fotobiografia, muito bem organizada, delicia-nos com fotos de muita gente com quem o escritor conviveu, bem como retrata igualmente muito bem o seu âmbito familiar.

Contém uma autobiografia, também excelente, escrita naturalmente pelo próprio escritor em Maio de 1977.  

De lá retiro este excelente texto:

...e a minha biografia deve ter findado aqui. Lisboa é um sítio onde se está, não um lugar onde se vive. Mesmo que lá se viva há 18 anos, como eu.
Perguntam-me com frequência se eu não me sinto realizado. Respondo sempre que não. Porque eu sou maior do que eu e só me sentiria realizado se fosse do mesmo tamanho. 


quarta-feira, 8 de abril de 2015

CARTA DE DESPEDIDA DE GABRIEL GARCIA MARQUÉZ


Viajando pelo mundo virtual na procura de notícias e novidades literárias, descobri uma verdadeira pérola de literatura, que aqui me atrevo a reproduzir.

É uma carta escrita em jeito de despedida pelo grande escritor colombiano Gabriel Garcia Marquéz, pouco antes de morrer e numa altura em que se aproximava da demência senil. Revelada ao mundo pelo seu irmão Jaime Garcia Marquéz:  

"Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marioneta de trapo e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas, certamente pensaria tudo o que digo. Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam. Dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os demais parassem, acordaria quando os outros dormem. Escutaria quando os outros falassem e desfrutaria de um bom gelado de chocolate.

Se Deus me presenteasse com um pedaço de vida vestiria simplesmente, jogar-me-ia de bruços no solo, deixando descoberto não apenas meu corpo, como também a minha alma.

Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria o meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saísse. Pintaria como um sonho de Van Gogh sobre as estrelas um poema de Mário Benedetti e uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à Lua. Regaria as rosas com as minhas lágrimas para sentir a dor dos espinhos e o encarnado beijo das suas pétalas.    


1927 - 2014
Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida!...Não deixaria passar um só dia sem dizer às pessoas: amo-te, amo-te. Convenceria cada mulher e cada homem de que são os meus favoritos e viveria apaixonado pelo amor. 

 Aos homens, provar-lhes-ia como estão enganados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar.

A uma criança, daria asas, mas deixaria que aprendesse a voar sozinha.

Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento. 

Tantas coisas aprendi com vocês, os homens...Aprendi que todos querem viver no cimo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a rampa. Aprendi que quando um recém-nascido aperta, com sua pequena mão, pela primeira vez, o dedo do pai, tem-no prisioneiro para sempre. Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se.

São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas, a mim não poderão servir muito, porque quando me olharem dentro dessa maleta, infelizmente estarei a morrer."

sexta-feira, 3 de abril de 2015

LEITURAS 2015 - VIII - conta corrente 2 - VERGÍLIO FERREIRA



Continuo a reler "conta corrente", esta excelente narrativa sob a forma de diário (em nove volumes) do que foi a vida portuguesa entre 1969 e 1993. 

Acabei de reler "conta-corrente 2" que relata o período entre 1969 e 1976.

Mais um excelente diário que nos dá uma belíssima perspectiva da vida de um cidadão comum contada por um cidadão que é escritor e não é comum.

Sempre que leio um livro de Vergílio Ferreira estou munido de um lápis e de um caderno em que assento pensamentos seus absolutamente marcantes, alguns de excelente humor:


Vergílio Ferreira  1916-1996

-não fui eu que fiz os livros, senhores. Foi um tipo que mora comigo e com quem, aliás, não mantenho grandes relações.

-O problema da morte é para vivos, e um velho começa a sê-lo menos.

-Só se imagina o que está ausente.

-Um livro não pode simplesmente distrair-nos. É necessário um "saldo" final que nos comprometa com a vida. Que nos perturbe.

-O contrário da verdade, não é mentira, mas a razão.

-Os pequenos crescem. Um modo de nós diminuirmos.

-Se te dizem que estás novo, é porque estás mesmo velho.

-Uma homenagem é uma forma de nos inscreverem na necrologia.     

domingo, 29 de março de 2015

A TRAGÉDIA AÉREA DOS ALPES E O NEGÓCIO


Um avião Airbus A320 despenhou-se, tendo sido propositadamente atirado contra a montanha, nesta terça-feira (24.03.2015) no sul de França, com 150 pessoas a bordo, não havendo sobreviventes.

Segundo a imprensa, a caixa negra do avião revela que o comandante saiu do cockpit, ficando ali apenas o co-piloto, que se trancou e não abriu a porta, apesar do desespero do comandante na tentativa de entrar e evitar a tragédia causada deliberadamente pelo co-piloto.

Na sequência da tragédia e relativamente ao facto de apenas haver duas pessoas na cabine, ouvi na rádio o comandante Miguel Silveira, presidente da Associação de Pilotos de Linha Aérea, dar entender que estas companhias aéreas reduzem ao mínimo regulamentar as pessoas que deverão constituir a tripulação, sendo um facto que na mira de reduzir custos tudo se permite, aliás, referiu ainda que "se fosse por vontade deles (dos patrões), deixaria de haver mais de uma pessoa na cabine, se possível nenhuma, nem cabines haveria, nada de nada, o lucro é tudo o que interessa, os números, os números..." 




Dá que pensar. 
- o dinheiro,a ganância, o lucro está mesmo a "matar" os homens -

É o vale tudo na busca dos números, na insaciável procura do lucro, vale tudo mas, para determinada gente, cada vez menos vale a vida humana.


as lágrimas de crocodilo(s)

quarta-feira, 25 de março de 2015

BOM DIA NO ELEVADOR


Ontem entrei num elevador onde já estavam cinco pessoas, disse bom dia, e eis que, boquiabertos, estas olharam para mim como se ali tivesse entrado um marciano. Será que pareço mesmo um marciano?



Já não é a primeira que me acontece e dá que pensar...ou talvez não...



sexta-feira, 20 de março de 2015

LEITURAS 2015 - VII - EM NOME DA TERRA - VERGÍLIO FERREIRA




Já no fim da vida - a gente chega ao fim, que é quando já não tem embalagem para haver mais futuro, e então senta-se - João Vieira, viúvo e reformado, decide viver os últimos anos da vida num lar, já depois de, por motivos de saúde, lhe terem cortado a perna esquerda.

Ali, depois de ter doado todos os seus bens à sua filha Márcia, guardando para si apenas: a memória, um Cristo mutilado, um desenho de Durer e um disco de Mozart.

E ali na solidão e reclusão do lar vai mantendo um diálogo sem resposta, através de uma carta que decide escrever à sua mulher Mónica, já falecida, e que descreve como o seu amor eterno, rememorando toda uma vida que passaram juntos, falando dos três filhos do casal (Teo, Marta e André) que em comum têm um grande distanciamento do pai e talvez por isso fale deles de passagem.

É um livro duro que aborda igualmente, numa linguagem crua, toda uma série de questões reais como o envelhecimento e a degradação do corpo.  

É mesmo um livro triste, um livro que dói mas uma magnífica e pungente narrativa de um profundo amor.  

- o maior prazer de quem precisa é haver quem precise mais

-Querer esquecer é lembrar, o que não se lembra é apenas o que se esquece mas não se quer esquecer


Vergílio Ferreira 1916-1996 um grande escritor da língua portuguesa






sábado, 14 de março de 2015

OS CORVOS DE LISBOA



Andava eu na busca do "gato-pingado" ligado aos enterros na cidade de Lisboa no século passado, quando deparei com os corvos de Lisboa que vejo constantemente pelas esquinas e candeeiros da cidade e na bandeira do município e perguntei-me, porquê dois corvos?

Os dois corvos que aparecem no brasão de Lisboa estão ligados a São Vicente, mártir cristão do século IV e padroeiro dessa cidade. Por não querer abjurar (renunciar) da sua fé, os romanos o torturaram e atiraram o seu cadáver às aves de rapina. Segundo a lenda, um corvo defendeu os despojos. Os cristãos de Valência (Espanha) onde esta história se passa, receando que os árabes invasores da Península Ibérica, em meados do século VIII, profanassem o corpo do santo, resolveram trasladá-lo para o promontório Sacro, no Algarve. Ali construíram uma igreja e um convento, e o local passou a chamar-se Cabo de São Vicente. Dizia-se que os corvos que voavam sobre a igreja eram descendentes daquele primeiro corvo.  


Em 1173, o primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, mandou trazer o corpo para Lisboa; dois corvos acompanharam as sagradas relíquias desde o Algarve, postando-se um à popa e outro à proa da embarcação que as transportava. 

Da tradição dos corvos de São Vicente, ficou a chamar-se vicente ao corvo e, por extensão, a outros animais negros.


segunda-feira, 9 de março de 2015

LEITURAS 2015 - VI - Dai Sijie




"BALZAC E A COSTUREIRINHA CHINESA", de DAI SIJIE (o primeiro livro escrito por este chinês, nascido em 1954, residente em França que escreve em francês, e que foi um dos grandes êxitos da edição francesa em 1999), que deve ser muito difícil de encontrar à venda nos tempos que correm mas que merecia ser reeditado. Foi o sexto livro que li este ano. 

Conta os destinos de dois adolescentes chineses durante a Revolução Cultural (nos tempos de Mao) que são castigados pelas suas origens intelectuais (filhos de médicos e engenheiros) enviados para o interior da China para trabalharem no campo. Aí conhecem, porém, uma jovem costureirinha, a filha do alfaiate da aldeia, muito atraente mas quase analfabeta que resolvem ensinar a ler. E como? Graças à ajuda da surpreendente descoberta (ou, melhor dito, surripiada por eles numa casa semi-abandonada) de uma misteriosa mala recheada de grandes livros, de grandes escritores do património universal (além de Balzac, Tolstoi, Flaubert, Gogol, Melville, Romain Rolland e outros) todos traduzidos para chinês. 

E estes dois amigos transferidos para uma longínqua aldeia, lá para as bandas do Tibete, apaixonam-se pela costureirinha e hão-de disputá-la com o chamariz do poder mágico da literatura. Ignoram, porém, que, no momento em que ela se tornar igualmente ilustrada, decidirá pela sua própria cabeça...

É daqueles livros que estava destinado a morrer esquecido na prateleira e que, após alguns anos depois de ali repousar, resolvi trazê-lo à vida... e ressuscitou.

Numa classificação de 0 a 7 merece-me pelo menos 3,5



quarta-feira, 4 de março de 2015

LEITURAS 2015 - V - PAULO MOURA


"LONGE DO MAR" de PAULO MOURA 

Uma agradável surpresa este pequeno livrinho editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (comprado no pingo doce), que nos conta histórias bem portuguesas, histórias de lugares e de gente simples, de gente que vive e viveu na mais negra miséria e que passou as maiores fomes.

"LONGE DO MAR" é uma viagem pela Estrada Nacional 2 de Chaves a Faro pelo interior. Paulo Moura percorreu a mais longínqua estrada do país, contando histórias de lugares e pessoas.

-Que aconteceu aos contrabandistas de Viva Verde da Raia? 

-à menina que amou de mais, 

-ao play-boy de Tortosendo, e às elites desta terra (do tempo da outra senhora) que o escritor covilhanense Manuel da Silva Ramos descreveu no seu livro "Café Montalto"

-à louca de Trevim, 

-ao casal de ferreiros (de Faro) apaixonado por livros, 

-a Natália que dormiu na cela o assassino do marido, 

-ou Joaquina, que viveu sozinha com a filha, Iria, durante 20 anos, numa aldeia abandonada? 

Os seus destinos, não o da estrada, marcaram o rumo desta agradável e excitante viagem.

Às vezes descobrimos estas pequenas maravilhas. 


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

VICTOR HUGO - 1802-1884

VICTOR HUGO
SER BOM É FÁCIL. DIFÍCIL É SER JUSTO

Em 1802 neste mesmo dia 26 de Fevereiro nascia em Besançon-França, Victor Hugo um dos maiores escritores de todos os tempos.



Foram "OS MISERÁVEIS" que me meteram o vício da leitura. Foi com Victor Hugo que aprendi a gostar de ler.

Recordo as duas primeiras linhas iniciais de alguns dos seus livros que me encantaram:



HAN DE ISLÂNDIA- É a isto que nos conduz o amor, vizinho Niels; a pobre Guth Stersen decerto não estaria estirada naquela grande pedra negra, qual estrela do mar abandonada na praia pela maré, se.......





O ÚLTIMO DIA DE UM CONDENADO- Condenado à morte!
Há cinco semanas que vivo sozinho com este pensamento, gelado pela sua presença, curvado sob o seu peso!

Jean Valjean - personagem épica dos MISERÁVEIS
OS MISERÁVEIS- Em 1815, era bispo de Digne, o reverendo Carlos Francisco Bemvindo Myriel, o qual contava setenta e cinco anos de idade, e que desde 1806 ocupava aquela diocese.



O HOMEM QUE RI- Viviam Ursus e Homo ligados por estreita amizade. Ursus era um homem, e Homo era um lobo.



Esmeralda e Quasimodo, personagens de Nossa Senhora de Paris

NOSSA SENHORA DE PARIS- Completam-se hoje trezentos e quarenta e oito anos, seis meses e dezanove dias que os parisienses despertaram ao repique de muitos sinos badalando no tríplice recinto da Cidadela, da Universidade e da Cidade.


OS TRABALHADORES DO MAR- O Natal de 1822...foi notável em Guernesey. Caiu neve naquele dia. Nas ilhas da Mancha, inverno e que há neve é memorável; a neve é um acontecimento.

Funerais nacionais e enterro na cripta do Panteão




terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

OUTROS TEMPOS?



As pessoas deixaram de ver, deixaram de olhar, de admirar, de contemplar, de escutar, tudo caminha de olhos postos no telemóvel, entram no autocarro a dedilhar os teclados, não olhando sequer para o condutor nem para as pessoas que com elas viajam.



Cada pessoa, crianças, mães/pais, namorados, conectadas com um aparelho ligado, ouvindo música, jogando, olhando para o ecrã, todos ligados ao aparelho que transportam, mas não ouvindo nada, não escutando nada, não vendo nada, não olhando nada, não "cheirando" nada...  



Impressiona-me que as pessoas não admirem a paisagem, não olhem para o que as rodeia, não observem o mundo, não sintam os cheiros no ar, não contemplem o belo que é a vida. 

Não olham para ninguém, não vêem ninguém e no entanto estão quase sempre "ligados" a alguém que não conhecem, alguém que nunca viram e que provavelmente nunca irão ver mas "despindo-se" para todos e para todo o mundo de corpo...e alma...

Não observam os pássaros, não ouvem o seu canto, não vêem nem sentem as árvores, não vêem, não sentem nem olham as pessoas, não observam os sítios por onde passam, não observam o mundo, ninguém olha, ninguém conversa, ninguém vê, caminham como autómatos...porém, sem rumo....




sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

LEITURAS 2015 - IV - ANTÓNIO MEGA FERREIRA





Há muitos anos que conheço (de vista) António Mega Ferreira e leio sempre com interesse as crónicas que encontro publicadas nas revistas ou nos jornais que vou lendo e sempre me pareceu  uma pessoa de bom gosto (excepto nas preferências clubísticas) e homem de grande cultura.

Por isso "UMA CALIGRAFIA DE PRAZERES", que não é o primeiro livro que li de ANTÓNIO MEGA FERREIRA, vem, de algum modo, confirmar o que acima refiro.

"UMA CALIGRAFIA DE PRAZERES" aborda diversos temas como por exemplo:

-as tapeçarias de Boussac que estão expostas numa sala semicircular do antigo mosteiro de Cluny, em Saint-Michel, onde hoje constituem a "jóia da coroa" do Museu da Idade Média.

-o que é uma habanera? dizem os dicionários de música que se trata de um tipo de "canção cubana e forma de dança do século XIX, cujo nome deriva da capital do país, Havana.


-do escritor cubano Guillermo Cabrera Infante, que ergueu, como nenhum outro, a voz para chorar a saudade da sua cidade natal, em que no seu livro "O Livro das Cidades" não falando de Havana mas é sobre outras cidades (a Londres pop, a Veneza eterna, a Nova Iorque cosmopolita) que este livro ecoa a saudade de um exílio...


-do sorriso de Mona Lisa (mulher de Francisco el Giacondo, daí a Giaconda como é conhecida esta tela desde que foi para França na bagagem de Francisco I) e que há cinco séculos assombra o museu imaginário da cultura ocidental...

-da cidade de Praga mágica
-do esplendor de Ruben A. e do seu excelente romance "A Torre de Barbela"
-da memória de gelados saboreados na infância, na Veneziana dos Restauradores 
-de gravatas e da sua colecção de mais de 200 peças 
-dos fogos de S. João 
-de restaurantes (bons e, certamente, caros) 
-do génio de Vivaldi 
-do nosso bife à Trindade e outros...
-de charutos 
-de chocolate

Enfim, um livro que, como se refere na contracapa do mesmo, não é, longe disso, um manual de sobrevivência, mas é, no entanto, um livro onde se fala de coisas que, ao longo da vida, se foram revelando essenciais para o autor.  

Lê-se com agrado e curiosidade, leitura simples e...aprende-se!


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

OS TEMPOS QUE PASSAM



AYN RAND - Não sendo propriamente um admirador (nem conhecedor) desta escritora, dramaturga e filósofa norte-americana de origem judaico-russa, nascida (em 1905) e educada na Rússia mas emigrada nos Estados Unidos desde 1926 onde viveu até à data da sua morte em Nova Iorque, em 1982, não resisto a relembrar este seu pensamento que se aplica perfeitamente aos tempos que vivemos e que me foi dado a conhecer pelo meu amigo portuense Fernando Vieira: 

-Quando te deres conta de que para produzir necessitas obter a autorização de quem nada produz, quando te deres conta de que o dinheiro flui para o bolso daqueles que traficam não com bens, mas com favores, quando te deres conta de que muitos na tua sociedade enriquecem graças ao suborno e influências, e não ao seu trabalho, e que as leis do teu país não te protegem a ti, mas protegem-nos a eles contra ti, quando, por fim, descobrires ainda que a corrupção é recompensada e a honradez se converte num auto-sacrifício, poderás afirmar, taxativamente, sem medo de te equivocares, que a tua sociedade está condenada-.    


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

LEITURAS 2015 - III - PAUL AUSTER




Gosto muito dos livros deste grande escritor norte americano, de 68 anos.

Dos livros que dele já li, dos que estão publicados em Portugal, "O livro das Ilusões" foi aquele de que mais gostei até hoje. 

Este que agora acabo de ler "AS LOUCURAS DE BROOKLYN" é mais uma excelente história e como sempre com personagens inesquecíveis, onde as relações humanas estão sempre tão bem descritas que um livro de Paul Auster é sempre uma delícia, linguagem simples, fácil, transparente e tudo tão real que parece que aquilo está mesmo a acontecer em frente aos nossos olhos.



Neste romance, Nathan é o narrador e o personagem principal quase a fazer sessenta anos, divorciado, vendedor de seguros reformado e a recuperar de um cancro nos pulmões.

Regressa a Brooklyn para tentar encontrar uma maneira de começar a viver de novo e fugir à rotina. 

O reencontro com o seu sobrinho Tom que, depois de vários contratempos, acaba a vender livros usados numa livraria que há-de ser a sua salvação pois será, de alguma forma, ela que irá mudar toda a sua vida. 

É mais um excelente livro de Paul Auster, autor que não pára de me surpreender pois cada livro que leio dele é sempre uma agradável surpresa e uma companhia que me envolve totalmente. 


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

LEITURAS 2015 - II - OSCAR WILDE




"O LIVRO DAS TENTAÇÕES" -  do excelente escritor irlandês OSCAR WILDE, foi o segundo livro que li este ano.

Oscar Wilde, que nasceu em 1854 na Irlanda, filho de um reputado médico e uma mãe escritora, teve uma vida atribulada, devido principalmente à sua homossexualidade que, inclusive, o levou à prisão durante dois anos quando se apaixonou por Lorde Alfred Douglas. O drama e a tragédia marcaram a vida de Oscar Wilde.

Casou-se com Constance Lloyd em 1884 e tiveram dois filhos.

Após a sua prisão isolou-se em Paris, onde morreu em 1900, de meningite.

"O retrato de Dorian Gray" será certamente o seu melhor livro, pelo menos o mais aclamado. 

Este "O LIVRO DAS TENTAÇÕES" não será propriamente um livro de Oscar Wilde é, na minha opinião, apenas um livro que contém excertos de frases, citações retiradas de algumas obras do autor, nomeadamente de: O retrato de Dorian Gray; Uma mulher sem importância; A decadência da mentira; O fantasma de Canterville; Salomé...


-os idosos acreditam em tudo; os de meia idade suspeitam de tudo; os jovens sabem tudo

-as mulheres são para ser amadas, não para ser compreendidas

-que pena que na vida só tenhamos as lições quando já não nos servem para nada 

-só existe uma coisa pior do que falarem de nós: é não falarem

-os jovens querem ser fiéis e não são; os velhos querem ser infiéis e não podem