terça-feira, 26 de janeiro de 2016

LEITURAS 2016 - IV - "O IMPOSTOR" - JAVIER CERCAS

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Esta é a história (verídica) de um mentiroso: Enric Marco. Um nonagenário barcelonês que se fez passar por sobrevivente dos campos nazis e que foi desmascarado em Maio de 2005, depois de presidir durante três anos à associação espanhola dos sobreviventes, de dar centenas de conferências e de receber importantes distinções.

Javier Cercas persegue nestas 470 páginas o enigma da personagem, a sua verdade e as suas falsidades.

Só que, quase quinhentas páginas pareceram-me excessivas, pois na primeira centena a história já estaria quase contada. Ainda cheguei à página 210, mas sentindo que a partir daí seria a repetição de uma história que já estava por demais dissecada, (e por mais que me custe não acabar um livro) fiquei por ali...

Percebe-se por isso que gostei mais do seu livro anterior (A leis da fronteira).


Javier Cercas    -    Espanha  n. 1962

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

LEITURAS 2016 - III - "O GRANDE REBANHO" - JEAN GIONO


Este é um romance sobre a Primeira Guerra Mundial, (cujo centenário foi assinalado há dois anos) em que o autor, que participou no conflito, tenta denunciar os horrores e o absurdo da guerra.

Todavia, confesso, nunca consegui apanhar "o fio à meada", já que a alternância entre episódios passados na linha da frente e os que ocorrem nas zonas distantes do campo de batalha, sempre me pareceram episódios desgarrados, diálogos completamente sem nexo que nunca me conseguiram prender muito menos fazer entrar em algo que o autor pretenderia transmitir. É um livro para arrumar num canto, numa das prateleiras lá de detrás pois será um autor a que dificilmente voltarei. 

Quando à página cinquenta e tal ainda não sabia bem o que se estava a desenrolar, em que as personagens e as cenas me apareciam completamente desgarradas tive, com grande pena minha, de desistir. 

Para esquecer, às vezes acontece, e quando as expectativas são algumas (e as críticas boas) a desilusão é ainda maior.  

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

LEITURAS 2016 - II - "HISTÓRIA(s) DO ESTADO NOVO - AS PALAVRAS - OS FACTOS-" - MARCELO TEIXEIRA


Uma surpresa recheada de factos curiosos este livro de 350 páginas, escrito por Marcelo Teixeira, licenciado em história.

"HISTÓRIA(S) DO ESTADO NOVO - AS PALAVRAS - OS FACTOS-"-É um bom livro que retrata muito bem o que foi o Estado Novo.

Passa em revista os principais acontecimentos nacionais ocorridos de 1933 a 1974.

Aborda, entre muitos outros, temas como a "neutralidade" portuguesa na Segunda Guerra ou a adesão do nosso país ao "Plano Marshall", a viagem de avião de Salazar ou o assalto ao Banco de Portugal, a Primavera marcelista ou a Guerra Colonial, o desvio do navio Santa Maria, ou o exílio do Bispo do Porto e muitos muitos outros e curiosos (e pouco conhecidos) factos ocorridos entre aquelas datas (1933-1974).

Num estilo e numa linguagem muito simples, acessível e apetecível permite revisitar um período único da História Contemporânea de Portugal.



Tal como já referi é numa linguagem simples que são abordados os factos mais salientes ocorridos neste período, não só a nível nacional mas também internacional:

- 1935 - No continente americano termina a Guerra do Chaco, deixando um rasto de 90 mil mortos e tendo a Bolívia perdido para o Paraguai parte do território. Nos Estados Unidos a Lei Wagner oficializa o direito sindical.

-1936 - o Hino da Mocidade Portuguesa é escrito pelo poeta alentejano Mário Beirão (curioso)

-1940 - EXPOSIÇÃO DO MUNDO PORTUGUÊS em Lisboa- Uma das visitas ilustres foi o autor de "O PRINCIPEZINHO" Antoine de Saint-Exupéry, que tece os maiores elogios a esta exposição. 

E muitos, muitos outros curiosos factos que fiquei a conhecer, alguns que me fizeram abrir a boca de espanto.

  

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

LEITURAS 2016 - I - "CONTRA BERNARDO SOARES E OUTRAS OBSERVAÇÕES" - VASCO GRAÇA MOURA



Comprei-o por € 1, num alfarrabista de rua, e foi o primeiro livro que li neste novo ano de 2016 -era o que tinha mais à mão, e como leio tudo o que mexe...-.

A erudição deste homem da cultura é impressionante, o fôlego e a clareza dos seus textos contados neste livro de crónicas, editado em 1999, resultado de uma colaboração do autor na imprensa, talvez se aproxime mais de um diário do que de outros géneros.

Vasco Graça Moura foi realmente um vulto enorme da cultura portuguesa do século XX.

Algumas das pequenas crónicas (duas páginas no máximo) aqui contadas são portadoras de uma erudição que não estão ao alcance do leitor comum, mas não deixam de ser interessantes, transmitindo ao leitor pelo menos mais saber e conhecimento, que é isso que fundamentalmente (mas não só)  se espera dos livros. 

Poeta e tradutor de grandes poetas, romancista, dramaturgo,
cronista, antologiador, historiador honoris causa, advogado,
político, gestor cultural e várias outras actividades...

domingo, 10 de janeiro de 2016

LIVROS 2015 - BALANÇO DE LEITURAS



Fazendo um balanço dos livros que li (55) em 2015, devo confessar que não foram muitos aqueles que irei reter na memória como grandes livros. 
A minha ordem de preferência rege-se por esta escala, que elaborei deste modo:

0 - li, mas não me merece mais do que zero, porque não entendi
1 - desisti (quando, ao fim de ter lido dez/vinte páginas, ainda não entrei na história, ainda não compreendi do que se trata, claro que desisto, embora me custe muito desistir de um livro)
2 - li, mas não me cativou (e dificilmente voltarei a este livro e muito menos a este autor-há tanta coisa para ler...)
3 - razoável (costumo dar-lhe uma segunda oportunidade, não ao livro mas talvez ao autor)
3,5 - interessante (gostei e será mais um autor a que irei estar atento)
4 - bom (gostei muito, pelo que vou tentar estar atento às obras do autor) 
5 - muito bom (fico sempre com a vontade de o voltar a ler -o livro-)
6 - excelente (um autor que passará a ser o primeiro nas minhas preferências embora por vezes essas expectativas saiam goradas) 
7 - obra prima (só muito raramente costumo ter a sorte de o encontrar)



  1 - "Sempre o diabo" - Donald Ray Pollock - 6
  2 - "O coração é um caçador solitário" - Carson McCullers - 5
  3 - "A confraria do vinho" - John Fante - 5
  4 - "Não matem a cotovia" - Harper Lee - 5
  5 - "A balada do café triste" - Carson McCullers - 5
  6 - "Billy Bud" - Herman Melville - 4
  7 - "As loucuras de Brooklyn" - Paul Auster - 4
  8 - "Pergunta ao pó" - John Fante - 4
  9 - "Em nome da terra" - Vergílio Ferreira - 4
10 - "O pregador" - Erskine Caldwell - 4
11 - "conta corrente 1" - Vergílio Ferreira - 4
12 - "As leis da fronteira" - Javier Cercas - 4 
13 - "conta corrente 2" - Vergílio Ferreira - 4
14 - "Bibliotecas cheias de fantasmas" - Jacques Bonnet - 4
15 - "Breviário das más inclinações" - José Riço Direitinho - 4
16 - "conta corrente 4" - Vergílio Ferreira - 4
17 - "O barão de Lavos" - Abel Botelho - 4
18 - "conta corrente 5" - Vergílio Ferreira - 4   
19 - "Longe do mar" - Paulo Moura - 4
20 - "Nós, os afogados" - Carsten Jensen - 4
21 - "A peregrinação do rapaz sem cor" - Haruki Murakami" - 4
22 - "Fotobiografia de Vergílio Ferreira" - Helder Godinho/Serafim Ferreira - 4
23 - "Pó, Cinza e Recordações" - J. Rentes de Carvalho - 4
24 - "conta corrente nova série II" - Vergílio Ferreira - 4 
25 - "Balzac e a costureirinha chinesa" - Dai Sijie - 3,5
26 - "Estrada para Los Angeles" - John Fante - 3,5
27 - "12 anos escravo" - Solomon Northup - 3,5
28 - "Os fragmentos" - Ferreira de Castro - 3,5
29 - "conta-corrente 3" - Vergílio Ferreira - 3,5      
30 - "Bartleby & Companhia" - Enrique Vila-Matas - 3,5
31 - "O relógio do cárcere" - José Riço Direitinho - 3,5
32 - "Paternidade" - Domingos Monteiro - 3,5
33 - "conta corrente - nova série I" - Vergílio Ferreira - 3,5
34 - "O naufrágio do Titanic" - Joseph Conrad - 3,5
35 - "Mulheres da Beira" - Abel Botelho - 3,5
36 - "Deste mundo e do outro" - José Saramago - 3,5
37 - "O amante bilingue" - Juan Marsé - 3,5
38 - "Terra do pecado" - José Saramago - 3,5
39 - "Da cidade nervosa" - Enrique Vila-Matos - 3,5
40 - "Não se encontra o que se procura" - Miguel de Sousa Tavares - 3,5
41 - "Correr" - Jean Echenoz - 3,5
42 - "Diário I e II" - Miguel Torga - 3,5
43 - "Uma caligrafia de prazeres" - António Mega Ferreira - 3
44 - "Caminhada" - Henry David Thoreau - 3
45 - "A manhã do mundo" - Pedro Guilherme Moreira - 3
46 - "Só se morre uma vez" - Rita Ferro - 3
47 - "Recordando a Guerra Espanhola" - George Orwell - 3
48 - "Doze contos peregrinos" - Gabriel Garcia Marquez - 3
49 - "A ilha de Caribou" - David Vann - 3
50 - "conta corrente nova série III" - Vergílio Ferreira - 3
51 - "O livro das tentações" - Oscar Wilde - 2
52 - "Mazagran" - J. Rentes de Carvalho - 2
53 - "O tempo envelhece depressa" - António Tabuchi - 2
54 - "Elogio do silêncio" - Marc de Smedt - 2
55 - "A papoila e o monge" - José Tolentino Mendonça - 0


Não sendo uma obra prima, "SEMPRE O DIABO" de Donald Ray Pollock foi o livro de que mais gostei em 2015. Bastaram cinco ou seis páginas para "sentir" que estava perante um grande livro na linha dos escritores americanos que mais gosto, como Flannery O'Connor e Joyce Carol Oates, só para falar destes dois já que o tema abordado é semelhante.



quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

LEITURAS 2015 - LV (55) - "DIÁRIO - Vol. I e II" - MIGUEL TORGA


Que me lembre ainda só tinha lido dois livros de Miguel Torga ("O Senhor Ventura" e "Os Bichos").

Este "Diário Vols. I e II" foi o último livro que li em 2015.

Miguel Torga era o pseudónimo literário do médico Adolfo Correia da Rocha, natural da aldeia de São Martinho da Anta, concelho de Sabrosa, em Trás-os-Montes. O nome resulta da homenagem a dois grandes vultos da cultura ibérica (Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno); torga é uma urze  que sobrevive entre as fragas das montanhas.

Com os seus diários (volumes I e II) retomei agora a leitura deste grande escritor português.

O Diário I diz respeito ao período de 1932-1941, e o Diário II referente a 1941-1943. Gosto destes diários em que os autores não abordam unicamente o que se passa no seu dia a dia mas que nos vão também falando das várias situações da vida com que se vão deparando, situações inesperadas que lhes surgem diariamente. 

Miguel Torga, tal como o faz Vergílio Ferreira, relata-nos muito bem essas várias situações, as tristes, as absurdas, enfim, as suas opiniões, sábias e curiosissimas e sempre reveladoras de grande sapiência que constituem um grande ensinamento.  

Curiosas as suas abordagens a alguns livros e a alguns escritores, por exemplo: - "Uma vida" de Guy de Maupassant -um assombro, a cena do velório. Mas este Maupassant era mau aluno. Ouviu as lições de Flaubert, ouviu, e ficou-se na sua -génio- E com ele escreveu os seus eternos contos, a rir-se dos romances de Zola, de Balzac, e até do próprio mestre, excluindo Madame Bovary, claro está

Miguel Torga, depois de frequentar o Seminário no Porto, abala para o Brasil em 1920, aos treze anos. Sua puberdade decorre em Minas Gerais, numa fazenda -a Fazenda de Santa Cruz- onde um irmão do pai lhe ministra alguns conhecimentos e a esposa deste o humilha, movida pela desconfiança de vir Miguel Torga a ser o herdeiro do tio, em prejuízo dos filhos do primeiro matrimónio dela. Atrás das vacas, guardando os porcos da fazenda, acarretando água, fazendo recados, pode-se dizer que tem uma sorte madrasta. Um dia o tio descobre que sua mulher maltrata Miguel Torga e para o afastar dela manda-o estudar. Estamos em 1924. No ano seguinte, Miguel Torga volta para Portugal; o tio, como pagamento de cinco anos de serviço, pagar-lhe-à o curso superior em Coimbra. 
Poeta e prosador, foi várias vezes candidato ao Prémio Nobel da Literatura, apresentando a sua obra um forte carácter humanista 


Miguel Torga  1907-1995



domingo, 3 de janeiro de 2016

A LOCOMOTIVA HUMANA - LEITURAS 2015 - LIV (54) - "CORRER" - JEAN ECHENOZ


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Neste excelente livro (baseado em factos reais), Jean Echenoz dá-nos a conhecer a vida excepcional do maior atleta checo, consagrado como um dos maiores fundistas de sempre -EMIL ZATOPEK, que era reconhecido facilmente por ter um estilo de corrida pouco ortodoxo, e que cometeu um feito único na história do atletismo olímpico, ao ganhar numa única olímpiada (Helsínquia 1952) os 5.000 metros, os 10 mil metros e a maratona, conhecido como a locomotiva humana e reconhecido como herói nacional.




Zatopek era na verdade inconfundível: desengonçado (os seus braços permanentemente dobrados, faziam lembrar as asas de um assador de castanhas). Não escondia uma impressionante máscara de esforço (as suas caretas eram curiosas para não dizer assustadoras). Só descobriu o atletismo quando tinha 18 anos ao participar acidentalmente numa prova de crosse. A partir desse dia, o checo submeteu o corpo a um trabalho físico anormalmente duro e intenso e durante os treinos utilizava botas da tropa em vez de sapatos apropriados.

É um livro comovente e emocionante que percorre quarenta anos de história descrevendo os  maiores sucessos deste grande atleta, tal como as difíceis relações com o poder vigente e as perseguições políticas que praticamente ditaram o fim da sua carreira. 


depois do sensacional triunfo na maratona, Emil recebeu da esposa Dana, o beijo da consagração

À data dos Jogos Olímpicos de Helsínquia, em 1952, estava casado com Dana Ingrova que, na mesma olimpíada, venceu a prova de lançamento do dardo.
Emil Zatopek morreu em Praga aos 78 anos, em 20.11.2000. 
Sempre foi uma pessoa sorridente, aberta e tranquila. Exemplo de atleta e de vida. 

o autor do livro, Jean Echenoz, Orange-France-1948 
    

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

LEITURAS 2015 - LIII (53) - "NÃO SE ENCONTRA O QUE SE PROCURA" - MIGUEL SOUSA TAVARES


Sempre vi na pessoa de Miguel Sousa Tavares, um homem coerente, de carácter e verticalidade; contudo, ultimamente já o "apanhei" nalgumas contradições, nomeadamente naquelas em que os seus interesses poderão estar em jogo, que me levam a pensar que afinal as tais qualidades que eu retinha poderão assim deixar muito a desejar...

É de MIGUEL SOUSA TAVARES o livro que acabei de ler (penso que seja o último que escreveu) "NÃO SE ENCONTRA O QUE SE PROCURA". 

É um livro biográfico, uma mistura de textos muito diferentes, num registo diário em que há de tudo pois nele se fala de viagens, de escritores (Stevenson, Hemingway, E.T.Lawrence, Hugo Pratt (Corto Maltese)), de situações que, no a dia que, a todos nós se nos deparam. 

Aqui explana as suas paixões (o prazer de fumar, o F.C.Porto, a caça, os passeios todo o terreno, os locais onde gosta de se refugiar, seja no Brasil, seja  no Alentejo, em suma, a boa vida -quem não gosta?-).




Não deixa também de abordar os seus ódios de estimação (a nouvelle cuisine -essa moda realmente grotesca-, o Facebook e demais redes sociais, as revistas cor-de-rosa, os não fumadores, ou melhor o fundamentalismo dos não fumadores, só não fala do seu anti-sportinguismo fundamentalista que semanalmente passa ao papel (quase destilando ódio) no jornal A Bola, às terças-feiras).

O registo diarístico, acompanha as estações do ano e não deixam de ser interessantes as suas reflexões pessoais sobre o dia a dia.

De MST apenas não li "Rio das Flores" e "Madrugada Suja" e este livro (mediano) parece querer confirmar (me) que MST será afinal escritor de um livro só-EQUADOR-, já que os restantes são realmente medianos, exceptuando talvez o "SUL" que é um bom livro de viagens. 
Mas é um grande jornalista

domingo, 27 de dezembro de 2015

LEITURAS 2015 - LII (52) - "CONTA CORRENTE - nova versão III" - VERGÍLIO FERREIRA


Vergílio Ferreira apenas considerava como diários verdadeiramente publicáveis os primeiros cinco volumes do conta-corrente, estes (da nova série) eram os restos esquentados, como ele dizia.

E efectivamente os volumes desta nova série (já li os dois anteriores) não me têem agradado do mesmo modo, nem chegam aos calcanhares dos primeiros cinco, parecem realmente os restos esquentados de uma comida muito saborosa.   

E este III, referente ao ano de 1991, foi o que menos me agradou. Mas penso completar brevemente a leitura de todos os volumes deste registo diarístico. Falta-me apenas ler o volume IV desta nova versão, referente ao ano de 1992. 

Vergílio Ferreira morreu em 1996 com 80 anos.    

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

LEITURAS 2015 - LI (51) - "ELOGIO DO SILÊNCIO" - MARC DE SMEDT


O silêncio pode ser uma mais valia em muitas situações, mas existem outros momentos em que o silêncio se pode revelar verdadeiramente negativo.

"ELOGIO DO SILÊNCIO" fala-nos dos estudos do silêncio, da linguagem dos olhos, da linguagem dos pássaros, dos momentos em que os silêncios são de ouro.

Não sou um grande leitor deste tipo de livros que se poderão inserir nos livros o tipo de auto-ajuda, contudo são livros que nos trazem sempre alguns ensinamentos, como afinal nos trazem todos os livros.     
Neste, por exemplo, encontrei alguns provérbios que, sobre o silêncio, se referem nos vários países:

-França - "o silêncio é de ouro"
-Alemanha - "cala-te ou diz qualquer coisa melhor que o silêncio"
-Israel - saber calar-se é mais difícil que falar bem"
-Itália - "aquele que nada sabe, sabe o suficiente se souber manter-se em silêncio"
-Roménia - "o silêncio também é uma resposta"
-Espanha- "perceber ver e calar-se, senão a vida torna-se amarga"
-Dinamarca - "aquele que quer economizar deve começar pela sua boca"
-Turquia - "a boca do sábio está no seu coração, o coração do tolo está na sua boca"
-China - "existe aquele que falou toda a sua vida e nada disse, e aquele que não chegou a abrir a boca e apesar disso nunca ficou sem nada dizer"
-Japão - "as palavras que jamais foram pronunciadas são as flos do silêncio" 


MARC DE SMEDT- editor, escritor e jornalista francês, n. em 1946

sábado, 19 de dezembro de 2015

MENSAGENS DE NATAL E DE ANO NOVO

sms substitui o velho e educado cartão enviado pelo correio
Miguel Sousa Tavares é uma personagem que ouço e leio sempre com interesse e curiosidade; nem sempre concordo com todas as suas opiniões mas algumas parecem-me muito bem expostas e analisadas. Por exemplo, no livro que dele estou actualmente a ler ("Não se encontra o que se procura") achei oportunos alguns conselhos práticos aos viciados em mensagens de Natal e Ano Novo que, nesta altura, enviam por telemóvel para tudo e para todos esquecendo que no resto do ano nem um segundo pensaram na grande maioria desses destinatários:

1-evite mandar uma mensagem igual para todos os contactos do seu telemóvel. A mensagem ou é personalizada ou não vale nada  

2-Assine sempre a mensagem. Metade das mensagens que eu recebo não sei de onde vêem pelo que não respondo porque não sei quem é; claro que o remetente fez figura de urso pois nem chega a saber se a mensagem foi recebida.

3-Quando assinar, assine só com o seu nome; não assine nunca com o nome da família toda. Mais do que foleiro é cómico receber mensagens "da família Costa", "da família Antunes". Questiono-me eu- será do António Costa? será do Lobo Antunes?

4-Resista a armar-se em escritor: "só há Natal quando verdadeiramente o sentimos na alma" , "desejo-te um ano de felicidades e de euros". Fique-se pelo clássico "Feliz Natal e Ano Novo". Pode não ser muito imaginativo, mas, pelo menos, tem a certeza de que não será gozado.

5-Não mande mensagens de paz e amor àqueles cujo destino lhe é absolutamente indiferente ou àqueles a quem deveria estar atento ao longo do ano e não esteve. O Natal não pode servir de pretexto para um exercíco de hipocrisia e bons sentimentos à revelia do resto do ano. Acredite que as pessoas não se deixam enganar e que percebem que o único sentimento que o motiva é ficar bem na fotografia.      

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

LEITURAS 2015 - L (50) - "DA CIDADE NERVOSA" - ENRIQUE VILA-MATOS


Gosto destes livros, com crónicas relatando situações das vidas de escritores mais ou menos famosos abordando algumas situações muito interessantes. "DA CIDADE NERVOSA" relata algumas situações curiosas e pouco conhecidas, nomeadamente aquela relacionada com o suicídio de Hemingway.

Fiquei também a saber que o melhor relato que Enrique Vila-Matas leu na vida foi "Luvina" de Juan Rulfo, uma viagem ao centro da tristeza, uma excursão ao local onde os dias são tão frios como as noites e o orvalho gela no céu antes de chegar a cair sobre a terra. Luvina é o lugar onde mora a tristeza, não há uma árvore nem nada verde para repousar a vista, tudo está envolto numa névoa cinzenta. Acrescenta outros contos seus preferidos:

-"Uma alma de Deus" - Flaubert
-"Um gato sob a chuva" - Hemingwhay
-"Um dia perfeito para o peixe banana" - Salinger
-"Os mortos" - James Joyce
-"O Aleph" - Jorge Luís Borges
-"Ionich" - Tchecóv
-"A condenação" - F. Kafka
  

É um livro interessante pelo tema abordado, apesar de não ser dos melhores que li deste autor espanhol.
Enrique Via-Matas - nascido em Barcelona em 1948



domingo, 13 de dezembro de 2015

PROJECTOS/DESAFIOS


Há palavras que aplicadas em determinadas situações me fazem pensar (por vezes sorrir). DESAFIO e PROJECTO são duas dessas palavras quando aplicadas em determinados contextos.

Por exemplo, quando alguém que, depois de mil currículos, arranjou um novo emprego (ordenado mínimo) e vai portanto iniciar uma nova vida, num novo trabalho, me diz:- aceitei este desafio porque me parece um projecto aliciante. 

E fico a pensar (sorrindo): será  que se não fosse um projecto e um desafio aliciante preferiria continuar desempregado?
Como diria um meu ex-colega de trabalho - conversa de ervanária...

E lá me questiono eu mais uma vez: terá isto a ver alguma coisa com o facto de o mundo (neste caso a língua portuguesa) estar sempre em mudança, ou será apenas um modo e uma nóvel maneira de (tentativa de) auto-valorização ou será antes o fruto da iliteracia que se tem instalado na mente dos portugueses?



quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

LEITURAS 2015 - XLIX - "A ILHA DE CARIBOU" - DAVID VANN


Um casamento de mais de mais de duas décadas, completamente à deriva, um casal virado do avesso. 

Quando ainda criança. Irene vê o cadáver da sua mãe pendurado numa trave da sua casa. O suicídio da mãe irá marcar a sua vida e dos que a irão rodear ao longo da mesma.

Quando Gary, marido de Irene pretende, após ambos estarem reformados, cumprir um velho sonho (construir uma cabana nas margens de um largo gelado e inóspito do Alasca), começa a tormenta que irá destruir a vida deste casal.    

É um livro duro, um livro pesado sobre a complexidade das relações humanas, sobre a solidão e a complexidade de um casamento longo, e muito longe de ter sido um casamento feliz. 

Gostei, embora por vezes as descrições sejam demasiado lentas o que conduz a um certo arrastamento na leitura. Não deixa contudo de ser um bom livro. Não vou aconselhar nem desaconselhar porque isto de se aconselharem livros é muito subjectivo dado que ninguém pensa do mesmo modo e nem todas as pessoas vêem as coisas pelo mesmo prisma; eu gostei, embora não seja do melhor que li ultimamente, em bom português: -assim assim-.

Não posso deixar de realçar a excelência dos livros desta editora (Ahab Edições), são magníficos, livros que apetece ler, que apetece tocar, que apetece transportar. Quem gosta de livros sabe do que estou a falar.  

David Vann, n. Alasca 1966

sábado, 5 de dezembro de 2015

PARA UM MUNDO MELHOR?



Li esta semana nos jornais que Mark Zuckerberg o fundador do Facebook (e detentor de uma das maiores fortunas do mundo) se comprometeu a pôr o equivalente a  99% das acções do Facebook (cerca de 42 mil milhões de euros ao valor actual) nos cofres de uma empresa de responsabilidade limitada (uma organização qual instituição de caridade) com o objectivo de promover o potencial humano e a igualdade.

Há quem diga (li na mesma imprensa) que será mais um inteligente processo de fugir a impostos e investir capitais através de outras organizações.

De qualquer modo, questiono-me eu, na minha ignorância: -será mesmo esta uma forma de se tornar o mundo melhor e mais igual? 






quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O CHOCALHO - PATRIMÓNIO MUNDIAL


Bater recordes para o Guinness parece estar a passar de moda, não havia papalvo que se prezasse, que não tentasse ter a maior salsicha, engolir de uma só vez o maior número de hamburgueres, ter a maior chouriça, expelir o maior quilo, comer o maior número de francesinhas, possuir o maior penico e por aí fora, uma autêntica alienação nacional, reveladora da actual menoridade mental portuguesa.

Agora é a febre de ser reconhecido como Património da Humanidade; depois do fado e do cante agora foi a vez do chocalho ir lá fora suplicar a benção. 

Vangloriam-se os papagaios dos jornais, das rádios e das televisões (agora dizem os media) que é bom para o turismo...ainda gostava de saber o que é que (depois de concedida a benção) o chocalho irá contribuir para o aumento do turismo. 

É a alienação deste Portugal cada vez menor, sem identidade (agachado e de cócoras), assustadoramente carente de ser reconhecido fora de casa.

Segue-se o badalo...







segunda-feira, 30 de novembro de 2015

LEITURAS 2015 - XLVIII - "NÃO MATEM A COTOVIA" - HARPER LEE



Este foi o melhor livro que li sobre o racismo nos Estados Unidos da América!

Saiu em 1960, ganhou o Prémio Pulitzer de ficção em 1961 e o "Library Journal" nomeou-o, em 1999, como o melhor romance do século XX.

É um livro brilhante, uma história passada nos anos de 1930, nos Estados Unidos racistas, segregadores, profundamente injustos, em que nos é descrito o dia a dia de uma comunidade conservadora onde o preconceito, o ódio, o racismo caracterizam as relações daquela comunidade. 


cena do filme baseado neste livro
É pelos olhos de uma menina de 7 anos (Scout Finch) que, sob o seu ponto de vista, a história nos é contada. O seu pai (o advogado Atticus Finch), uma personagem admirável e fascinante, é escolhido para defender em tribunal o negro Tom e é a partir desse momento que a vida da família sofre um tremendo abalo e as maiores desconsiderações quando a comunidade em que vivem não tolera que Atticus trabalhe para os pretos. Atticus defende com toda a convicção, arrostando com ameaças e preconceitos, o negro Tom acusado de violentar uma rapariga branca.  




porquê o título do livro? (tomemos o negro Tom, acusado de violação, como uma cotovia) : 
- As cotovias não fazem mais nada senão cantar para nossa satisfação. Não comem coisas nos jardins das pessoas, não fazem ninhos nas searas, não causam danos a ninguém. É por isso que é pecado matar uma cotovia.

nasceu em 1926 em Monroeville, Alabama



quarta-feira, 25 de novembro de 2015

LEITURAS 2015 - XLVII - "TERRA DO PECADO" - JOSÉ SARAMAGO

 

Tinha 24 anos, calado, metido consigo, ganhando a vida como praticante de escritório nos serviços administrativos dos Hospitais Civis de Lisboa, quando no ano de 1947 publicará este romance a que chamou "A Viúva" mas que o editor decidiu, por motivos comerciais, dar o título de "Terra do pecado".

Maria Leonor fica viúva, com dois filhos e uma casa enorme para cuidar. Com os empregados fiéis, amigos da família, ela vai lutar para ultrapassar a dor da perda do seu marido. Vai lutar contra o preconceito numa terra onde as viúvas devem agir como se a sua vida tivesse terminado, como se tivessem parado de viver pois só assim podem honrar o nome da família, se o não fizerem mancharão, perante toda a sociedade, a honra da família.
Esta terra do pecado é que dita as leis porque se há-de reger a sociedade, onde continuar a viver é pecado, sorrir é pecado, sair à rua é pecado, viver é pecado.

Gostei, como tenho gostado de todos os livros de José Saramago, tendo, contudo, em atenção que é o seu primeiro livro ou seja o livro da juventude de José Saramago.
Só cinquenta anos depois o autor concordou em publicar a segunda edição.




sexta-feira, 20 de novembro de 2015

LEITURAS 2015 - XLVI - "DOZE CONTOS PEREGRINOS" - GABRIEL GARCIA MÁRQUEZ


Quando, há muitos anos, li "O AMOR NOS TEMPOS DE CÓLERA" fiquei imediatamente leitor-seguidor deste grande escritor colombiano, com uma escrita que nos prende imediatamente da primeira à última página.

Estes "DOZE CONTOS PEREGRINOS", foram escritos ao longo de muitos anos e seleccionados pelo próprio autor e percorrem uma longa trajectória.

São doze histórias de solidão, amor, poder e morte que Gabriel Garcia Márquez soube criar com mão de mestre. 

São doze os contos deste precioso livro:


  1. Boa Viagem, Senhor Presidente
  2. A santa
  3. O avião da bela adormecida
  4. Alugo-me para sonhar
  5. Só vim fazer um telefonema 
  6. Surpresas de Agosto
  7. Maria dos Prazeres
  8. Dezassete ingleses envenenados
  9. Tramontana
  10. O feliz Verão da Senhora Forbes
  11. A luz é como a água
  12. O rasto do teu sangue na neve
"Só vim fazer um telefonema" foi o conto de que mais gostei. É uma história muito bem montada, direi mesmo assustadora, e que nos mostra a nossa insignificância perante o acaso. 
Belo livro de contos de um grande, enorme escritor que em todos os livros me prende intensamente da primeira à última página. 






domingo, 15 de novembro de 2015

LEITURAS 2015 - XLV - "O AMANTE BILINGUE" - JUAN MARSÉ


Juan Marés vê-se enganado e abandonado pela sua mulher, pertencente à alta burguesia catalã, e pela qual está loucamente apaixonado. Mergulhado no desespero e na indigência, converte-se num solitário e num marginal, um desprezível músico de rua que ganha a vida a tocar acordeão, deambulando pelos bairros antigos de Barcelona, e que concebe um estratagema delirante: fazer-se passar por outro homem, um charnego (na Catalunha emigrante de outra região) típico e impostor chamado Faneca, e reconquistar a sua ex-mulher com essa personalidade usurpada. 

Um bom livro que se lê com satisfação e curiosidade. Foi o primeiro livro que li de Juan Marsé e gostei.

Juan Marsé - Barcelona 1933

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

LEITURAS 2015 - XLIV - "DESTE MUNDO E DO OUTRO" - JOSÉ SARAMAGO

José Saramago: Deste Mundo e do Outro

Gosto de José Saramago! É um grande, um genial escritor.


José Saramago  1922-2010
Neste seu livro, reúne-se um conjunto de crónicas publicadas por Saramago no jornal A Capital (1968/1969); há umas boas, outras nem por isso, mas esta definição do que é um calculista, vale o livro:

"O calculista é um monstro, uma espécie de aborto disfarçado, um intoxicado de egoísmo. Deita contas à (sua) vida, risca o plano no papel invisível do cérebro, e como um jogador de xadrez avança e recua as pedras do seu interesse. Por via de regra, é pessoa sorridente, toda lhaneza e coração aberto. Tem um particular modo de nos segurar pelo braço ou de nos pôr a mão no ombro, como se em nós descobrisse a alma gémea, o irmão. Em pessoas sensíveis, dá resultado. Mais tarde receberemos a factura...." 


sábado, 7 de novembro de 2015

LEITURAS 2015 - XLIII - "MULHERES DA BEIRA" - ABEL BOTELHO


Este livro foi escrito há mais de cem anos, mais precisamente entre 1885-1896.
É o nº. 74 da excelente Colecção Lusitânia, da Lello & Irmão Editores, e foi publicado há, pelo menos cinquenta anos, não consigo no entanto certificar a data exacta da sua publicação. 

Contudo, permito-me realçar que, nas duas últimas páginas, tem um apêndice do Editor datado de 8 de Fevereiro de 1917; está muito bem conservado e tem uma capa (exterior) em papel, muito bonita; tenho pena de não a conseguir aqui reproduzir. Foi-me emprestado por um amigo que em toda a sua casa tem livros por tudo quanto é sítio (casa de banho, cozinha, etc. -não estou a exagerar).   

"MULHERES DA BEIRA" - São sete contos, excelentes, que nos falam das nossas terras e das nossas gentes, do tempo em que a timidez era o diagnóstico certo do amor, como diz o autor, num destes contos.

Naturalmente que está escrito num português com mais de cem anos, por isso tive, por vezes, de utilizar o dicionário para ver o significado de determinadas palavras que já não se usam.

Fiquei, por exemplo, a saber que um frade CRÚZIO era (é?) um membro da congregação religiosa de Santa Cruz de Coimbra.

É uma escrita em que terá de haver efectivamente um completo domínio da língua portuguesa e nota-se isso pela descrição das situações e das gentes. Talvez um senão - para descrever as situações mais simples são necessárias mil e uma palavras.
No entanto gostei das descrições das terras (passa-se no Douro) e das gentes e mostra-nos como era rural o mundo português.

Coronel do Exército Português, escritor e diplomata. Nasceu em 1855 em Tabuaço e faleceu em 1917 na Argentina.
A ele se ficou a dever o projecto gráfico da bandeira da Republica Portuguesa, em que o verde representa a esperança
e o vermelho o sangue derramado pelo povo nas muitas guerras travadas.