quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O CHOCALHO - PATRIMÓNIO MUNDIAL


Bater recordes para o Guinness parece estar a passar de moda, não havia papalvo que se prezasse, que não tentasse ter a maior salsicha, engolir de uma só vez o maior número de hamburgueres, ter a maior chouriça, expelir o maior quilo, comer o maior número de francesinhas, possuir o maior penico e por aí fora, uma autêntica alienação nacional, reveladora da actual menoridade mental portuguesa.

Agora é a febre de ser reconhecido como Património da Humanidade; depois do fado e do cante agora foi a vez do chocalho ir lá fora suplicar a benção. 

Vangloriam-se os papagaios dos jornais, das rádios e das televisões (agora dizem os media) que é bom para o turismo...ainda gostava de saber o que é que (depois de concedida a benção) o chocalho irá contribuir para o aumento do turismo. 

É a alienação deste Portugal cada vez menor, sem identidade (agachado e de cócoras), assustadoramente carente de ser reconhecido fora de casa.

Segue-se o badalo...







segunda-feira, 30 de novembro de 2015

LEITURAS 2015 - XLVIII - "NÃO MATEM A COTOVIA" - HARPER LEE



Este foi o melhor livro que li sobre o racismo nos Estados Unidos da América!

Saiu em 1960, ganhou o Prémio Pulitzer de ficção em 1961 e o "Library Journal" nomeou-o, em 1999, como o melhor romance do século XX.

É um livro brilhante, uma história passada nos anos de 1930, nos Estados Unidos racistas, segregadores, profundamente injustos, em que nos é descrito o dia a dia de uma comunidade conservadora onde o preconceito, o ódio, o racismo caracterizam as relações daquela comunidade. 


cena do filme baseado neste livro
É pelos olhos de uma menina de 7 anos (Scout Finch) que, sob o seu ponto de vista, a história nos é contada. O seu pai (o advogado Atticus Finch), uma personagem admirável e fascinante, é escolhido para defender em tribunal o negro Tom e é a partir desse momento que a vida da família sofre um tremendo abalo e as maiores desconsiderações quando a comunidade em que vivem não tolera que Atticus trabalhe para os pretos. Atticus defende com toda a convicção, arrostando com ameaças e preconceitos, o negro Tom acusado de violentar uma rapariga branca.  




porquê o título do livro? (tomemos o negro Tom, acusado de violação, como uma cotovia) : 
- As cotovias não fazem mais nada senão cantar para nossa satisfação. Não comem coisas nos jardins das pessoas, não fazem ninhos nas searas, não causam danos a ninguém. É por isso que é pecado matar uma cotovia.

nasceu em 1926 em Monroeville, Alabama



quarta-feira, 25 de novembro de 2015

LEITURAS 2015 - XLVII - "TERRA DO PECADO" - JOSÉ SARAMAGO

 

Tinha 24 anos, calado, metido consigo, ganhando a vida como praticante de escritório nos serviços administrativos dos Hospitais Civis de Lisboa, quando no ano de 1947 publicará este romance a que chamou "A Viúva" mas que o editor decidiu, por motivos comerciais, dar o título de "Terra do pecado".

Maria Leonor fica viúva, com dois filhos e uma casa enorme para cuidar. Com os empregados fiéis, amigos da família, ela vai lutar para ultrapassar a dor da perda do seu marido. Vai lutar contra o preconceito numa terra onde as viúvas devem agir como se a sua vida tivesse terminado, como se tivessem parado de viver pois só assim podem honrar o nome da família, se o não fizerem mancharão, perante toda a sociedade, a honra da família.
Esta terra do pecado é que dita as leis porque se há-de reger a sociedade, onde continuar a viver é pecado, sorrir é pecado, sair à rua é pecado, viver é pecado.

Gostei, como tenho gostado de todos os livros de José Saramago, tendo, contudo, em atenção que é o seu primeiro livro ou seja o livro da juventude de José Saramago.
Só cinquenta anos depois o autor concordou em publicar a segunda edição.




sexta-feira, 20 de novembro de 2015

LEITURAS 2015 - XLVI - "DOZE CONTOS PEREGRINOS" - GABRIEL GARCIA MÁRQUEZ


Quando, há muitos anos, li "O AMOR NOS TEMPOS DE CÓLERA" fiquei imediatamente leitor-seguidor deste grande escritor colombiano, com uma escrita que nos prende imediatamente da primeira à última página.

Estes "DOZE CONTOS PEREGRINOS", foram escritos ao longo de muitos anos e seleccionados pelo próprio autor e percorrem uma longa trajectória.

São doze histórias de solidão, amor, poder e morte que Gabriel Garcia Márquez soube criar com mão de mestre. 

São doze os contos deste precioso livro:


  1. Boa Viagem, Senhor Presidente
  2. A santa
  3. O avião da bela adormecida
  4. Alugo-me para sonhar
  5. Só vim fazer um telefonema 
  6. Surpresas de Agosto
  7. Maria dos Prazeres
  8. Dezassete ingleses envenenados
  9. Tramontana
  10. O feliz Verão da Senhora Forbes
  11. A luz é como a água
  12. O rasto do teu sangue na neve
"Só vim fazer um telefonema" foi o conto de que mais gostei. É uma história muito bem montada, direi mesmo assustadora, e que nos mostra a nossa insignificância perante o acaso. 
Belo livro de contos de um grande, enorme escritor que em todos os livros me prende intensamente da primeira à última página. 






domingo, 15 de novembro de 2015

LEITURAS 2015 - XLV - "O AMANTE BILINGUE" - JUAN MARSÉ


Juan Marés vê-se enganado e abandonado pela sua mulher, pertencente à alta burguesia catalã, e pela qual está loucamente apaixonado. Mergulhado no desespero e na indigência, converte-se num solitário e num marginal, um desprezível músico de rua que ganha a vida a tocar acordeão, deambulando pelos bairros antigos de Barcelona, e que concebe um estratagema delirante: fazer-se passar por outro homem, um charnego (na Catalunha emigrante de outra região) típico e impostor chamado Faneca, e reconquistar a sua ex-mulher com essa personalidade usurpada. 

Um bom livro que se lê com satisfação e curiosidade. Foi o primeiro livro que li de Juan Marsé e gostei.

Juan Marsé - Barcelona 1933

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

LEITURAS 2015 - XLIV - "DESTE MUNDO E DO OUTRO" - JOSÉ SARAMAGO

José Saramago: Deste Mundo e do Outro

Gosto de José Saramago! É um grande, um genial escritor.


José Saramago  1922-2010
Neste seu livro, reúne-se um conjunto de crónicas publicadas por Saramago no jornal A Capital (1968/1969); há umas boas, outras nem por isso, mas esta definição do que é um calculista, vale o livro:

"O calculista é um monstro, uma espécie de aborto disfarçado, um intoxicado de egoísmo. Deita contas à (sua) vida, risca o plano no papel invisível do cérebro, e como um jogador de xadrez avança e recua as pedras do seu interesse. Por via de regra, é pessoa sorridente, toda lhaneza e coração aberto. Tem um particular modo de nos segurar pelo braço ou de nos pôr a mão no ombro, como se em nós descobrisse a alma gémea, o irmão. Em pessoas sensíveis, dá resultado. Mais tarde receberemos a factura...." 


sábado, 7 de novembro de 2015

LEITURAS 2015 - XLIII - "MULHERES DA BEIRA" - ABEL BOTELHO


Este livro foi escrito há mais de cem anos, mais precisamente entre 1885-1896.
É o nº. 74 da excelente Colecção Lusitânia, da Lello & Irmão Editores, e foi publicado há, pelo menos cinquenta anos, não consigo no entanto certificar a data exacta da sua publicação. 

Contudo, permito-me realçar que, nas duas últimas páginas, tem um apêndice do Editor datado de 8 de Fevereiro de 1917; está muito bem conservado e tem uma capa (exterior) em papel, muito bonita; tenho pena de não a conseguir aqui reproduzir. Foi-me emprestado por um amigo que em toda a sua casa tem livros por tudo quanto é sítio (casa de banho, cozinha, etc. -não estou a exagerar).   

"MULHERES DA BEIRA" - São sete contos, excelentes, que nos falam das nossas terras e das nossas gentes, do tempo em que a timidez era o diagnóstico certo do amor, como diz o autor, num destes contos.

Naturalmente que está escrito num português com mais de cem anos, por isso tive, por vezes, de utilizar o dicionário para ver o significado de determinadas palavras que já não se usam.

Fiquei, por exemplo, a saber que um frade CRÚZIO era (é?) um membro da congregação religiosa de Santa Cruz de Coimbra.

É uma escrita em que terá de haver efectivamente um completo domínio da língua portuguesa e nota-se isso pela descrição das situações e das gentes. Talvez um senão - para descrever as situações mais simples são necessárias mil e uma palavras.
No entanto gostei das descrições das terras (passa-se no Douro) e das gentes e mostra-nos como era rural o mundo português.

Coronel do Exército Português, escritor e diplomata. Nasceu em 1855 em Tabuaço e faleceu em 1917 na Argentina.
A ele se ficou a dever o projecto gráfico da bandeira da Republica Portuguesa, em que o verde representa a esperança
e o vermelho o sangue derramado pelo povo nas muitas guerras travadas.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

LEITURAS 2015 - XLII - RECORDANDO A GUERRA ESPANHOLA - GEORGE ORWELL



Este livro recorda-nos a experiência vivida durante seis meses por George Orwell na Guerra Civil Espanhola, na qual participou ao lado dos republicanos na frente de batalha, beneficiando do facto de ali poder aplicar a sua experiência de oficial britânico, que, entre 1922 e 1927, exercera durante cinco longos anos na Polícia Imperial, na Birmânia (actualmente República da União de Myanmar, e cuja capital foi transferida em 2006 de Rangum para Naypydaw).

Orwell foi para Espanha para participar em combates, ao contrário de outros voluntários e revelou-se um combatente não apenas corajoso mas temerário.

Devo no entanto confessar que esperava um livro mais esclarecedor sobre a Guerra Civil Espanhola já que, nesse aspecto, ficou muito aquém das minhas expectativas.

George Orwell é pseudónimo. Eric Arthur Blair era o seu verdadeiro nome
nasceu na Índia em 1903 e faleceu em Londres em 1950

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

LEITURAS 2015 - XLI - PÓ, CINZA E RECORDAÇÕES - J. RENTES DE CARVALHO


J. RENTES DE CARVALHO é actualmente um dos grandes escritores portugueses vivos. É um excelente narrador -são límpidas e claras as suas descrições- !

Era para mim um total desconhecido até que há cerca de cinco anos o descobri com um livro excelente ("com os holandeses"), que nos descreve muito bem o que será o povo holandês (o positivo e o negativo). É um autor muito aplaudido lá fora mas, para o seu valor, ainda um desconhecido em Portugal.

Este "PÓ, CINZA E RECORDAÇÕES" foi escrito diariamente, sem falhas, entre Maio e 1999 e Maio 2000, e é o diário do milénio de um dos mais relevantes autores portugueses da actualidade. Factos, pensamentos, situações do dia a dia tão bem descritas que estão mesmo ali a acontecer à nossa frente. Fico com a ideia de que a Holanda, país onde viveu grande parte da sua vida e continua a viver já que vive alternadamente entre Amesterdão e Mogadouro, moldou um pouco o seu carácter pois parece-me um homem com paciência, um homem simples e verdadeiro sem manias nem tiques de vedeta e duma autenticidade admirável, talvez, contudo, já com alguma frieza holandesa entranhada em vez da alegre espontaneidade portuguesa.    

Gostei, como tenho gostado de todos os seus livros que li anteriormente. 

J. Rentes de Carvalho - Vila Nova de Gaia - 1930

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

LEITURAS 2015 - XL - "CONTA-CORRENTE" - nova série II - VERGÍLIO FERREIRA


Com o título de "CONTA-CORRENTE", foram nove os diários que Vergílio Ferreira escreveu entre 1980 (conta-corrente I) e 1994 (conta-corrente, nova série IV). 

Este, que acabei de ler, foi o sétimo e, como os anteriores, é excelente. Aborda o ano de 1993. 

Vergílio Ferreira é um belíssimo escritor. 

Seria talvez, ao que deduzo da leitura destes diários, um homem de um feitio especial, que pensava  que os seus livros não eram valorizados como o deveriam e que até se julgava algo injustiçado por tudo e por todos. 

Quando estou a ler um livro de Vergílio Ferreira tenho sempre um lápis à mão pois não resisto a sublinhar muitas das suas frases:

-a abundância é já um pouco a saciedade

-para o homem só o impossível é que é bastante

-o comer e o coçar vai do começar

-ter tudo é igual ao nada por não haver mais nada para ter


Vergílio Ferreira    -    Melo-Gouveia-Portugal  1916-1996

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

LEITURAS 2015 - XXXIX - "A BALADA DO CAFÉ TRISTE" - CARSON McCULLERS


Após ter lido o excelente "O coração é um caçador solitário" de CARSON McCULLERS, "A BALADA DO CAFÉ TRISTE", da mesma autora, foi o livrinho que se seguiu (apenas 75 páginas), e que me deu a conhecer um trio de personagens pouco convencional, numa pequena cidade do sul dos Estados Unidos, durante a grande Depressão, onde apenas existe uma fábrica, uma igreja, uma rua principal e algumas casas onde vivem alguns operários: 

-Miss Amelia Evans - a mulher mais rica da região, uma mulher absolutamente fascinante na sua estranha e rude personalidade, que preferia a solidão ao amor e que acabará por se afundar quando menos e da maneira que menos se espera; 

-Marvin Macy com quem Miss Amelia foi casada apenas durante dez (que não conseguiu alterar um milímetro da sua personalidade sombria), e que é o homem mais bem parecido mas com o carácter mais instável da povoação, um ser humano que tem o mal dentro de si, um homem repugnante que torna este livro tão arrebatador; 

-o anão corcunda que um dia chega à terra e se afirma primo de Miss Amelia e que num abrir e fechar de olhos lhe rouba o coração; outra grande personagem que nos está sempre a surpreender.


Excelente livro sobre a solidão e o medo que ela nos provoca, solidão que avança quando avançamos na idade. 

CARSON McCULLERS   EUA  -   1917-1967


domingo, 18 de outubro de 2015

LEITURAS 2015 - XXXVIII - "O CORAÇÃO É UM CAÇADOR SOLITÁRIO" - CARSON McCULLERS


Quando apanho um livro destes é como se entrasse num outro mundo, numa outra época, numa outra vida. 

Este é um livro de sofrimento, um livro de solidão, um livro que me agarrou como se estivesse dentro daquela cidadezinha do sul profundo dos Estados Unidos, no final dos anos 30 e quando os os efeitos da Grande Depressão ainda se fazem sentir. 

E ali conheço John Singer um surdo que vê a sua vida transformar-se completamente quando o seu amigo, igualmente surdo, Spiros Antonopoulos, é internado num hospício que dista 300 e tal kms. da cidade onde viviam. John Singer é uma personagem marcante desta cidade pois todos o procuram para falar das suas inquietações, dos seus medos, frustrações, e a todos John Singer impressiona...

Gostei imenso deste livro. Personagens fantásticas cujas vivências nos proporcionam um retrato da América durante a Grande Depressão, da fome e da miséria, conflitos raciais e uma solidão profunda que se sente ao longo deste grande livro.  


Carson McCullers - EUA - 1917 - 1967

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

LEITURAS 2015 - XXXVII - "O NAUFRÁGIO DO TITANIC" - JOSEPH CONRAD


Quantas vezes, depois de ter visto o filme, eu coloquei a mim próprio as questões que Joseph Conrad aborda neste pequeno livrinho (68 páginas), relativamente ao afundamento do TITANIC (14 de Abril de 1912), como por exemplo o facto de um grande bloco de gelo ao roçar pela lateral do navio conseguiu afundá-lo em menos de trinta minutos, um navio que afinal, quando foi construído, foi considerado inafundável. E como é que um navio com mais de dois mil passageiros, não possui botes salva-vidas suficientes para os passageiros e tripulação que transportava.



É um livro que não nos dá respostas mas põe-nos a fazer perguntas, que é isso, afinal, que os livros nos deverão proporcionar, como disse recentemente um grande conhecedor e amante de livros (Alberto Manguel).

Este livro reúne artigos que Joseph Conrad escreveu sobre o naufrágio e que foram publicados nos meses a seguir à tragédia em "The English Review". 


Joseph Conrad - antigo marinheiro - Ucrania 1857 - 1924 Grã-Bretanha

sábado, 10 de outubro de 2015

LEITURAS 2015 - XXXVI - "O PREGADOR" - ERSKINE CALDWELL

Erskine Caldwell - EUA - 1903 - 1987
Este excelente livro, autografado pelo autor, é uma 1ª. edição de 1959 (da Editora Portugália) que me foi emprestado por um amigo.É uma preciosidade!

A experiência humana que ERSKINE CALDWELL nos relata em "O PREGADOR" foi, em grande parte, acumulada nos seus anos de infância podendo até parecer que será uma espécie de auto-biografia.
O pai do futuro grande romancista era daquele tipo de pregadores errantes, sempre a peregrinar de terra em terra. O filho acompanhava-o e tão assiduamente que só aos catorze anos conseguiu vida sedentária que lhe permitisse aprender a ler.

E foi o seu espírito observador (apesar da sua tenra idade) que lhe permitiu mais tarde criar este espantoso pregador (Semon Dye), dividido entre entre os irresistíveis apelos da bebida, as fraquezas inadiáveis da carne, aquela ânsia de dinheiro que o leva a embolsar tudo quanto lhe passa ao alcance da mão. 

A obra de Caldwell é um panfleto contra a miséria e a degradação do homem do Sul, negro ou branco.

"O PREGADOR" é um livro que nos introduz numa outra América totalmente diferente dos manuais de turismo e dos encantos de vida das grandes metrópoles, uma América rural e rude que vale a pena conhecer através deste grande livro.


terça-feira, 6 de outubro de 2015

LEITURAS 2015 - XXXV - "SÓ SE MORRE UMA VEZ" - RITA FERRO


Para alguma surpresa minha RITA FERRO não consegue esconder (certamente que nem será essa a sua intenção), ao longo das páginas deste diário as suas origens ligadas ao antigo regime e, sobretudo, às famílias que durante mais de quarenta anos dominaram Portugal. Revela-se até algo retrógrada e saudosista dum tempo que não deixou saudades à maioria do povo português. Obviamente que tal facto não impediu que eu tivesse gostado de a ler, porque se revela uma mulher transparente e humana e, sobretudo, não me parece nada calculista (qualidade que aprecio). 

"SÓ SE MORRE UMA VEZ" é um diário que nos revela situações absolutamente simplistas e, por vezes, demasiado fúteis; por isso se lê como se lê uma qualquer revista cor de rosa.

Com todo o respeito e sem qualquer intenção de demérito para a escritora Rita Ferro ou para os seus livros, não posso no entanto deixar de confessar que, com tanto livro bom que eu tenho para ler, não sei quando voltarei a ler um de Rita Ferro. 
Foi o primeiro, de qualquer modo, não sei, se terá sido o último.

Contudo, tento não perder às quartas-feiras na Antena Um, entre as vinte e três e as vinte e quatro horas, a sua conversa sobre livros no programa "a páginas tantas". 



sexta-feira, 2 de outubro de 2015

LEITURAS 2015 - XXXIV - "AS LEIS DA FRONTEIRA" - JAVIER CERCAS


Na quase totalidade das minhas leituras é logo no começo de um livro (no máximo à página dez) que tenho a imediata sensação de estar perante um grande pastel ou a começar um grande livro; pois foi isto que precisamente me aconteceu - "AS LEIS DA FRONTEIRA", do espanhol JAVIER CERCAS, é um bom livro -.

Este romance conta a história de Ignácio Canas, alcunhado de GAFITAS, devido aos seus óculos, que nos seus primeiros anos de escola é gozado por todos, nomeadamente pelo seu algoz (Batista). De repente pensa que há-de mudar de vida e tentar pôr fim aos seus sofrimentos na escola e às constantes perseguições de que é alvo. E toda a sua vida muda quando se envolve com Zarco (um mito, tipo "Robin Hood") adolescente cabecilha de um gangue que o viria a recrutar...

Excelentes personagens e excelentes descrições do que são os outros.

Não deixei de anotar algumas das várias situações, que me pareceram interessantes, referidas ao longo do livro:

-"um advogado não pode ser bom se não for capaz de, de vez em quando, pôr de lado os escrúpulos morais." 

-"a arrogância esconde um sentimento de inferioridade"


Javier Cercas - escritor espanhol (n. 1962 em Cáceres)

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

LEITURAS 2015 - XXXIII - A CONFRARIA DO VINHO - JOHN FANTE


Foi há cerca de um mês que tinha lido quase num só dia "Pergunta ao Pó" de John Fante e por isso voltei a este notável autor americano, com o excelente "A CONFRARIA DO VINHO", um romance claramente autobiográfico, que é uma evocação e reconstrução da rude figura do pai, um italiano pobre, imigrado no Colorado, que assentava tijolos com brio de escultor e vivia entregue à bebedeira constante, às permanentes infidelidades à mulher e ao quase desprezo pelos filhos, o que muito marcou o escritor, para sempre.

Fante, à imagem de Knut Hamsun (escritor norueguês, Nobel da Literatura em 1920), que muito admirava, teve uma vida duríssima: passou fome, vagabundeou sem descanso, viveu em sórdidos moteis, envolveu-se com as mulheres erradas, trabalhou, entre muitas outras profissões exercidas, numa fábrica de conservas. Desta vida instável se reflectiu a sua vida literária, daí a sua produção ter sido tão escassa.  
John Fante - 1909 Denver, Colorado, EUA - 1983


John Fante tem uma escrita pura e dura. Personagens incríveis que nos abanam e nos obrigam a pensar, a principal função de um livro, na minha perspectiva.E todos os seus livros que já li até agora me agradaram.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

INFORMAÇÃO/CONHECIMENTO


No café/bar. A servir diariamente ao balcão (nas horas que o frequento) está uma rapariga (familiar do gerente) de dezanove/vinte anos, estudante (nas horas vagas)...

Na porta das casas de banho, a dos homens está identificada com uma moldura com uma foto de um famoso actor de cinema dos anos 40/50 (Gary Cooper) e na das mulheres a foto de uma das maiores actrizes de sempre, sex-symbol, dos anos 50, Marilyn Monroe. 

Pergunto à rapariga, que normalmente me atende, se sabe quem são os actores das fotos da porta do WC.

- Não sei
- Identifico-os e digo-lhe da sua importância à altura do seu apogeu
- Não sabia, nem nunca tinha ouvido falar nem dele nem dela, é que não fazia a mínima ideia (...nem mesmo aqui revelou curiosidade em saber).  


Marilyn Monroe - EUA 1926 - 1962 - actriz, cantora e modelo

Sinceramente que não fiquei escandalizado que os não conhecesse (nem tão pouco fiquei sequer admirado) mas o que mais me impressiona nas pessoas (seja jovem ou não) é a total falta de curiosidade, a falta de interesse de aprender, de saber, de conhecer e, no caso presente, ainda por cima uma foto que ela encara diariamente e a todo o instante. Como é possível que nunca tenha revelado a mínima curiosidade em saber quem são aquelas personagens com quem todos os dias coabita?

Gary Cooper -EUA 1901-1961 - actor de cinema -Óscar de melhor actor (2 vezes)

Absurdo, mas é mesmo assim, é um sinal dos tempos. E contraditório até, já que actualmente toda a gente tem acesso a um mundo quase infinito de informação, mas afinal o conhecimento da maioria das pessoas é nulo; absolutamente impressionante a ignorância que a todo o instante revelam, em todas as matérias, mesmo as que no dia a dia fazem parte do nosso mundo. 

Deste modo, mais informação não conduz necessariamente a mais conhecimento!     

terça-feira, 22 de setembro de 2015

LEITURAS 2015 - XXXII - "A MANHÃ DO MUNDO" - PEDRO GUILHERME-MOREIRA


"Calcula-se que no dia 11 de Setembro de 2001, perto de 200 pessoas tenham saltado das torres gémeas. Um dos caídos, pelo menos, não era suicida -ou, se quisermos, não era um suicida óbvio- mas um homem que tentara descer do 90º. andar da Torre Norte. De fato e gravata, começou por agitar o casaco, pedindo ajuda, como se a urgência de ser socorrido não fosse evidente à vista de todos. Depois, com o auxílio de algo que parecia ser uma corda, ousou a descida. Ao fim de poucos segundos, o pé falha o parapeito, o homem desequilibra-se, cai no vazio. Aquilo que o fez julgar que seria capaz de descer de uma altura de centenas de metros com o auxílio de uma simples corda revela um desespero tão profundo como o daqueles que voluntariamente se lançaram do alto das Torres Gémeas. Nas filmagens, vemos braços a agitarem-se freneticamente ; e pessoas debruçadas às janelas, com quase todo o corpo do lado de fora. Quatro delas tentariam escalar o edifício, acabando por cair. Talvez para se encorajarem mutuamente, alguns saltaram aos pares e até em grupo, de mãos dadas. Houve quem tentasse utilizar pára-quedas improvisados, feitos de cortinas, toalhas de mesa ou peças de roupa entrelaçadas que se desfizeram em breves instantes de voo. Alguns, muito poucos, terão tropeçado e caído por acidente, enquanto caminhavam no interior do edifício entre escombros cortantes e densas nuvens de fumo negro. Outros terão sido projectados através das janelas em consequência de uma onda de calor superior a seiscentos ou mesmo mil graus centígrados."  (extraído da Revista Ler nº. 138). 



"A MANHÃ DO MUNDO" o livro de estreia do jovem escritor português PEDRO GUILHERME-MOREIRA é precisamente uma história sobre os que, no 11 de Setembro, saltaram das Torres Gémeas. Gostei, um bom romance sobre o medo e a coragem, o desespero e a lucidez, a culpa e a expiação.
É talvez um livro triste mas que nos permite pensar sobre a vida e sobre certas situações que criticamos sem saber concretamente dos factos que as geraram, como seja o facto de vilipendiar quem por desespero e pânico saltou das Torres Gémeas; como é possível alguém criticar semelhante acto em tais circunstâncias?


Pedro Guilherme-Moreira  -  1969 Porto

Este ("A MANHÃ DO MUNDO") é o segundo livro que leio sobre o 11 de Setembro um tema sobre o qual gostaria de saber mais do que efectivamente creio nos tem sido dado a conhecer. O outro livro que li sobre o tema ("102 Minutos"), foi escrito por dois jornalistas do "New York Times" (Jim Dwyer e Kevin Flynn) e é também excelente pois serve-se de uma enorme variedade de fontes -desde testemunhos directos a registos de telefonemas, e'mails, etc.-). 


sexta-feira, 18 de setembro de 2015

LEITURAS 2015 - XXXI - NÓS OS AFOGADOS - CARSTEN JENSEN


"NÓS, OS AFOGADOS" do dinamarquês CARSTEN JENSEN é um grande livro de aventuras e de personagens de toda a catadura. Narra a história da cidade portuária de Marstal, cujos habitantes se fizeram ao mar e navegaram pelo mundo inteiro a partir de meados do século XIX até ao final da Segunda Guerra Mundial. Por isso mesmo, no cemitério de Marstal quase só há mulheres e crianças porque durante séculos o mar não devolvia os seus mortos.

Aqui se contam as histórias de navios afundados e destruídos em guerras, de lugares de horror e violência que continuam a fascinar todas as gerações: aqui encontramos canibais, sonhos proféticos e sobrevivências miraculosas. O resultado é uma saga apaixonante, repleta de sabedoria e humor, de pais e filhos, das mulheres que eles amam e deixam para trás e da promessa assassina dos mares.  

Excelente livro cuja história se estende por quatro gerações, atravessando duas guerras mundiais e um século de história.

Também nele se fala de Portugal, quando um navio visitou Setúbal (logo a seguir à monarquia (1910)), eis a impressão dos marinheiros dinamarqueses sobre o nosso país:"Há sempre confusão por aqui. Eles criam algum caos e abatem-se uns aos outros. Dizem que querem mudança mas na próxima vez que se voltar cá, está tudo como sempre foi. É assim que eles são. Não dominam o seu temperamento e nunca fazem nada."

794 páginas cheias de acção, de conhecimento dos mares (e não só) que valeu a pena. Mais uma excelente descoberta.


   Carsten Jensen é um escritor dinamarquês nascido em 1952. Com este livro venceu em 2007
o mais importante dos prémios literários da Dinamarca.




segunda-feira, 14 de setembro de 2015

LEITURAS 2015 - XXX - "PERGUNTA AO PÓ" - JOHN FANTE


Mais um livro surpreendente da saga Bandini, uma personagem fascinante e duma dimensão por vezes odiosa e repelente, por vezes absolutamente verdadeira e adorável, que John Fante iniciou com o excelente "A PRIMAVERA HÁ-DE CHEGAR", continuando com o empolgante "ESTRADA PARA LOS ANGELES" e ainda com "OS SONHOS DE BUNKER HILL" (o único que ainda não li e por isso não o poderei cognominar) .

Este "PERGUNTA AO PÓ" de JOHN FANTE é a história de Arturo Bandini, um jovem aspirante a escritor recém-chegado à Los Angeles dos anos 30. Lutando pela dura sobrevivência diária enquanto sonha com o sucesso literário, Bandini vai-se deixando fascinar pelo sórdido da cidade até se envolver com a esquiva e temperamental Camila Lopez, uma empregada de bar mexicana. A paixão que a um tempo o arrebata transforma-se, pouco a pouco, numa destrutiva relação de amor-ódio que vai conduzir a um trágico desenlace.

"Pergunta ao Pó" é uma obra marcante de um mestre da ficção americana do séc. XX e foi adaptado ao cinema por Robert Towne que o classificou como o melhor romance alguma vez escrito sobre Los Angeles.    

John Fante - a loucura genial gerou um grande escritor!
EUA 1909 -1983 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

SALTARAM DAS TORRES GÉMEAS - (A BELA SUICIDA)


Calcula-se que no dia 11 de Setembro de 2001, perto de 200 pessoas tenham saltado das Torres Gémeas.

Precedendo os que saltaram no 11 de Setembro de 2001, Evelyn McHale de 23 anos, lançou-se, na manhã do dia 1 de Maio de 1947, do 86º. andar do Empire State Building de Nova York, depois de discutir com o seu namorado. Deram-lhe o nome da "Bela Suicida"

Um jovem estudante de fotografia que circulava no outro lado da rua, captou a imagem da rapariga jazendo sobre o tecto da limusina (Cadillac) de um mandatário das Nações Unidas. O motorista, que tinha ido a uma farmácia ali perto, escapou do impacto.

A polícia encontrou  dentro do casaco cinzento da bela mulher, um livro de bolso, alguns dólares e uma bolsa de maquilhagem com várias fotos de familiares e uma nota manuscrita que dizia: -"Ele está muito melhor sem mim...eu não seria uma boa esposa para ninguém".



quarta-feira, 9 de setembro de 2015

LEITURAS 2015 - XXIX - "conta-corrente" nova série I

  Vergílio Ferreira nasceu em Melo (Gouveia) em 28 de Janeiro de 1916
e morre a 1 de Março de 1996, estando sepultado em Melo. 
"conta-corrente" é um diário excelente, distribuído em nove volumes, que inicialmente deveria ter apenas cinco, mas que Vergílio Ferreira entendeu prolongar, com a publicação numa nova série, de mais quatro, totalizando assim esta escrita diarística: nove volumes.
Todavia, a este propósito escreve, neste volume I desta nova série, o próprio autor: "É absolutamente necessário deixar aqui expresso para mim mesmo que isto não é a continuação de "conta-corrente". O diário acaba no volume V. O que aqui vão são escorralhas do acontecer diário, pois que as "reflexões" vão no outro livro que escrevo também paralelamente a este e ao romance..."

Já os tinha lido todos há cerca de três anos mas resolvi relê-los e este que acabei de (re)ler nas férias é o primeiro da nova série (de quatro volumes). E como todos os anteriores é um retrato excelente de anos passados ainda muito próximos, este volume I desta nova série aborda o ano de 1989. Vale a pena ler pois ajuda-nos a perceber um rico pedaço da nossa história recente. obviamente que pela perspectiva do autor. 

Curioso como se esquece rapidamente um livro e daí me ter voltado a deliciar com esta escrita como se estivesse a ler o livro pela primeira vez. Escusado será acrescentar que gostei pois sou um apreciador desta escrita diarística deste grande escritor português. 

Por exemplo sobre quem lê e quem não lê escreve o autor a dado passo:
   -  Detesto absolutamente os livros deste tipo.
   -  Quais leu?
   -  Essa tem graça. Como queria você que eu os lesse, se os detesto? 

Com a mulher (Regina) e o filho (Gilo), em 1970