terça-feira, 22 de março de 2016

LEITURAS 2016 - XII - "AMOR QUE MATA" - ROSA MONTERO


Desde que li "A louca da Casa", da espanhola Rosa Montero fiquei sempre atento aos seus livros e "Instruções para salvar o mundo" e "História do Rei Transparente" foram mais dois excelentes livros que contribuíram para que continuasse a ser um seu leitor. 

Acabei agora de ler "AMOR QUE MATA" e confesso que este, ao contrário do que antes acontecera, soube-me a pouco e acho que não irá acrescentar muito à sua obra literária.

"AMOR QUE MATA" fala de um outro lado da vida de quatro dos tiranos mais conhecidos: a intimidade partilhada com as mulheres das suas vidas. Esposas, amantes, filhas, sobrinhas, todas elas desempenharam um papel significativo na vida destes ditadores; algumas delas foram determinantes no decurso de certos acontecimentos históricos. 

-ESTALINE-que era violento e cruel com as mulheres, levando-as ao desespero, mas ponderava o suicídio quando elas morriam.

-MUSSOLINI-um machista cruel que dizia que as mulheres eram como as massas, ambas feitas para serem violadas.

-HITLER-que nunca quis assumir qualquer relação, consciente de que a sua "disponibilidade" seria um factor decisivo junto do eleitorado feminino.

-FRANCO-que ordenou as mais bárbaras execuções mas, na intimidade, era altamente influenciado pela mulher, D. Carmen, extremamente mandona, extremamente religiosa (uma ferrenha beata) e uma autêntica avarenta que não olhava a meios para aumentar o seu património, (a sua avidez levou-a, por exemplo, a fundir as medalhas, bandejas e placas que Franco fora recebendo, convertendo-as em lingotes de prata ou de ouro).   

"AMOR QUE MATA" não deixa contudo de se revelar um documento curioso que nos ajuda a conhecer um outro lado destes cruéis ditadores.   


Rosa Montero, Madrid 1951
  

quinta-feira, 17 de março de 2016

LEITURAS 2016 - XI - "HISTÓRIAS DE VER E ANDAR" - TEOLINDA GERSÃO

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A escrita de TEOLINDA GERSÃO é simples, fácil, acessível, directa. Qualquer um dos seus livros que já li nenhum me desiludiu, todos li com muito agrado; recomendo especialmente o  romance "PASSAGENS".


"HISTÓRIAS DE VER E ANDAR" é um bom livro de contos, quase todos de apenas duas ou três páginas, mas excelentes.

Como se refere na contracapa do livro, no fim de cada um dos contos descobriremos que a vida, a nossa própria vida, não estava exactamente no lugar que pensávamos.

Gostei de todos os contos, gostei especialmente de "As cartas deitadas" em que se retrata exactamente os tempos em que os filhos dos empregados usavam a roupa que os meninos já tinham deixado de usar, que brincam com os filhos dos patrões quando eles querem brincar (são eles que têem os brinquedos).

São catorze contos onde são descritas situações que certamente muitos de nós poderão ter passado.




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sábado, 12 de março de 2016

LEITURAS 2016 - X - "BUTCHER'S CROSSING" - JOHN WILLIAMS


John Williams, Professor Universitário, autor e editor escreveu apenas quatro romances (deixou um quinto inacabado). Que eu saiba apenas dois foram publicados em Portugal, este "BUTCHER'S CROSSING" (escrito em 1960) e "STONER" (em 1965) que ainda não li mas que, pelo que tenho ouvido e do que já tive oportunidade de espreitar, deverá ser excelente.

"BUTCHER'S CROSSING" é uma excelente história: em 1870 Will Andrews, que se fartou de Harvard (onde frequentava a Universidade), ansioso por aventura, chega a Butcher's Crossing uma pequena localidade no duro Oeste, onde vai conhecer figuras curiosas, gente dura e que se confunde com a paisagem.Ali encontra o seu mentor: Miller, um caçador de poucas falas, que conhece o refúgio da última grande manada de búfalos. Seduzido pela promessa de aventura, o protagonista junta-se à expedição. Serão quatro homens em marcha, por terra bravia, numa luta épica contra o tempo, a sede e os elementos.

É um grande romance que, tal como "STONER", passou despercebido durante mais de cinquenta anos. É um grande romance de um grande escritor. 

Excelente!

Nota: a páginas tantas (não tomei nota do nº. de página) leio estavam enxendo os copos, em vez de enchendo os copos; não queria acreditar mas é verdade como é que uma editora lança um livro com um erro destes, é que eu atrevo-me a pensar que poderá não ser uma gralha mas que eventualmente até poderá tratar-se mesmo de um erro de quem não sabe. Por vezes já começo a duvidar de mim próprio nesta questão do português, tantos pontapés na língua que ouço e, pasme-se, agora até os leio num livro à venda ao público!  


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John Williams-EUA - Clarksville - Texas - 1922-1994
   


terça-feira, 8 de março de 2016

LEITURAS 2016 - IX - "O PEQUENO LIVRO DO GRANDE TERRAMOTO" - RUI TAVARES


O Terramoto de 1755 foi, seguramente, a maior catástrofe natural que algum dia se abateu sobre Portugal e é considerado como o maior dos sismos de que há notícia histórica. 

Com epicentro localizado a cerca de cento e cinquenta quilómetros a sudoeste do Cabo de S, Vicente, os seus efeitos destrutivos, sentidos fortemente em Lisboa, estenderam-se ao Algarve, sul de Espanha e a uma vasta área de Marrocos (onde foi sentido à mesma hora e com igual rigor). Por acção conjunta do tremor de terra e do tsunami que se lhe seguiu Lisboa, Setúbal e muitas outras povoações foram largamente destruídas tendo morrido milhares de Portugueses. Embora sem causar danos, também foi sentido por quase toda a Europa, nos Açores e na Madeira.

"O PEQUENO LIVRO DO GRANDE TERRAMOTO", um ensaio sobre 1755, propõe uma abordagem inovadora da história e acompanha-nos numa travessia a que é difícil resistir e ficamos a conhecer factos curiosos sobre esta calamidade; 

-o sismo deu-se às nove e meia da manhã do dia 1 de Novembro de 1755.
-o tsunami terá ocorrido entre uma e duas horas depois
-os incêndios que terão começado logo durante o abalo só se tornaram notórios a partir do meio-dia e duraram vários dias
-o terramoto durou mais de sete minutos, com duas curtas paragens
-a onda gigante chegou à capital do reino e tinha seis metros de altura   



Neste ensaio sobre o terramoto de 1755 fiquei a saber quem eram algumas das figuras que só conhecia por nome de rua, como por exemplo, entre outras, o engenheiro militar MANUEL DA MAIA que ficou como sua obra principal a construção do Aqueduto das Águaas Livres e que no próprio dia do sismo passou-o, tentando salvar, com sucesso os documentos do arquivo da Torre do Tombo (de que foi guarda-mor).

É um ensaio interessante sobre esta grande calamidade. Devo no entanto confessar que cheguei a temer pela continuação da leitura do livro já que as primeiras trinta páginas, em que era abordada uma relação entre o terramoto de 1755, o 11 de Setembro de 2001, o tsunami de 2004 e os incêndios de Roma em 64 d.c., não me conseguiram prender e achei-as (estas primeiras trinta e tal páginas) desinteressantes no contexto do que pretendia o leitor ( o meu caso) -saber mais sobre o Terramoto de 1755, o que, no entanto, foi, quanto a mim, conseguido.

Rui Tavares nasceu em Lisboa em 1972

sexta-feira, 4 de março de 2016

UMBERTO ECO E OS LIVROS

Itália  1932-2016

Não li mais de três/quatro livros de UMBERTO ECO, o escritor, filósofo, semiólogo, linguísta, bibliófilo e sábio italiano, que faleceu há pouco mais de quinze dias (dia 19 de Fevereiro 2016), com 83 anos.

Dos livros que já li deste grande escritor italiano tenho extraído e anotado algumas considerações, que vou relendo de vez em quando; eis duas delas:

-"Tenho cinco mil livros e há sempre o imbecil do costume que entra (em minha casa) e diz: quantos livros tem? leu-os todos?
E o que é  que eu respondo? nenhum, de modo porque os guardaria aqui? o senhor porventura costuma guardar as latas de conserva depois de as esvaziar? os cinquenta mil que já li ofereci-os a prisões e hospitais. E o imbecil estremece...
(do livro "A MISTERIOSA CHAMA DA RAINHA LOANA"



-"Os perdedores, como os autodidatas, têm sempre conhecimentos mais vastos do que os vencedores; se queres vencer, tens de saber uma coisa só e não perder tempo a sabê-las todas, o prazer da erudição está reservado aos perdedores"
(do livro "NÚMERO ZERO")







domingo, 28 de fevereiro de 2016

LEITURAS 2016 - VIII - "ERNESTINA" - J. RENTES DE CARVALHO


Os Holandeses sempre foram um povo que me despertou alguma atenção e curiosidade e terá sido certamente esse o motivo que, na altura (já lá vão uns anos), me empurrou para a leitura do livro "COM OS HOLANDESES" através do qual descobri um grande escritor português, que era para mim, até à altura, um completo desconhecido. 

Depois de ter lido aquele excelente livro é sempre com alguma expectativa que começo a ler outro do autor.  "ERNESTINA" foi o que acabei agora de ler, e mais uma vez não me desiludiu; é como que uma viagem à nossa infância, aos primeiros tempos da nossa vida, tempos que à medida que os anos vão passando mais vamos recordando com saudade, e talvez até com alguma amargura, sentindo os cheiros, vendo a escola, os amigos, as ruas, as pessoas, os largos, os muros, as árvores, enfim, toda aquela nuvem que nos invade quando ("sonhando") recuamos no tempo.  

ERNESTINA é mais do que um romance autobiográfico ou um volume de memórias de família ficcionadas. É um retrato de Trás-os-Montes, dos anos 1930 aos anos 1950, um romance que transcende o relato regionalista e que transpôs fronteiras, transformando-se num fenómeno editorial na Holanda (J.Rentes de Carvalho vive há quase ou mais de meio século na Holanda, actualmente entre cá e lá). 

Ernestina é também o nome da mãe do autor e da intrépida protagonista deste livro. Sobre ela J. Rentes de Carvalho disse (como a maioria de nós poderíamos também dizer das nossas mães): "Mãe de um só filho, a sua vida, que foi de uma tristeza, amargura e terrível solidão, dava um livro. Escrevi-lho eu. E a sua morte quebra o último elo carnal que me ligava à terra onde nasci. Felizmente são ainda muito fortes os laços que a ela me prendem".

Gostei


José Rentes de Carvalho - Vila Nova de Gaia 1930

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

ROSTO CONHECIDO, OBRA DESCONHECIDA


No post anterior falei da situação curiosa em que me cruzei em Lisboa, na Estação do Rossio, com o pintor da noite, o misterioso Arnaldo Ferreira, quando este levava na mão (ao alto) o busto com o rosto de um português notável e perguntava (cara a cara) aos transeuntes, num tom que amedrontava, se sabiam quem era a personagem...

Era o Alexandre Herculano, um escritor que, penso eu, a sua figura e imagem será muito mais conhecida do que a sua obra. 

Pois desde essa altura que fiquei com a imagem (e o semblante pesado) deste notável português, bem presente. Contudo, confesso que até hoje nunca ousei ler um livro dele pois, ao relembrar o seu semblante sério, fiquei, não sei porquê, com a sensação de que será um escritor de leitura pesada e difícil.

"Estamos pobres, somos ignorantes, vivemos na corrupção e no aviltamento"-escreve Alexandre Herculano, em 1851, em editorial no jornal "O País".

Participa na redacção do 1º. Código Civil Português (1860-1865), propondo o casamento civil como alternativa ao casamento religioso, o que provoca acessa polémica com o Clero.

Poeta, romancista, historiador, bibliotecário, ensaísta e polemista, Herculano é, sem dúvida, a par de Garrett, a grande figura fundadora do Romantismo em Portugal, e uma grande figura nacional.

Alexandre Herculano  -   1810 - 1877


domingo, 21 de fevereiro de 2016

MEMÓRIAS LONGÍNQUAS DA BAIXA DE LISBOA

Arnaldo de Benavente Ferreira, o pintor da noite (1923-2000)
Foi há muitos anos, trabalhava eu na Baixa de Lisboa, na zona do Rossio, teria talvez uns quinze anos e lembro-me de ver, como se fosse hoje, nas suas deambulações diárias, sempre em passo apressado, rumo à Brasileira do Chiado, parando na Pastelaria Bénard e na Livraria Bertrand e aproveitando para alcunhar de calões todos com quem se cruzava, um homem alto, bem vestido, (vi-o algumas vezes de fraque) e flor branca na lapela. 

Num certo dia, em que, em vez do habitual bouquet de flores que costumava levar consigo, vejo-o, junto à Estação do Rossio, com um busto em madeira do poeta, romancista e historiador Alexandre Herculano, a dirigir-se às pessoas que por ali passavam e colocava-lhes o busto à frente da cara perguntando-lhes em voz alta mas nem sempre bem audível: -não sabes quem é pois não? ignorantes, canalhas, claro que não sabem nada, mas se fosse o Eusébio sabiam de certeza absoluta, cambada de ignorantes; e assim, clamando impropérios, seguia em passo apressado. Conservo perfeitamente na memória a imagem daquele homem alto, falando tão alto e tão ameaçadoramente que por vezes chegava a assustar quem, calma e distraidamente, seguia no seu caminho.    




Nunca mais esqueci aquele personagem gigante, embora não tivesse certamente mais de 1,75. Era o Arnaldo, sempre impecavelmente vestido de negro, sapatos de verniz reluzentes, cabelo bem penteado para trás com brilhantina e a quem chamavam o pintor da noite, ou o sempre noivo. Dizia-se que teria enlouquecido quando a sua noiva morreu uns dias antes do casamento (também corria a história de que a noiva não teria aparecido no dia da boda). 
As suas deambulações pela baixa de Lisboa fazia-as durante o dia já que à noite ficava sempre em casa a pintar - pintava na sua maioria os bairros e as zonas mais características da Lisboa nocturna, sem vivalma.

Sei que o Museu da Cidade tem quadros seus e que, em 2005, foi homenageado pela Câmara Municipal de Lisboa com a Medalha de Mérito Municipal.
Na alta de Lisboa existe uma rua com o seu nome. 

A última vez que o vi foi num eléctrico, quando este "amarelo" ainda circulava na Baixa de Lisboa.





terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

LEITURAS 2016 - VII - "PRIMEIRA PESSOA" - PEDRO MEXIA


Não o conheço pessoalmente mas gosto de Pedro Mexia, especialmente do que escreve, sejam livros, sejam crónicas em jornais ou revistas, e este "PRIMEIRA PESSOA", que reúne as crónicas publicadas na (creio que extinta) revista Grande Reportagem entre Novembro de 2003 e Dezembro de 2005, foi outro dos seus livros de que gostei. Pedro Mexia parece-me um dos jornalistas mais honestos intelectualmente que conheço e estas crónicas, que assumem, muitas delas, confissões íntimas, parecem comprovar isso mesmo.

Gosto especialmente das suas observações sobre livros e sobre escritores:  

-"Os livros são possessivos e ciumentos. Detestam vida social, namoradas, vizinhos, detestam cães, gatos. Os livros querem o seu reino absoluto sobre os metros quadrados todos disponíveis e mais alguns que se inventem. Os livros vão ficando em monte, em pilha, em coluna, vão sendo propriedade vertical, dominam tudo e tudo é seu domínio...

-"Céline (um dos modelos de Lobo Antunes) era um fulano intragável. Thomas Bernhard, o austríaco que escreveu "O Sobrinho de Wittgenstein era um energúmeno. Céline e Bernhard eram pessoas detestáveis; rancorosos, mesquinhos, intoleráveis..."

-"Victoria Becham confirmou que nunca leu nenhum livro. Nem um. Houve quem se escandalizasse com essa confisssão obscena. Não percebo porquê....."

-"Há um certo totalitarismo dos leitores face aos que não lêem que tem aspectos detestáveis. Os leitores tratam os outros como gentalha. E dizem sempre que quem não lê "não sabe o que perde".....Não há nenhuma razão para que os letrados se achem acima dos outros, e consideram o seu gosto como gosto universal...."  


Pedro Mexia, nasceu em Lisboa em 1972

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

IR AO CINEMA - II



Mais uma ida ao cinema; desta vez nem pipocas nem telemóveis, apenas dez espectadores (contando comigo) e um filme que se desenrola numa pequena cidade americana, na década de 1990, uma fita que me parecia ter todos os ingredientes para ser um bom filme mas que acabou por se revelar uma confusão e...uma chatice.

Veio-me à lembrança, como me acontece de vez em quando (principalmente se for o caso de não ter gostado do filme), nos tempos áureos da ida ao cinema, das ACTUALIDADES FRANCESAS quando, antes de começar o ansiado filme, uma voz forte e inconfundível, nos mostrava (a preto e branco) aqueles interessante comentários, por vezes electrizantes e que até nos traziam algum conhecimento; é que se ao menos ainda agora pudéssemos assistir a esses comentários não daríamos tudo como perdido, só que nos tempos que correm, antes do filme começar, levamos com publicidade consumista durante pelo menos uma dezena de infindáveis minutos e com o som tão alto, tão alto que dará certamente para ensurdecer qualquer ouvido humano (ou até animal).






domingo, 7 de fevereiro de 2016

LEITURAS 2016 - VI - "A HARPA DE ERVAS" - TRUMAN CAPOTE


Não sei se por influência do seu nome se da sua imagem sempre associei TRUMAN CAPOTE à Mafia, claro que injustamente (e sem qualquer ponta de verdade).

TRUMAN CAPOTE, que se descrevia a si próprio como um drogado, um alcoólico, um homossexual e um génio, faleceu em 1984, com 60 anos de idade e deixou-nos neste pequeno e excelente romance "A HARPA DE ERVAS" (uma edição do Círculo de Leitores, que comprei por 35 escudos em 29.10.1976), uma crónica de fundo sonhador, tudo aqui é irreal, tudo mergulha numa sonolência morna que o próprio ambiente desta pequena cidade do Sul dos EU favorece, através do calor que possuem as coisas, da população de hábitos antigos e gestos lentos, da sua gente de cor, do comércio provinciano e ambicioso, das suas ruas poeirentas, onde o asfalto queima durante o Verão.

Neste cenário quase irreal. movem-se, ou amam-se e odeiam-se, as personagens de um realismo que contrasta com o ambiente descrito. Envolve-as um clima de irresponsabilidade, e a força que muitas vezes usam é-lhes transmitida pelo próprio meio em que vivem. Assim, o cerne deste romance -a casa construída no cimo de uma árvore- é uma arma e um refúgio para Dolly, Catherine, Collin, três das várias e brilhantes personagens que neste livro me fizeram lembrar a escrita de Carson McCullers ou de Joyce Carol Oates.

Excelente este "A HARPA DE ERVAS" de TRUMAN CAPOTE.  


Truman Streckfus Persons, mais conhecido como Truman Capote - Nova Orleães-USA-1924-1984


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

LEITURAS 2016 - V - "A VIAGEM VERTICAL" - ENRIQUE VILA-MATAS


Enrique Vila-Matas tem uma escrita diferente; neste livro que agora acabei de ler lá estão, como quase sempre nos seus livros, os fantasmas da velhice, da loucura, do abandono, da solidão, do medo de estar só. 

Federico Mayol, um catalão com setenta e sete anos de idade, vê-se, um dia depois de celebrar as suas bodas de ouro, confrontado pela sua mulher, com estas palavras: Queria dizer-te o muito que me gostaria que te fosses embora, que te fosses embora desta casa para sempre e me deixasses só. Ele pensou que ela brincava, mas a sua mulher, que tanto medo tinha dele, não estava a brincar.
E assim inicia este catalão uma viagem sem regresso, uma odisseia que vai transformar um indivíduo que já não regressa a casa. Esta situação, seria, na vida real, certamente algo que transtornaria qualquer indivíduo que eventualmente pudesse sequer pensar que poderia vir a estar nas suas circunstâncias. 
Federico Mayol inicia esta viagem vertical na cidade do Porto, passa por Lisboa e termina no Funchal...

Devo salientar que, embora não seja propriamente o caso deste livro, uma das capacidades que mais gosto nos livros de Enrique Vila-Matas, (daqueles que tenho lido) é a sua capacidade de elaborar tramas em que os personagens são os personagens autores dos seus livros preferidos; por exemplo no livro "Dr. Pasavento", um dos personagens principais é o escritor austríaco Roberto Walser que viveu mais de um quarto de século em clínicas psiquiátricas e que, no Natal de 1956, quando, numa das suas solitárias caminhadas pela cidade de Herisau (Suiça) sofreu um violento ataque cardíaco tendo o seu corpo vindo a ser descoberto quando algumas crianças que caminhavam pela neve tropeçaram num corpo congelado.  

ENRIQUE VILA-MATAS será, na actualidade, um dos melhores autores espanhóis, a par de Javier Marias e de Javier Cercas.

"A VIAGEM VERTICAL" é um bom livro de um bom (e diferente) escritor (e jornalista) catalão.


Enrique Vila-Matas, nasceu em Barcelona em 1948

sábado, 30 de janeiro de 2016

IR AO CINEMA


Ir ao cinema era, em tempos não muito distantes, um acto festivo que merecia indumentária apropriada, vestiamo-nos para ir ao cinema como se fôssemos para uma festa, era um dia especial. Era até quase um acto social - ia-se para ver e ser visto.

Um hábito que se perdeu. Creio que o aparecimento dos centros comerciais e o fim das grandes salas de cinema para isso contribuíram decisivamente, criando novos hábitos.

As pipocas são agora uma praga, os telemóveis não param de reflectir não só a luz mas também o som -há (muitíssima) gente que é absolutamente incapaz de sobreviver sem telemóvel- e o gosto pelo cinema virá, talvez, por acréscimo...

Eu não perdi nem o gosto nem o hábito de ir ao cinema, talvez já não com expectativas de ir ver e ser visto mas o meu gosto pelo cinema permanece (sem pipocas e sem telemóvel). Neste mês de Janeiro vi dois excelentes filmes: "A RAPARIGA DINAMARQUESA", baseado no romance homónimo de David Ebershoff e inspirado na vida das pintoras dinamarquesas Lili Elbe e Gerda Wegener, com uma interpretração absolutamente avassaladora do personagem principal -Lili- (o actor Eddie Redmayne).

O outro bom filme que vi (no passado fim de semana) foi "O RENASCIDO", inspirado em factos verídicos, (baseado no romance de Michael Punk), com LEONARDO DICAPRIO a revelar-se um belíssimo actor e um seriíssimo candidato ao Óscar.

São dois filmes excelentes!




terça-feira, 26 de janeiro de 2016

LEITURAS 2016 - IV - "O IMPOSTOR" - JAVIER CERCAS

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Esta é a história (verídica) de um mentiroso: Enric Marco. Um nonagenário barcelonês que se fez passar por sobrevivente dos campos nazis e que foi desmascarado em Maio de 2005, depois de presidir durante três anos à associação espanhola dos sobreviventes, de dar centenas de conferências e de receber importantes distinções.

Javier Cercas persegue nestas 470 páginas o enigma da personagem, a sua verdade e as suas falsidades.

Só que, quase quinhentas páginas pareceram-me excessivas, pois na primeira centena a história já estaria quase contada. Ainda cheguei à página 210, mas sentindo que a partir daí seria a repetição de uma história que já estava por demais dissecada, (e por mais que me custe não acabar um livro) fiquei por ali...

Percebe-se por isso que gostei mais do seu livro anterior (A leis da fronteira).


Javier Cercas    -    Espanha  n. 1962

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

LEITURAS 2016 - III - "O GRANDE REBANHO" - JEAN GIONO


Este é um romance sobre a Primeira Guerra Mundial, (cujo centenário foi assinalado há dois anos) em que o autor, que participou no conflito, tenta denunciar os horrores e o absurdo da guerra.

Todavia, confesso, nunca consegui apanhar "o fio à meada", já que a alternância entre episódios passados na linha da frente e os que ocorrem nas zonas distantes do campo de batalha, sempre me pareceram episódios desgarrados, diálogos completamente sem nexo que nunca me conseguiram prender muito menos fazer entrar em algo que o autor pretenderia transmitir. É um livro para arrumar num canto, numa das prateleiras lá de detrás pois será um autor a que dificilmente voltarei. 

Quando à página cinquenta e tal ainda não sabia bem o que se estava a desenrolar, em que as personagens e as cenas me apareciam completamente desgarradas tive, com grande pena minha, de desistir. 

Para esquecer, às vezes acontece, e quando as expectativas são algumas (e as críticas boas) a desilusão é ainda maior.  

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

LEITURAS 2016 - II - "HISTÓRIA(s) DO ESTADO NOVO - AS PALAVRAS - OS FACTOS-" - MARCELO TEIXEIRA


Uma surpresa recheada de factos curiosos este livro de 350 páginas, escrito por Marcelo Teixeira, licenciado em história.

"HISTÓRIA(S) DO ESTADO NOVO - AS PALAVRAS - OS FACTOS-"-É um bom livro que retrata muito bem o que foi o Estado Novo.

Passa em revista os principais acontecimentos nacionais ocorridos de 1933 a 1974.

Aborda, entre muitos outros, temas como a "neutralidade" portuguesa na Segunda Guerra ou a adesão do nosso país ao "Plano Marshall", a viagem de avião de Salazar ou o assalto ao Banco de Portugal, a Primavera marcelista ou a Guerra Colonial, o desvio do navio Santa Maria, ou o exílio do Bispo do Porto e muitos muitos outros e curiosos (e pouco conhecidos) factos ocorridos entre aquelas datas (1933-1974).

Num estilo e numa linguagem muito simples, acessível e apetecível permite revisitar um período único da História Contemporânea de Portugal.



Tal como já referi é numa linguagem simples que são abordados os factos mais salientes ocorridos neste período, não só a nível nacional mas também internacional:

- 1935 - No continente americano termina a Guerra do Chaco, deixando um rasto de 90 mil mortos e tendo a Bolívia perdido para o Paraguai parte do território. Nos Estados Unidos a Lei Wagner oficializa o direito sindical.

-1936 - o Hino da Mocidade Portuguesa é escrito pelo poeta alentejano Mário Beirão (curioso)

-1940 - EXPOSIÇÃO DO MUNDO PORTUGUÊS em Lisboa- Uma das visitas ilustres foi o autor de "O PRINCIPEZINHO" Antoine de Saint-Exupéry, que tece os maiores elogios a esta exposição. 

E muitos, muitos outros curiosos factos que fiquei a conhecer, alguns que me fizeram abrir a boca de espanto.

  

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

LEITURAS 2016 - I - "CONTRA BERNARDO SOARES E OUTRAS OBSERVAÇÕES" - VASCO GRAÇA MOURA



Comprei-o por € 1, num alfarrabista de rua, e foi o primeiro livro que li neste novo ano de 2016 -era o que tinha mais à mão, e como leio tudo o que mexe...-.

A erudição deste homem da cultura é impressionante, o fôlego e a clareza dos seus textos contados neste livro de crónicas, editado em 1999, resultado de uma colaboração do autor na imprensa, talvez se aproxime mais de um diário do que de outros géneros.

Vasco Graça Moura foi realmente um vulto enorme da cultura portuguesa do século XX.

Algumas das pequenas crónicas (duas páginas no máximo) aqui contadas são portadoras de uma erudição que não estão ao alcance do leitor comum, mas não deixam de ser interessantes, transmitindo ao leitor pelo menos mais saber e conhecimento, que é isso que fundamentalmente (mas não só)  se espera dos livros. 

Poeta e tradutor de grandes poetas, romancista, dramaturgo,
cronista, antologiador, historiador honoris causa, advogado,
político, gestor cultural e várias outras actividades...

domingo, 10 de janeiro de 2016

LIVROS 2015 - BALANÇO DE LEITURAS



Fazendo um balanço dos livros que li (55) em 2015, devo confessar que não foram muitos aqueles que irei reter na memória como grandes livros. 
A minha ordem de preferência rege-se por esta escala, que elaborei deste modo:

0 - li, mas não me merece mais do que zero, porque não entendi
1 - desisti (quando, ao fim de ter lido dez/vinte páginas, ainda não entrei na história, ainda não compreendi do que se trata, claro que desisto, embora me custe muito desistir de um livro)
2 - li, mas não me cativou (e dificilmente voltarei a este livro e muito menos a este autor-há tanta coisa para ler...)
3 - razoável (costumo dar-lhe uma segunda oportunidade, não ao livro mas talvez ao autor)
3,5 - interessante (gostei e será mais um autor a que irei estar atento)
4 - bom (gostei muito, pelo que vou tentar estar atento às obras do autor) 
5 - muito bom (fico sempre com a vontade de o voltar a ler -o livro-)
6 - excelente (um autor que passará a ser o primeiro nas minhas preferências embora por vezes essas expectativas saiam goradas) 
7 - obra prima (só muito raramente costumo ter a sorte de o encontrar)



  1 - "Sempre o diabo" - Donald Ray Pollock - 6
  2 - "O coração é um caçador solitário" - Carson McCullers - 5
  3 - "A confraria do vinho" - John Fante - 5
  4 - "Não matem a cotovia" - Harper Lee - 5
  5 - "A balada do café triste" - Carson McCullers - 5
  6 - "Billy Bud" - Herman Melville - 4
  7 - "As loucuras de Brooklyn" - Paul Auster - 4
  8 - "Pergunta ao pó" - John Fante - 4
  9 - "Em nome da terra" - Vergílio Ferreira - 4
10 - "O pregador" - Erskine Caldwell - 4
11 - "conta corrente 1" - Vergílio Ferreira - 4
12 - "As leis da fronteira" - Javier Cercas - 4 
13 - "conta corrente 2" - Vergílio Ferreira - 4
14 - "Bibliotecas cheias de fantasmas" - Jacques Bonnet - 4
15 - "Breviário das más inclinações" - José Riço Direitinho - 4
16 - "conta corrente 4" - Vergílio Ferreira - 4
17 - "O barão de Lavos" - Abel Botelho - 4
18 - "conta corrente 5" - Vergílio Ferreira - 4   
19 - "Longe do mar" - Paulo Moura - 4
20 - "Nós, os afogados" - Carsten Jensen - 4
21 - "A peregrinação do rapaz sem cor" - Haruki Murakami" - 4
22 - "Fotobiografia de Vergílio Ferreira" - Helder Godinho/Serafim Ferreira - 4
23 - "Pó, Cinza e Recordações" - J. Rentes de Carvalho - 4
24 - "conta corrente nova série II" - Vergílio Ferreira - 4 
25 - "Balzac e a costureirinha chinesa" - Dai Sijie - 3,5
26 - "Estrada para Los Angeles" - John Fante - 3,5
27 - "12 anos escravo" - Solomon Northup - 3,5
28 - "Os fragmentos" - Ferreira de Castro - 3,5
29 - "conta-corrente 3" - Vergílio Ferreira - 3,5      
30 - "Bartleby & Companhia" - Enrique Vila-Matas - 3,5
31 - "O relógio do cárcere" - José Riço Direitinho - 3,5
32 - "Paternidade" - Domingos Monteiro - 3,5
33 - "conta corrente - nova série I" - Vergílio Ferreira - 3,5
34 - "O naufrágio do Titanic" - Joseph Conrad - 3,5
35 - "Mulheres da Beira" - Abel Botelho - 3,5
36 - "Deste mundo e do outro" - José Saramago - 3,5
37 - "O amante bilingue" - Juan Marsé - 3,5
38 - "Terra do pecado" - José Saramago - 3,5
39 - "Da cidade nervosa" - Enrique Vila-Matos - 3,5
40 - "Não se encontra o que se procura" - Miguel de Sousa Tavares - 3,5
41 - "Correr" - Jean Echenoz - 3,5
42 - "Diário I e II" - Miguel Torga - 3,5
43 - "Uma caligrafia de prazeres" - António Mega Ferreira - 3
44 - "Caminhada" - Henry David Thoreau - 3
45 - "A manhã do mundo" - Pedro Guilherme Moreira - 3
46 - "Só se morre uma vez" - Rita Ferro - 3
47 - "Recordando a Guerra Espanhola" - George Orwell - 3
48 - "Doze contos peregrinos" - Gabriel Garcia Marquez - 3
49 - "A ilha de Caribou" - David Vann - 3
50 - "conta corrente nova série III" - Vergílio Ferreira - 3
51 - "O livro das tentações" - Oscar Wilde - 2
52 - "Mazagran" - J. Rentes de Carvalho - 2
53 - "O tempo envelhece depressa" - António Tabuchi - 2
54 - "Elogio do silêncio" - Marc de Smedt - 2
55 - "A papoila e o monge" - José Tolentino Mendonça - 0


Não sendo uma obra prima, "SEMPRE O DIABO" de Donald Ray Pollock foi o livro de que mais gostei em 2015. Bastaram cinco ou seis páginas para "sentir" que estava perante um grande livro na linha dos escritores americanos que mais gosto, como Flannery O'Connor e Joyce Carol Oates, só para falar destes dois já que o tema abordado é semelhante.



quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

LEITURAS 2015 - LV (55) - "DIÁRIO - Vol. I e II" - MIGUEL TORGA


Que me lembre ainda só tinha lido dois livros de Miguel Torga ("O Senhor Ventura" e "Os Bichos").

Este "Diário Vols. I e II" foi o último livro que li em 2015.

Miguel Torga era o pseudónimo literário do médico Adolfo Correia da Rocha, natural da aldeia de São Martinho da Anta, concelho de Sabrosa, em Trás-os-Montes. O nome resulta da homenagem a dois grandes vultos da cultura ibérica (Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno); torga é uma urze  que sobrevive entre as fragas das montanhas.

Com os seus diários (volumes I e II) retomei agora a leitura deste grande escritor português.

O Diário I diz respeito ao período de 1932-1941, e o Diário II referente a 1941-1943. Gosto destes diários em que os autores não abordam unicamente o que se passa no seu dia a dia mas que nos vão também falando das várias situações da vida com que se vão deparando, situações inesperadas que lhes surgem diariamente. 

Miguel Torga, tal como o faz Vergílio Ferreira, relata-nos muito bem essas várias situações, as tristes, as absurdas, enfim, as suas opiniões, sábias e curiosissimas e sempre reveladoras de grande sapiência que constituem um grande ensinamento.  

Curiosas as suas abordagens a alguns livros e a alguns escritores, por exemplo: - "Uma vida" de Guy de Maupassant -um assombro, a cena do velório. Mas este Maupassant era mau aluno. Ouviu as lições de Flaubert, ouviu, e ficou-se na sua -génio- E com ele escreveu os seus eternos contos, a rir-se dos romances de Zola, de Balzac, e até do próprio mestre, excluindo Madame Bovary, claro está

Miguel Torga, depois de frequentar o Seminário no Porto, abala para o Brasil em 1920, aos treze anos. Sua puberdade decorre em Minas Gerais, numa fazenda -a Fazenda de Santa Cruz- onde um irmão do pai lhe ministra alguns conhecimentos e a esposa deste o humilha, movida pela desconfiança de vir Miguel Torga a ser o herdeiro do tio, em prejuízo dos filhos do primeiro matrimónio dela. Atrás das vacas, guardando os porcos da fazenda, acarretando água, fazendo recados, pode-se dizer que tem uma sorte madrasta. Um dia o tio descobre que sua mulher maltrata Miguel Torga e para o afastar dela manda-o estudar. Estamos em 1924. No ano seguinte, Miguel Torga volta para Portugal; o tio, como pagamento de cinco anos de serviço, pagar-lhe-à o curso superior em Coimbra. 
Poeta e prosador, foi várias vezes candidato ao Prémio Nobel da Literatura, apresentando a sua obra um forte carácter humanista 


Miguel Torga  1907-1995



domingo, 3 de janeiro de 2016

A LOCOMOTIVA HUMANA - LEITURAS 2015 - LIV (54) - "CORRER" - JEAN ECHENOZ


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Neste excelente livro (baseado em factos reais), Jean Echenoz dá-nos a conhecer a vida excepcional do maior atleta checo, consagrado como um dos maiores fundistas de sempre -EMIL ZATOPEK, que era reconhecido facilmente por ter um estilo de corrida pouco ortodoxo, e que cometeu um feito único na história do atletismo olímpico, ao ganhar numa única olímpiada (Helsínquia 1952) os 5.000 metros, os 10 mil metros e a maratona, conhecido como a locomotiva humana e reconhecido como herói nacional.




Zatopek era na verdade inconfundível: desengonçado (os seus braços permanentemente dobrados, faziam lembrar as asas de um assador de castanhas). Não escondia uma impressionante máscara de esforço (as suas caretas eram curiosas para não dizer assustadoras). Só descobriu o atletismo quando tinha 18 anos ao participar acidentalmente numa prova de crosse. A partir desse dia, o checo submeteu o corpo a um trabalho físico anormalmente duro e intenso e durante os treinos utilizava botas da tropa em vez de sapatos apropriados.

É um livro comovente e emocionante que percorre quarenta anos de história descrevendo os  maiores sucessos deste grande atleta, tal como as difíceis relações com o poder vigente e as perseguições políticas que praticamente ditaram o fim da sua carreira. 


depois do sensacional triunfo na maratona, Emil recebeu da esposa Dana, o beijo da consagração

À data dos Jogos Olímpicos de Helsínquia, em 1952, estava casado com Dana Ingrova que, na mesma olimpíada, venceu a prova de lançamento do dardo.
Emil Zatopek morreu em Praga aos 78 anos, em 20.11.2000. 
Sempre foi uma pessoa sorridente, aberta e tranquila. Exemplo de atleta e de vida. 

o autor do livro, Jean Echenoz, Orange-France-1948 
    

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

LEITURAS 2015 - LIII (53) - "NÃO SE ENCONTRA O QUE SE PROCURA" - MIGUEL SOUSA TAVARES


Sempre vi na pessoa de Miguel Sousa Tavares, um homem coerente, de carácter e verticalidade; contudo, ultimamente já o "apanhei" nalgumas contradições, nomeadamente naquelas em que os seus interesses poderão estar em jogo, que me levam a pensar que afinal as tais qualidades que eu retinha poderão assim deixar muito a desejar...

É de MIGUEL SOUSA TAVARES o livro que acabei de ler (penso que seja o último que escreveu) "NÃO SE ENCONTRA O QUE SE PROCURA". 

É um livro biográfico, uma mistura de textos muito diferentes, num registo diário em que há de tudo pois nele se fala de viagens, de escritores (Stevenson, Hemingway, E.T.Lawrence, Hugo Pratt (Corto Maltese)), de situações que, no a dia que, a todos nós se nos deparam. 

Aqui explana as suas paixões (o prazer de fumar, o F.C.Porto, a caça, os passeios todo o terreno, os locais onde gosta de se refugiar, seja no Brasil, seja  no Alentejo, em suma, a boa vida -quem não gosta?-).




Não deixa também de abordar os seus ódios de estimação (a nouvelle cuisine -essa moda realmente grotesca-, o Facebook e demais redes sociais, as revistas cor-de-rosa, os não fumadores, ou melhor o fundamentalismo dos não fumadores, só não fala do seu anti-sportinguismo fundamentalista que semanalmente passa ao papel (quase destilando ódio) no jornal A Bola, às terças-feiras).

O registo diarístico, acompanha as estações do ano e não deixam de ser interessantes as suas reflexões pessoais sobre o dia a dia.

De MST apenas não li "Rio das Flores" e "Madrugada Suja" e este livro (mediano) parece querer confirmar (me) que MST será afinal escritor de um livro só-EQUADOR-, já que os restantes são realmente medianos, exceptuando talvez o "SUL" que é um bom livro de viagens. 
Mas é um grande jornalista