sábado, 11 de junho de 2011

A GREVE DOS MAQUINISTAS DA CP














A greve dos maquinistas da CP é uma situação que parece arrastar-se ad aeternum, e nem mesmo o facto de a que estava prevista para todo este mês de Junho ter sido desconvocada à última da hora, deixa de ser uma situação que merece uma reflexão.



No entanto não será, honestamente, uma situação fácil de ajuizar (nem é esse o meu propósito), sobretudo para quem está de fora e não conhece os meandros de todo este imbróglio; contudo o que aqui me proponho trazer é o que julgo ser também o pensamento da maioria das pessoas e sobretudo daqueles que são mais penalizados com este eterno impasse, nomeadamente os utilizadores do "cavalo de ferro".



É efectivamente um caso, esta misteriosa/enigmática/secular/impopular greve dos maquinistas da CP.

É algo que me põe a pensar, e que tenho cada vez mais dificuldade em compreender, já que é uma situação inoperante que se arrasta há quase ou mais de 40 anos anos; é verdade quarenta anos, pois recordo-me perfeitamente (porque o senti e muito na pele) que no princípio dos anos 70 do século passado (que lonjura, meu Deus...), quando trabalhava na baixa lisboeta (e estudava à noite) já sentia os tremendos efeitos negativos desta "dinossaura" greve e que naturalmente tinha (e certamente continuará a ter) repercussões muito negativas sobre a vida das pessoas que diariamente, se deslocavam para trabalhar; lembro-me que muitas vezes viajei pendurado nas carruagens, pondo até em perigo a própria vida e isto sem exageros (não era ó Kim?...)

Parece ter qualquer coisa de secreto esta greve dos maquinistas da CP que acontece com uma regularidade impressionante.

Ou esta é mesmo uma luta muito difícil ou então é um agradável braço de ferro (servindo afinal os interesses não se se sabe de quem), que parece passar de pais para filhos e em que sobretudo parece imperar o egoísmo.



É uma situação que parece reflectir uma absoluta incapacidade, inoperância, incompetência dos intervenientes.



Esta empresa pública de transportes ferroviários, que tem um prejuízo de 195 milhões de euros, e em que ainda recentemente veio a público que cinco gestores têm uma frota de automóveis Mercedes cuja renda anual ascende a cerca de 55 mil euros, parece ingovernável.

domingo, 5 de junho de 2011

LIVRARIA ESPERANÇA

























Sempre que vou ao Funchal só se me for de todo impossível é que não visito este "santuário" magnífico.

Efectivamente a Livraria Esperança (na Rua dos Ferreiros) é um lugar absolutamente majestoso, histórico, fascinante, diria mesmo esmagador para quem gosta de livros.

Foi o primeiro estabelecimento no Funchal a vender livros, existindo desde 1886.


É a maior livraria de Portugal a segunda maior do Mundo -o tamanho de um estádio de futebol-.

Uma existência de mais de 189.000 livros, estando mais de 100.000 virados de capa para a frente, perfeitamente disponíveis um por um, capa por capa, sendo possível visioná-los, folheá-los porque estão -todos- ali mesmo à nossa frente a pedir que lhes toquemos, é uma sensação indescritível.


Tem um exemplar de praticamente todas as obras publicadas em português.

Quando vou ao Funchal deambulo por aqueles corredores silenciosamente cheios de livros, perco-me por aqueles milhares de páginas escritas, livros em tudo quanto é sítio e totalmente à vista e é possível folheá-los todos, um por um, porque estão absoluta e inteiramente à mão de folhear.

Sempre que lá vou encontro o livro que procuro (esgotado no continente); ainda agora encontrei um que há tanto tempo procurava (o relato de uma paixão ardente de alguém que, no seu tempo, teve a ousadia de se dedicar à escultura e que por via dessa originalidade visionária "passou as passas do Algarve" e por isso morreu num asilo após um internamento de quase trinta anos; mas isso será uma conversa a seu tempo e em "su-sítio").

Impressionante esta LIVRARIA ESPERANÇA, para quem gosta de livros (e não só).


Um monumento ao livro!

terça-feira, 31 de maio de 2011

O POPULISTA




Não compreendo a reacção de crítica e contrária do Bastonário da Ordem dos Advogados, Dr. Marinho Pinto, perante a decisão JUSTÍSSIMA (na minha modesta opinião) do juiz que determinou a prisão preventiva dos dois jovens envolvidos na bárbara, cobarde, desumana e cruel agressão da menor, junto ao C.C.Colombo.



Fiquei absolutamente desiludido, com um homem que até agora me parecia um indivíduo racional e justo, por esta opinião absolutamente desadequada do que é a justiça face à maneira de estar e de ser das nossas gentes!



Afinal a montanha pariu um rato, neste caso pariu um populista.



É por esta e por outras (semelhantes) é que a nossa justiça está como está.......

sexta-feira, 27 de maio de 2011

CALACEIROS





Levantaram-se os "donos" de Portugal, e não só, quando José Saramago se referiu ao facto de não ver com maus olhos uma união ibérica.





Mas porventura as mesmas pessoas que na altura se levantaram, agacharam-se agora, aplaudindo até, as afirmações da chanceler alemã Ângela Merkel, quando se referiu aos Portugueses como uns "calaceiros/preguiçosos/mandriões" que têm dias de férias a mais e que ganham mais para aquilo que fazem.





Porque é que, entre outras coisas, ninguém lhe recorda que a União Europeia pagou para que em Portugal não se produzisse, destruindo a produção portuguesa, podendo assim aumentar as exportações do seu país e os lucros dos seus bancos.





Será por isso que a Alemanha, se acha agora dona de Portugal e da Europa?

domingo, 22 de maio de 2011

BANDEIRAS



Aquando da recente conquista da última Liga Europa, na final disputada na passada quarta-feira, dia 18 do corrente mês de Maio, após o apito final, à chegada da equipa do F.C.Porto e durante as comemorações nas ruas daquela bela cidade Invicta, impressionou-me o facto de quase todos os jogadores do F.C.Porto trazerem pelos ombros a bandeira do seu país.


No entanto, o que mais impressionou não foi verdadeiramente o facto de ver as bandeiras de quase todos os países da América do Sul (mais uma de Cabo Verde e pelo menos outra da Roménia) mas sim não ver uma única de Portugal, ou seja a do país que afinal ganhou a taça.................. nem um jogador a trazia.



Confesso que me senti muito desconfortável.

sábado, 21 de maio de 2011

MÚSICAS NA MINHA VIDA - II

Não sei se será propriamente uma das músicas da minha vida mas esta é efectivamente uma canção que faz parte do meu imaginário.


Dalida sempre me pareceu uma mulher misteriosa e nem mesmo no dia em que ela se suicidou o mistério acabou.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

FEBO

Quando aqui falei sobre “os cães na literatura” não vos falei de Febo mas, porque se trata de uma história abominável e ao mesmo tempo sedutora, não quero nem posso deixá-la para trás.

Febo, o cão de que nos fala o grande e controverso escritor italiano Curzio Malaparte (1898-1957), no seu livro “A PELE”.

Refira-se que Curzio Malaparte era secretário da secção local da juventude do Partido Republicano; aos dezasseis anos rebenta a guerra de 14 (a 1ª. Grande Guerra Mundial), sai de casa, atravessa a fronteira e alista-se numa legião de voluntários para combater os Alemães. É deportado para a ilha Lipari e é a partir daqui que nos conta a história do seu cão Febo.

Durante os dois últimos anos de detenção, Febo está com ele e acompanha-o a caminho de Roma no primeiro dia da libertação.

Um dia, em Roma, Febo desaparece.

Após uma busca árdua, Malaparte fica a saber que, capturado por um marginal, foi vendido a um hospital para satisfazer experimentações médicas. Encontra-o vivo“estendido de costas, ventre aberto, uma sonda espetada no fígado”. Nenhum gemido sai da sua boca, pois, antes de os operarem, os médicos cortavam as cordas vocais a todos os cães. Por simpatia por Malaparte, o médico administra a Febo uma injecção mortal.

“Nunca gostei de uma mulher, um irmão, um amigo como gostei de Febo”

quarta-feira, 11 de maio de 2011

POR ONDE ANDEI EM 2010 - X

Cornish, uma localidade com cerca de 1 700 habitantes, situada nas margens do rio Connecticut, tem duas mercearias, um posto de correio, uma igreja e vários quilómetros de pinheiros, carvalhos, terra arável e colinas suaves. Há muito que é um reduto de férias para artistas e escritores, um refúgio solitário no meio da floresta. e foi aqui que descobri J. D. Salinger, falecido aos 91 anos, em Janeiro de 2010.



J.D.SALINGER (na foto) foi um dos mais misteriosos escritores norte-americanos, um feitio muito parecido com o do nosso Miguel Torga, e foi com ele (J.D.SALINGER) que fui à descoberta do seu mais célebre romance “UMA AGULHA NO PALHEIRO”, publicado pela primeira vez em 1951, talvez a mais marcante obra de J. D. Salinger, e uma das mais controversas da história da literatura norte-americana após a II Guerra Mundial.



Esta obra foi constantemente censurada e banida das escolas, livrarias e bibliotecas dos EUA devido ao seu conteúdo profano, à abordagem que faz do sexo e à forma como rejeita alguns dos ideais americanos.


O livro conta as aventuras de Holden Caulfield, um rapaz de 16 anos, que ao ter de deixar o colégio interno que frequenta, mas receoso de enfrentar a fúria dos pais, decide passar uns dias em Nova Iorque até começarem as férias de Natal e poder voltar para casa.


Confuso, inseguro, incapaz de reconhecer a sua própria sensibilidade e fragilidade, Holden percorre nesses dias um intrincado labirinto de emoções e experiências, encontrando as mais diversas pessoas, como taxistas, freiras e prostitutas, e envolvendo-se em situações para as quais não está preparado. Pareceu-me, na minha modesta opinião, um livro bem escrito.


Estamos em Novembro de 2010 e na minha rota segue-se Marrocos e viajo mais uma vez no tempo, até 1578 e dez mil guitarras jazem ao abandono no campo de batalha de Alcácer-Quibir. D. Sebastião desapareceu. Morto ou vivo? Há quem espere por ele... É isto que me oferece CATHERINE CLÉMENT no seu último romance “DEZ MIL GUITARRAS”., e ainda uma uma truculenta galeria de retratos de uma Europa em mutação: o peso dos Habsburgo, a violência das guerras religiosas, a loucura do Imperador da Áustria, a rebelião da jovem rainha Cristina da Suécia e a sua paixão por Descartes. Apesar do interesse do tema versado a escrita deste romance é (para mim) "pastosa", lenta, arrastada e não me cativou para futuros livros desta autora.



A meio do mês de Novembro vou depois ao encontro de Nelson Mandela mas disso vos darei conta na próxima crónica destas minhas andanças pelo Universo e pelas diferentes eras, sempre através dos livros que li em 2010.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

LUÍS AMARO - VELHO DIÁRIO DE INFÂNCIA

Já aqui tive ocasião de prestar a minha homenagem ao meu amigo e poeta Luís Amaro, que completa hoje mais um aniversário.


Luís Amaro - um homem que toda a vida fez bem mais pelos livros dos outros do que pelo seu desejo de escrever. Sempre foi de uma dedicação e entrega às obras dos outros, essa entrega e reconhecimento está guardada para sempre nos arquivos da Biblioteca Nacional onde em dezenas de caixas foi sendo entregue ao longo dos anos todo o acervo epistolar de Luís Amaro com Ruy Belo, Jorge de Sena, Régio, Gaspar Simões, Vergílio Ferreira, Sebastião da Gama e tantos outros, e imensos originais importantíssimos para conhecer melhor a obras de muitos dos nossos escritores e artistas.







Natural de Aljustrel, veio muito cedo para Lisboa e são dessa época estes seus versos, então publicados na revista SEARA NOVA, quando tinha apenas 20 anos; muitos entretanto passaram...

Não lhe pedi autorização para aqui os publicar mas sei que ele não me vai levar a mal apesar de ser um homem nada dado a este tipo de homenagens. A sua postura sempre foi a de passar despercebido, sempre a servir os outros e nada pedindo para si. É um amigo de sempre, para sempre!


VELHO DIÁRIO DE INFÂNCIA

I

Quando cheguei
Parecia-me ir morrer…
Atrás de mim uma sombra,
Um pesadelo e um grito,
Diante de mim – o incerto…

E só! E sem conhecer ninguém!
O comboio trouxera-me num domingo chuvoso
E triste (mesmo que o não fosse, era-o em mim)

Ia começar mais uma aventura.

Naquela cidadezinha,
Tão diferente da que deixara
-Melancólica e sombria, tumular –
Vivi horas boas e horas más,
Horas mais negras do que claras,
Porque mesmo das que eram aparentemente boas
Eu desconfiava, não as acreditando.

Mas, à medida que o tempo rolava,
Até essa falsa aparência se esvaía.
E, por fim,
Já não tinha uma ilusão para pôr no olhar,

-Com tantas horas negras eu já não podia!

Agora conhecia muita gente,
Mas, quanto mais gente conhecia,
Maior era a minha ânsia de evasão:
Por isso me encerrava no quarto
Aguardando a vinda dum sonho

….E esquecia!




II

Mas a companhia de mim
Já me pesava também,

E, então,
Na maré da minha dor,
Feita de cansaço e febre,
Minha doentia imaginação
Voejava…

Espectros antigos vieram
À chamada
Dos meus sentidos doentes.

E perdi-me de mim mesmo
No atalho
Tristíssimo, duma complexa neurastenia,

Domingos de sol claro
-O mais vibrante sol que inda vira!
Lá fora o sol e a volúpia
De vivê-lo e amá-lo…

E a noite em mim, sempre a noite.

domingo, 1 de maio de 2011

OS LIVROS DA MINHA VIDA - III

" A LÃ E A NEVE" romance de Ferreira de Castro publicado em 1947, que relata a proletarização nas fábricas têxteis da Covilhã, mostrando a dura realidade da vida do povo, através do relato de Horácio, um pastor da Serra da Estrela que pretendeu melhorar a vida, após ter tomado contacto com outras realidades durante o serviço militar.

A Lã e a Neve, tem como grande figura moral e personagem central o velho anarquista Marreta.

A LÃ E A NEVE é, depois da SELVA, o mais traduzido romance do autor. E foi a SELVA que lhe granjeou grande fama internacional, sendo traduzido em várias línguas.

As obras de Ferreira de Castro encontram-se traduzidos em vários idiomas.

Ferreira de Castro nasceu no seio de uma família pobre.

Os estudos de Ferreira de Castro foram apenas os primários. A ida para a escola e as primeira impressões colhidas do mundo exterior, são confessadas nas suas MEMÓRIAS, e, pela memória que nos poderá a nós trazer, não resisto a transcrever: - Era de Inverno. Ia de chancas, friorento, enroupadito. Creio que foi minha mãe quem me acompanhou até meio do caminho. Não me recordo bem. Mas lembro-me, nitidamente, da minha entrada na escola. Lá estava, ao fundo, a secretária, instalada sobre um estrado, o Sr. professor Portela. Era gordo e de carne muito branca e fofa. No primeiro plano, as carteiras com os alunos chilreantes. Alguns conhecia-os cá de fora. mas tomavam, ali, para a minha timidez, o papel de inimigos........

Da LÃ E A NEVE, um romance absolutamente arrebatador, aqui vai um pequeno excerto: Os homens passavam os dias e as noites dentro das fábricas só saindo aos domingos, para esquecer o cárcere. Já não viam as ovelhas, nem ouviam os melancólicos tanger dos seus chocalhos nos pendores da serra, ao crepúsculo; viam apenas a sua lã, lã que eles desensugavam, cardavam, penteavam, fiavam e teciam, lã por toda a parte......

Ferreira de Castro é um enorme, imenso escritor português, nascido em Salgueiros da freguesia de Ossela, Oliveira de Azeméis. Faleceu no Porto, aos 76 anos de idade, em 29 de Junho de 1974. É hoje um escritor injustamente esquecido e muito menos lido. Mas acreditem que vale a pena ler Ferreira de Castro!

terça-feira, 26 de abril de 2011

MÃE

Foste uma Mãe!

Uma vida intensa de trabalho, de sacrifício, como foram sempre as vidas das nossas mães.

Em Abril nasceste, Abril viveste, em Abril morreste.

Sempre tudo deste e nunca nada para ti quiseste.

Uma vida de intensa solidariedade!

Uma saudade imensa me invade quando relembro o teu olhar melancólico, o teu olhar triste o teu olhar de Mãe.












Obrigado Mãe.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

FMI












"... os portugueses comuns (os que têm trabalho) ganham cerca de metade (55%) do que se ganha na zona euro, mas os nossos gestores recebem, em média:

- mais 32% do que os americanos;
- mais 22,5% do que os franceses;
- mais 55 % do que os finlandeses;
- mais 56,5% do que os suecos" (dados de Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 24/10/09).

No entanto, parece que para a vampiragem, onde naturalmente se inclui o famigerado FMI, a única e principal preocupação é a de manter os salários de quem trabalha o mais baixo possíveis, é reduzir em 12 meses o apoio ao desemprego, é "congelar" o salário mínimo nacional; em suma é tornar mais difícil a vida de quem trabalha ou seja daqueles que já a têem tão difícil.

sábado, 16 de abril de 2011

O CÃO

O único ser que nunca a abandonou e decidiu morrer ao seu lado, foi o seu cão; este foi um facto que aqui já citado, quando abordei a SOLIDÃO. E é a propósito dos cães, mais precisamente sobre os cães na literatura, que hoje me proponho salientar algumas passagens de livros que falam sobre o fiel amigo (que bela e correcta designação). Na "ODISSEIA" de Homero (séc. IX-VIII a.c. ; "Odisseia" conta as aventuras do herói Ulisses, no seu regresso à ilha de Ítaca, depois de ter corrido o mundo) Ulisses, depois do longo exílio, volta a Ítaca disfarçado de mendigo, e é reconhecido apenas por Argos, o seu cão, já bem velho, sem forças para fazer mais do que abanar o rabo ao reencontrar o dono. Ulisses então chora, e as lágrimas provocadas pela saudação de Argos dão a medida da cumplicidade que parece possível apenas entre cães e homens. Nem mesmo Posêidon, com a sua fúria e poder, havia conseguido fazê-lo chorar. O belga Maeterlink (1862-1949), dramaturgo, poeta e ensaísta de língua francesa, e principal expoente do teatro simbolista: “Ele é o único ser vivo que encontrou e reconhece um deus incontestável, tangível, irrecusável e definitivo. Ele sabe a quem dedicar o melhor de si, sabe a quem se dar acima de si mesmo. Ele não precisa buscar uma força perfeita, superior e infinita nas trevas, as mentiras sucessivas, as hipóteses e os sonhos”. Napoleão (1769-1821), no "Memorial de Santa Helena", conta que percorreu um campo de batalha em Itália do qual os mortos ainda não haviam sido retirados. Um cachorro está ao lado do cadáver de seu dono, geme, lambe-lhe o rosto. "Nunca nada, em nenhum dos meus campos de batalha, me impressionou tanto", declara Napoleão, que afirmou, aliás, que a morte de um milhão de homens não era nada para ele. "Eu havia, sem emoção, ordenado batalhas, que deveriam decidir o futuro do exército; havia visto, com o olho seco, serem executados movimentos que levariam à perda de muitos entre nós; e aqui eu ficava emocionado, ficava perturbado pelos gritos e pela dor de um cão!...". O cão é uma personagem frequente nos romances de José Saramago (1922-2010). É o caso do cão que lambia as lágrimas no "Ensaio sobre a Cegueira" ou das aparições do vira-lata na "História do Cerco de Lisboa" como no trecho a seguir: "O cão não se movera, apenas deixara descair a cabeça, o beiço rente ao chão. As costelas salientes, como de cristo crucificado, tremem-lhe nos encaixes da espinha, este animal é um rematado idiota, com a teima de viver nas Escadinhas de S. Crispim onde tem passado fomes de rabo, desprezando as abundâncias de Lisboa, Europa e Mundo (...)". Não esquecendo o Nero dos "BICHOS" de Miguel Torga que entrava pela cozinha e se ia deitar, junto ao lume, entre os braços balofos da sua Dona Sância.......

segunda-feira, 11 de abril de 2011

UMA ACTRIZ DE CINEMA - I

A par de Bette Davis, Vivien Leigh e Meryl Streep, a italiana Giulietta Masina (1921-1994), será provavelmente uma das quatro maiores actrizes do cinema, de sempre. Foi a musa inspiradora dum dos maiores realizadores de cinema, Frederico Fellini, que foi seu marido e a cuja morte não resistiu, pois morreu poucos meses depois dele. Giuleta Masinna foi uma actriz verdadeiramente arrebatora e filmes como a ESTRADA, NOITES DE CABÍRIA, entre outros, são absolutamente inesquecíveis. Mesmo quem não goste muito de cinema e veja uma interpretação desta actriz, num qualquer dos seus filmes, fica de imediato agarrado ao seu desempenho; em todas as áreas da cultura há pessoas que nasceram com um determinado dom, seja na música (Mozart), seja no futebol (Maradona), seja no teatro (Laurence Olivier), seja na declamação (Vilarett), seja na comédia (o nosso António Silva) seja no Fado (Amália). No Cinema Giuleta Masinna nasceu para ele.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

POR ONDE ANDEI EM 2010 - IX

Estamos em Outubro (2010). conheço o Dr. Adolfo Coelho da Rocha, que se consagrou na literatura portuguesa com o pseudónimo de MIGUEL TORGA (na foto, de guarda chuva), e é com ele que vivi, por volta de 1940, as aventuras de um Indiana Jones português na China. Efectivamente é com o SENHOR VENTURA, um português de Penedono, uma aldeia do abrasador Alentejo, que na aventura da sua existência deixa para trás os seus pais, a sua casa, que percorro meio mundo. Retomo à I Guerra Mundial e assisto, com REBECCA WEST, a O REGRESSO DO SOLDADO, vindo da linha da frente, com um trauma que lhe varreu a memória dos últimos quinze anos, e encontra as mulheres do seu passado.Uma delas é Kitty, a sua mulher, fria, elegante e bela. Outra, a sua dedicada prima, Jenny, que nunca chega a admitir que está apaixonada por ele. A terceira é Margaret, o seu primeiro amor e que é agora uma mulher maltratada pela vida, de modos quase rudes e corpo pesado. Lembra-se da prima como amiga de infância, não tem qualquer memória da esposa e está ligado à sua juvenil paixão por Margaret WALTER HUGO MÃE (em duplicado, na 2ª. foto), o escritor português (de Caxinas) que escreve só em minúsculas e me mostra A MÁQUINA DE FAZER ESPANHÓIS, e a primeira máquina com que me deparo é um lar de idosos, com o habitual nome eufemístico – Lar da Feliz Idade – e uma espécie de funcionamento para a morte. O número de residentes é fixo (93), as camas só vagam quando alguém morre, e por isso impera uma rotatividade que começa com a entrada para um dos melhores quartos (em frente ao jardim onde passam crianças) e termina na ala esquerda (com vista para o cemitério, em mórbida antecipação do fim).É a este mundo opressivo que chega, ainda atropelado de dor pela morte da mulher (Laura), o protagonista principal: António Silva, 84 anos, antigo barbeiro com problemas de consciência que nem o tempo foi capaz de sarar. Ele de início recusa a vida colectiva da casa, mas depois integra-se num grupo de homens palradores, quase todos partilhando o seu apelido, portugueses de gema que passam os dias a discutir justamente o que é isto de ser português, sobretudo quando todos levaram com quase meio século de fascismo em cima. Sigo depois para a República Dominicana para me encontrar com um dos seus mais jovens escritores, EDUARDO HALFON que, com O ANJO LITERÁRIO, faço uma pesquisa apaixonante sobre a literatura e o processo criativo dos autores. e o próprio processo da sua escrita. Através d O ESPELHO QUE FOGE pertença de GIOVANNI PAPINI fico a saber que:

-o segredo da vida está na morte -o segredo da luz está nas trevas -o segredo do bem está no mal -o segredo do sim está no não Deixo Itália e percorro novos caminhos que me levarão a procurar uma agulha num palheiro nas longínquas paragens dos EUA mais precisamente para Cornish, uma localidade com cerca de 1 700 habitantes, situada nas margens do rio Connecticut, tem duas mercearias, um posto de correio, uma igreja e vários quilómetros de pinheiros, carvalhos, terra arável e colinas suaves.

Há muito que é um reduto de férias para artistas e escritores, um refúgio solitário no meio da floresta mas isso fica para a próxima, de modo a continuarmos a procurar uma agulha num palheiro com esse solitário J.D. Salinger, recentemente falecido.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O SABER NÃO OCUPA LUGAR


O meu amigo VV enviou-me esta deliciosa prosa, sobre a língua "perteguesa" e sei que não se importará que eu a dê a conhecer a todos (se calhar até a maioria até já conhece).... e no dia de hoje, nada melhor

PRONTUS - Usar o mais possível. É só dar vontade e podemos sempre soltar um 'prontus'! Fica sempre bem
NÚMARO - Também com a vertente 'númbaro'. Já está na Assembleia da República uma proposta de lei para se deixar de utilizar a palavra NÚMERO, a qual está em claro desuso. Por mim, acho um bom númaro e se for acompanhado do Amaricano, tanto melhor
PITAXIO - Aperitivo da classe do 'mindoím'.
ALEVANTAR - O acto de levantar com convicção, com o ar de 'a mim ninguém me come por parvo!... alevantei-me e fui-me embora!'
AMANDAR - O acto de atirar com força: 'O guarda-redes amandou a bola para bem longe'
ASSENTAR-O acto de sentar, só que com muita força, como fosse um tijolo a cair no cimento.
CAPOM - Tampa de motor de carros que quando se fecha faz POM!
DESTROCAR - Trocar várias vezes a mesma nota até ficarmos com a mesma.
DISVORICADA - Mulher que se diz por aí que se vai divorciar.
É ASSIM... - Talvez a maior evolução da língua portuguesa. Termo que não quer dizer nada e não serve para nada. Deve ser colocado no início de qualquer frase. Muito utilizado por jornalistas e intelectuais.
ENTROPEÇAR - Tropeçar duas vezes seguidas.
ÊROS - Moeda alternativa ao Euro, adoptada por alguns portugueses.
HÁ-DES - Verbo 'haver' na 2ª pessoa do singular: 'Eu hei-de cá vir um dia; tu há-des cá vir um dia...'
INCLUSIVER - Forma de expressar que percebemos de um assunto. E digo mais: eu inclusiver acho esta palavra muita gira. Também existe a variante 'Inclusivel'.
MÔ - A forma mais prática de articular a palavra MEU e dar um ar afro à língua portuguesa, como 'bué' ou 'maning'. Ex.: Atão mô, tudo bem?NhaAssim como Mô, é a forma mais prática de articular a palavra MINHA. Para quê perder tempo, não é? Fica sempre bem dizer 'Nha Mãe' e é uma poupança extraordinária. Lol também está na moda.
PARTELEIRA - Local ideal para guardar os livros de Protuguês do tempo da escola.
PERSSUNAL - O contrário de amador. Muito utilizado por jogadores de futebol, nomeadamente pelo tal do forno interno do clube.. Ex.: 'Sou perssunal de futebol'. Dica: deve ser articulada de forma rápida.
QUÉSSE DEZER - linguagem futebolesa que, por vezes, acompanha o alevantar da cabeça (no balneário diz-se alevantar a cachola)
STANDER - Local de venda. A forma mais famosa é, sem dúvida, o 'stander' de automóveis. O 'stander' é um dos grandes clássicos do 'português da cromagem'...
TIPO - Juntamente com o 'É assim', faz parte das grandes evoluções da língua portuguesa. Também sem querer dizer nada, e não servindo para nada, pode ser usado quando se quiser, porque nunca está errado, nem certo. É assim... tipo, tás a ver?
TREUZE - Palavras para quê? Todos nós conhecemos o númaro treuze.

domingo, 27 de março de 2011

RÁDIO/A ILHA DOS TESOUROS

Não teria mais de três/quatro anos e parece que estou a ver o meu pai a entrar em casa e a dizer-nos (à minha mãe e a mim): acreditam que vos trago uma "caixa" que "fala"..... Era o primeiro rádio que entrava em nossa casa, estaria no final dos anos cinquenta, do século passado. Era um GELOSO (marca italiana), que ainda conservo.

Os campeões mundiais de Hóqueis em Patins em Montreux, o Alves Barbosa e o Pedro Polainas, da Volta a Portugal em Bicicleta, os leões Vasques e o Travassos dos Cinco Violinos, Marino Marini, Alberto Ribeiro, Joselito, Maurice Chevalier, Amália Rodrigues, o inesquecível João Villaret, os discos pedidos no programa do Artur Agostinho "O que deseja Ouvir" as paródias do Zequinha e Lelé, o problemático casal de namorados interpretado por Vasco Santana e Irene Velez no programa de Igrejas Caeiro, "Os Companheiros da Alegria", "A Parada da Paródia" dos Irmãos Ruy e José Andrade, que mais tarde se transformará nos Parodiantes de Lisboa, etc. etc., são sons que ainda conservo no sub-consciente.


Eu e a minha mãe ouvíamos diariamente (num melodioso e divino silêncio) os sons que ainda agora nos acompanham, como se lêssemos um livro, como se viajássemos num zepelin, como se se navegássemos num mar azul e calmo.....tempos puros, tempos com luz, tempos com sons e com cheiros....enfim, tempos diferentes, tempos com tempo!

A rádio sempre foi uma paixão, muito mais do que a televisão.

Vem isto a propósito dum programa que passa na Antena 1, todos os sábados, entre as 8h00 e as 9h00 da manhã. É A ILHA DOS TESOUROS, do Júlio Isidro. Uma verdadeira pérola, tanto pela música que passa como pelos textos que o Júlio Isidro vai lendo, uma autêntica maravilha.
Apesar da hora tão matinal (para um sábado) tento não perder um, porque é como se o ouvisse naquele rádio da minha infância.

Já aqui falei neste blogue sobre a admiração que tenho pelo profissional que é Júlio Isidro, um autêntico homem da rádio, uma pequena maravilha num país que julgo não o merecer. Como é possível programar-se este TESOURO para as oito horas da manhã dum sábado, em que àquela hora a maioria das pessoas ainda estará a descansar; o “rei verde” deu cabo disto tudo…. os tempos são mesmo diferentes
.... (para o melhor e para o pior, claro).

Se puderem não percam e oiçam este belo programa que é A ILHA DOS TESOUROS, vale bem a pena.

terça-feira, 22 de março de 2011

POR ONDE ANDEI EM 2010 - VIII

O ano de 2010 já se alongava e, tal como na crónica anterior sobre estas minhas viagens pelos livros que li no ano passado, foi no mês de Agosto que recuei à idade média e com Thomas Mann e conheci a lenda do santo que, nascido do pecado do incesto, chega a Papa depois de anos de penitência. A lenda de Gregório faz a alegoria dessa contradição ao narrar uma epopéia inteiramente fundada no incesto.
O rei e a rainha de Flandres tentam há anos produzir um herdeiro, inutilmente. Fazem suas preces. Finalmente a rainha dá à luz um casal de gêmeos, mas não sobrevive ao parto. "Nós nascemos da morte", dirá o irmão à irmã, anos mais tarde, ao seduzi-la.Os gêmeos crescem e, com a morte do pai (que por sua vez já nutria sentimentos incestuosos em relação à filha), não resistem mais ao desejo que sentem um pelo outro.
A irmã fica grávida do irmão e dá à luz um menino.
O irmão, ao mesmo tempo pai e tio da criança , sai pelo mundo em busca de penitência e morre. A criança é jogada ao mar num barril, acaba sendo salva por pescadores e é criada por um abade numa ilha remota.
Aos dezessete anos, ao descobrir sua verdadeira origem, o rapaz, agora chamado Gregório, sai à procura dos pais, com a idéia fixa de poder perdoá-los para também encontrar a salvação. .........

Recuo mais uns anos, ao princípio do séc. XX. e vou "aterrar" numa pequena localidade dos EUA, WINESBURG, OHIO e com SHERWOOD ANDERSON (na foto) fico a conhecer Winesburg, Ohio, um vivo retrato de uma pequena povoação da América profunda, aonde Sherwood me apresenta o jovem George Willard, um repórter do jornal local a quem os habitantes da povoação confidenciam as suas esperanças, sonhos e medos e fico a conhecer a vida íntima de figuras estranhas e comoventes marcadas pelo desassossego e pela solidão.
Viver nesta localidade é como olhar os quadros de Edward Munch que são autênticos retratos da classe média norueguesa na viragem do século IXX/XX; fixem bem O GRITO (na foto) e o que ele esconde -a pressão ou torsão psicológica sob a aparência social. Este quadro é verdadeiramente assombroso. Ainda não não há muito tempo andou desaparecido, roubado em Agosto de 2004 do Museu Munch, em Oslo, mas já recuperado.


Viajo depois até à Finlândia e, de novo, com ARTO PASSILINNA fico a conhecer AS DEZ MULHERES DO INDUSTRIAL RAUNO RAMEKORPI, das quais não retenho mais do que as suas solitárias vidas neste misterioso e nebuloso país.

Ainda com o calor de Agosto, às portas de Setembro, é com RICHARD ADAMS que passo tardes inteiras a ouvir a sua história ERA UMA VEZ EM WATERSHIP DOWN - história de um bando de coelhos que escapam à destruição da sua comunidade, e das tribulações e triunfos que viveram face a extraordinárias adversidades ao aventurarem-se em busca de um novo lar.


Entra Setembro e FERNANDA PRATAS relata-me A VIDA DAS PALAVRAS e curiosamente, muitas das personagens que me são apresentadas morreram do coração. Atravessaram guerras, abraçaram ideais, revoltaram-se, participaram, desiludiram-se. De uma forma ou de outra, os seus percursos atormentados aproximaram-nas do essencial. Pude segui-los linha a linha nos livros e documentos que deixaram. Por exemplo, Patricia Highsmith associava a escrita ao prazer, que incluía também cigarros, café, bolinhos. Charles Dickens estabeleceu para si uma disciplina rígida, separando as intensas horas a escrever dos momentos de lazer com que tentava apaziguar demónios interiores. Alberto Moravia começou por escrever na cama, com o tinteiro aninhado sobre os lençóis. Sommerset Maugham trabalhava de preferência diante de uma parede branca. Marina Tsvetaeva escrevia a qualquer mesa, em qualquer lugar. Tal como John Steinbeck, que chegava a trabalhar dez horas por dia numa escrivaninha qualquer. Isaac Asimov matraqueava as teclas da sua máquina de escrever a uma velocidade imbatível, desde madrugada até à noitinha. Fiódor Dostoiévski até numa prisão na Sibéria tomou notas que depois converteu em romance. E Oscar Wilde escreveu também na prisão, entre trabalhos forçados.

Setembro está quase no fim, as chuvas estão a chegar, é tempo de demandar outras paragens e percorrer meio mundo e viver as aventuras de um Indiana Jones português, conduzidos pelo médico Adolfo Correia Rocha (não é este o nome com que assina os seus livros e pelo qual se tornou um autor de grande dimensão na literatura portuguesa já que o nome que adoptou é presudónimo, facto que, se calhar, muitos dos seus leitores desconhecerão) .

Até breve

quinta-feira, 17 de março de 2011

TELE/JORNAIS

Na copa/bar, que ainda existe no edifício do meu local de trabalho, é efectuado diariamente o recarregamento das máquinas (café, açúcar, chá, etc..) e o jovem brasileiro que o faz dizia-me hoje, citando até uma passagem da bíblia (que não retive), a propósito dos tempos que correm e da palavra mais usada actualmente neste país – CRISE-, que temos de ter esperança, as pessoas não podem andar tão assustadas e até melancólicas, nem a falar só da crise, como (ele) verifica que passaram a andar de há uns tempos para cá. Sabe uma coisa, insistia ele: o maior culpado do acabrunhamento e da preocupação do país e das pessoas são os meios de comunicação social, nomeadamente a televisão.

Efectivamente, ver, dia após dia, o telejornal é meio caminho andado para o desespero e para a depressão ….....isto sem exagero, é mesmo um autêntico massacre. Só falta o telejornal ter um comentador de economia a abrir a emissão diariamente: Medina Carreira.

Claro que não se poderá meter a cabeça na areia, nem passar a assobiar prós lados e fingir que nada se passa, mas o exagero terá certamente limites; é que há vida para além da crise.


Há que reagir, não se pode ficar amorfo (veja-se o que referiu o XL num seu comentário aqui neste blogue (SOLIDÃO), muito a propósito, por sinal) e esperar que o mundo nos caia em cima….ou será que aquela frase que costumava ouvir até há uns tempos atrás, com alguma regularidade, nomeadamente a certos intelectuais -SOMOS UM PAÍS DE BRANDOS COSTUMES-, e que, sinceramente, nunca consegui perceber bem o sentido nem a sua verdadeira aplicação, será, dizia eu, que esta frase (SOMOS UM PAÍS DE BRANDOS COSTUMES) terá mesmo algo de concreto e verdadeiro……

sábado, 12 de março de 2011

SOLIDÃO

Todos dizem que vivemos um tempo de desumanidade total em que já nem os vizinhos porta a porta se conhecem, é verdade, mas atenção que a crueldade dos homens já não é de hoje nem de ontem, é de sempre, só que a ocasião faz o ladrão, e estes são efectivamente tempos em que a desumanidade vem ao de cima pois são os tempos em que a generalidade das pessoas já adoptou um modo de vida que não as deixa recuar, é o tempo do rei verde (o dinheiro) que já tomou conta das nossas vidas, da nossa gente, do nosso país. E tomou conta da nossa gente porque isso nos foi imposto por esta diabólica gente de novos boys, são os boys que estão no poder e os boys que já estão à espreita (estes dizem que não têm pressa), tudo gente sem escrúpulos, comandados por Bruxelas, Merkel e similares....

É preciso levantar a cabeça, como dizem, depois duma derrota, os jogadores de futebol, e pensar, reflectir sobre esta gente que nos "governa" e quer "governar"....gente que nos explora em todas os sentidos, não só económica mas sobretudo na vertente moral e até espiritual. Gente que nos quer "despir" de todos os sentimentos nobres que o nosso povo ainda, não há muitos anos, possuía, e de que ainda conservamos alguns resquícios.

Ouvíamos e líamos nos jornais que as pessoas lá fora morriam nas ruas e ninguém sequer se dignava olhar para elas (como no gueto de Varsóvia), mas isso acontecia lá longe do nosso país, mas agora este "american way of life" já tomou conta da nossa terra e vai ser difícil arredar das nossas gentes estes novo hábitos, trazidos com a globalização, e que a todo o custo nos querem impôr.

Que maior prova de solidão e que maior prova do que são os tempos (gélidos) que vivemos do que aquela senhora ali para os lados de Mem Martins que só a fim de nove anos depois de morta foi descoberta e tendo a seu lado o seu único amigo, que nunca a abandonou - o seu cão-!

Os três últimos casos da morte de idosos em casa, e só descobertos muitos anos depois é sintomático desta maldita globalização (em todos os piores sentidos) que tomou conta das nossas gentes.

E quantos casos idênticos teremos ao nosso lado sem que os vejamos ou, quiçá, que os queiramos ver....

Solidão não é viver num monte longe da "civilização", solidão é viver numa cidade de milhões, rodeado de pessoas por todos os lados mas em que ninguém repara, solidão é viver num prédio de cinco/seis/sete andares onde ninguém se conhece, onde quase que nem os bons dias as pessoas dão quando entram num elevador. Quantas vezes eu entro num qualquer elevador da cidade de Lisboa, ou arredores, digo bom dia e tudo fica mudo e como siderado a olhar para mim (certamente a questionar-se - será um Marciano???)

Esta desumanidade que parece ser irreversível é obviamente preocupante e todos já pensámos certamente que um dia nos poderá tocar; a qualquer um......

segunda-feira, 7 de março de 2011

POR ONDE ANDEI EM 2010 - VII

"Balanceando" ainda 2010, através dos livros que li, e depois de o psicoterapeuta norte-americano Irvin D. Yalom me ter deitado no divã e me ter contado alguns enredos tenebrosos, divertidos e imprevisíveis, o alemão HERMAN HESSE apresenta-me o poeta popular KNULP, um vagabundo em eterno movimento, e conta-me as suas deambulações pelo mundo até ao regresso à terra natal, fisicamente já bastante debilitado por muitos anos de vagabundagem. Contempla o passado e aquilo que poderia ter sido.

Tal como no nosso Alentejo, também na Finlândia o suicído é como que um desporto. É isso que compartilha comigo o finlandês ARTO PASSILINNA n UM APRAZÍVEL SUICÍDIO EM GRUPO e me apresenta Onni Rellonen, um pequeno empresário em crise que decide acabar com a vida. Mas eis que, quando, de pistola no bolso, se aproxima de um celeiro isolado, local ideal para uma morte tranquila, depara com uma estranha cena, e, no último momento, consegue salvar um outro candidato ao suicídio já com um nó corrediço apertando em volta do pescoço. É o coronel Kemppainen, um inconsolável viúvo que escolhera igualmente aquele luminoso solstício para pôr fim à vida. Acabam por encontrar o local ideal em Portugal, uma falésia junto à Fortaleza de Sagres.

Com o prémio Nobel de 1929, THOMAS MANN n O ELEITO, fico a par da refundição da lenda de São Gregório, o Édipo cristão, outrora fixada por Hartmann von Aue numa epopeia medieval. Nascido do incesto, recai no pecado como no vício, e após longa penitência chega a Papa.

E já vai o ano de 2010 para além do terceiro terço quando regresso aos princípios do séc. XX e me apresso a viajar para Ohio (EUA) mas disso vos darei conta na próxima etapa deste longo balanço. Isto se ainda não se aborreceram e tiverem pachorra para comigo viajarem no tempo e pelo mundo, conhecendo novas mentes, novas caras, novos caminhos, novas gentes.

quarta-feira, 2 de março de 2011

BAIRRO DO BOSQUE

Eram os tempos em que mal se iniciava o Verão os torneios de futebol de salão começavam a nascer por toda a parte (as férias eram feitas cá dentro -em casa-). Um dos torneios mais populares da linha de Sintra era o do Clube Atlético de Queluz, onde esta foto aconteceu.

Perdi o rasto à maioria destes meus amigos de infância/pré-adolescência: o treinador (à civil) não faço a mínima idéia por onde pára, destes apenas sei que o Pica (o 1º. da esquerda, em baixo) ainda mora na Rua Pedro Franco, o Mário (será Mário o seu nome?) que se lhe segue (em baixo) também não sei aonde pára; o Mário, se bem me lembro, foi um dos primeiros empregados do Café Zorba (Bairro do Bosque), pois creio ter entrado quando ele foi inaugurado, o terceiro sou eu (com 14/15 anos). Os três amigos de cima também lhes perdi o rasto, ao António, logo a seguir ao treinador, sei que andou pelos Parques Mayer´s e que foi um homem da noite mas nunca mais o vi, depois o Agostinho irmão do guarda redes (o Zé Caro sei que foi para a Força Aérea) mas também não sei onde param.

Seria bom revê-los, saber notícias deles, quem sabe se passados mais de 40 anos eles me irão aqui rever e deixar notícias....

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

POR ONDE ANDEI EM 2010 - VI

Junho (2010) já vai a meio, o calor aperta e nada melhor que conhecer mundo, Juan José Millás foi um belo cicerone mas JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS nas CONVERSAS DE ESCRITORES não deixa os seus créditos por mãos alheias e apresenta-me alguns dos seus colegas de ofício (Ian MCEwan, Luis Sepúlveda, Sveva Casati Modignani, Paulo Coelho, Miguel Sousa Tavares, Isabel Allende, Gunter Grass, Jeffrey Archer, José Saramago e Dan Brown) que para além das suas reflexões sobre a vida, o mundo e a escrita fico a saber ainda as histórias de bastidores destes encontros de José Rodrigues dos Santos com estes dez dos maiores escritores (vivos) da literatura universal contemporânea, para uma série de entrevistas na RTP em 2009.

Viajo depois no espaço e no tempo e desloco-me para o Haiti e fixo-me no séc. XVIII.

ISABEL ALLENDE (na foto) – n A ILHA DEBAIXO DO MAR centra-me no tema da escravatura - tema muito actual, considerando que ainda hoje existe em muitos países do mundo- E assim sou levado a participar nos acontecimentos que decorrem durante as quatro décadas da vida de Zarité (a voz de uma lutadora que não olha a meios para alcançar a liberdade).
Sob a égide da escravatura e da liberdade navego por mares do inconfundível realismo mágico e fico a conhecer a obra a vida dos escravos haitianos no século XVIII.
Entre plantações de cana de açúcar e uma vida de negros sem vida, fico submerso num ritmo de sensações (as deles) e sou transportados ao sítio onde convivem demónios, deuses, vivos, mortos, negros, brancos, a crueldade e ...a esperança.


Viajo depois para o gueto judaico de Varsóvia, Outono de 1940, quando os nazis encerraram quatrocentos mil judeus numa pequena área da capital da Polónia, criando uma ilha urbana cortada do mundo exterior. É RICHARD ZIMMLER n OS ANAGRAMAS DE VARSÓVIA que me conduz até aos recantos mais proibidos de Varsóvia e aos mais heróicos recantos do coração humano.

Com a psicóloga JOANA AMARAL DIAS fico a conhecer, através dos MANÍACOS DE QUALIDADE, a paranóia de Fernando Pessoa, o louco e arruaceiro rei D. Afonso VI que à noite se juntava à maior escumalha da época e saía à rua para agredir e maltratar quem encontrasse na sua frente, o psicopata e cineasta João César Monteiro, o tal que fez uma filme-subsidiado, de duas horas e tal com um pano preto a tapar a câmara, são portanto duas horas totalmente às escuras.....o Estado-limite de personalidade Marquês de Pombal, a pseudo-loucura de D. Maria I que se julgava oca por dentro e (ainda bem viva) se julgava a si mesmo morta há muito tempo, o delírio de Cotard a bipolaridade de Antero de Quental, a perturbação histrónica de Margarida Vitória e a esquizofrenia de Ângelo de Lima.

Viajando no tempo fixo-me em meados de mil e oitocentos e ANTONIO ORLANDO RODRIGUES dá-me a conhecer a liliputiana cubana CHIQUITA (26 centímetros de altura) que apesar da sua pequenez (ou talvez por isso) brilhou no vaudevile novaiorquino, parisiense e londrino. É uma vida cheia, de muitos amores, desamores, felicidades e traições.


Com IRVIN D. YALOM oiço MENTIRAS NO DIVÃ dissecar a complexidade das emoções humanas, estudando as delicadas fronteiras entre terapeuta e inquisidor, confidente e amante. Com este psicoterapeuta e professor de Psiquiatria na Faculdade de Stamford (USA) tomo conhecimento das acusações feitos a alguns terapeutas nos EUA, como por exemplo, àquele que dormiu com uma paciente (e cobrou-lhe) durante cada sessão, duas vezes por semana, ao longo de oito anos e a um outro pedopsiquiatra que foi apanhado num motel com uma paciente de 15 anos e que estava totalmente coberta com calda de chocolate.

E assim, conhecendo novas terras e novas gentes, o ano vai avançando ..........e eu a caminhar para uma Alemanha rural ............ tencionando depois voar para os EUA para uma breve conversa com um dos bons escritores do nosso tempo (Paul Auster, na foto). Até breve

sábado, 19 de fevereiro de 2011

CASTRO/SEABRA

Pessoa amiga enviou-me um texto delicioso sobre este caso ainda tão actual que não resisto a compartilhar com os meus amigos e por isso permito-me transcrever uma parte do mesmo, escrito pelo Dr. João Caupers, da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa:

- Não se lhe conhecia qualquer actividade social, intelectual, científica, artística ou política meritória ou, sequer, relevante. Era uma personagem medíocre, de cujo perfil apenas pude recolher dois traços, que alguma comunicação social considerou merecedores de referência: era homossexual e era "cronista social".

O primeiro traço deveria ser completamente irrelevante, já que emerge da liberdade de orientação sexual, que apenas a cada um diz respeito. Todavia, considerada alguma prosa que a ocasião suscitou, terá tornado a vítima mais digna de dó - vá-se lá saber porquê!

O segundo, considero-o pouco menos que desprezível: significa que a criatura "ganhava" a "vida" a escrevinhar coscuvilhices e a debitar maledicências, chafurdando nos dejectos dos socialites.


A viagem que o levou a Nova Iorque tinha um óbvio móbil "romântico", que a comunicação social preferiu apenas insinuar, não por pudor, mas porque a insinuação vende melhor do que a afirmação: tratava-se, simplesmente, de seduzir um jovem de 21 anos.

Quanto a este, também os seus motivos parecem evidentes: "pendurou-se" no idoso para, explorando as suas "inclinações", beneficiar dos seus supostos contactos internacionais, iniciando uma carreira no mundo da moda.

Estavam, pois, bem um para o outro.

Nada me interessam os pormenores abjectos que rodearam o assassinato. Deixo-os aos media, lambendo os beiços com a sordidez da história, muito melhor do que o criador de qualquer reality show poderia inventar.-

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

POR ONDE ANDEI EM 2010 - V

Depois de Isabela Figueiredo me ter revelado o seu Caderno de Memórias Coloniais, publicado quarenta depois do fim do Império, continuo hoje, em jeito de balanço, a desfiar o que, em 2010, calcorreei, quem conheci, enfim por onde andei, através dos livros que li.

Vamos a meio do ano e o escritor espanhol ENRIQUE VILA-MATAS no seu registo incomparável DIÁRIO VOLÚVEL conduz-me pela sua vida como se de uma magnífica ficção se tratasse. O humor e o insólito são, mais do que factos.

A norte-americana TONI MORRISON (Prémio Nobel da Literatura 1993-na foto de baixo-), leva-me com A DÁVIDA para a América do Norte nos finais do séc. XVII. Fala-me do racismo e das profundas divisões que, na altura, afectavam aquela parte do Mundo. Toni Morrison foi a primeira mulher negra a vencer o prémio Nobel da Literatura.


Viajo depois no espaço e no tempo, para o ano de 1883, para a paisagem fria e irreal do Inverno Islandês, e com SJÓN (islandesa nascida em Reiquiavique em 1962), seguimos o padre, Baldor Skuggason, na sua perseguição à enigmática A RAPOSA AZUL. E no momento em que o padre prime o gatilho somos transportados para o mundo do naturalista Fridik B Fririkson e da sua protegida Abba, que sofre de síndrome de Down. Quando ela foi encontrada acorrentada às vigas de um navio naufragado em 1868, Fridrik fora casualmente em seu socorro.


O espanhol JUAN JOSÉ MILLÁS diz-me que OS OBJECTOS CHAMAM-NOS – e passa por isso a apresentar-me mulheres grandes que sonham com homens pequenos. Manequins que transpiram. Frangos que chegam a casa do mercado, mas que nunca aparecem na mesa. Mentiras que se transformam em realidades inexplicáveis. Fósforos velhos que iluminam quartos antigos. Pequenos mal-entendidos que dão lugar a perguntas fundamentais... é este o mundo, entre o real e o onírico, que Juan José Millás me revela.

Estamos em Junho (2010), está calor, vou dar um mergulho....e preparar-me para aceder ao convite para uma bebida frequinha e uma breve conversa com dez dos melhores escritores actuais do universo....da qual vos darei conta em breve...até lá.....

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

COSTINHAS...

Alertado por um amigo vi/ouvi no início desta semana uma entrevista com o Director Desportivo do futebol do meu clube, o Sporting Clube de Portugal.

A dado passo desta entrevista, dizia muito realisticamente o antigo extremo direito do Benfica, o campeão europeu, Simões (depois de, muito tristemente..... ter vertido algumas lágrimas de crocodilo pela actual situação do meu clube) que em Portugal os jogadores de futebol não têm hipóteses como Directores Desportivos nos clubes de futebol.

Totalmente de acordo!


Claro que não têm, digo eu, nem terão se não arrepiarem caminho; é que os jogadores de futebol na sua quase totalidade, são de um baixissimo nível cultural, mesmo muito abaixo do nível do povo português (que já será baixíssimo), o que jamais lhes permitirá liderar projectos/homens, para além de treinador de campo. Alguém já viu um jogador de futebol (atenção de qualquer nacionalidade e não só português) a ler um livro, a folhear uma revista, um jornal (que não fosse desportivo), basta assistir à chegada aos estágios, de "phones" nas orelhas, de óculos escuros, seja de noite seja de dia (como as tias nos funerais), seja na rua seja no aeroporto, seja dentro do hotel e, quer se queira quer não, "analfabetos" só um, num milhão, terá o poder e o saber de chegar à liderança, porque todos os outros se limitarão a ouvir música (em altos berros) nos "phones" (letras que não percebem porque certamente não serão portuguesas ) e no Hotel, para além da Eurosport, vêm a TVI-a trave mestra da cultura portuguesa-!

E ouçam, escutem as declarações deles quando, depois dos jogos, questionados na "zona mista" respondem ao jornalista: - é preciso levantar a cabeça, amanhã é outro dia e já estamos a pensar no próximo jogo, é preciso levantar a cabeça, é preciso levantar a cabeça.........e o discurso não passa disto, nunca ouvi, mas nunca, ouvi dum jogador de futebol uma declaração com princípio meio e fim, com algo de imaginação, algo de diferente, é uma pobreza (para não dizer tristeza) total e completa!

Quanto ao director desportivo do meu clube, devo dizer que, apesar de pessoalmente não desgostar dele (sobretudo porque é Sportinguista (diz ele), apesar de quando jogador nunca ter manifestado esse seu sportinguismo.....), tenho algumas dúvidas quanto ao seu perfil para o cargo já que alguém que se rege e se afirma pelos Lamborghinis amarelos em que faz questão de se deslocar não será (julgo eu) sinónimo de capacidade moral/intelectual para liderar homens ou projectos (diz-me com quem andas dir-te-ei quem és) mas, retomando o fio à meada, quanto muito sinónimo de um novo riquismo que em determinadas situações não serão propriamente as mais aconselháveis....... e já agora, com tanta coragem na manga para arrasar na praça pública o seu clube de coração, poderia ter tido uma palavra acerca daquele que finalmente concretizou (durante o seu reinado) o que planeava há muito tempo, o "roubo" do capitão de equipa.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

POR ONDE ANDEI EM 2010 - IV

Retomando os caminhos percorridos em 2010, através dos livros que li, e depois de ter aprendido com Robin Sharma que é impossível progredir na vida se nos agarrarmos ao que já ficou para trás, não quis deixar de conhecer O PAÍS DO MEDO com o espanhol ISAAC ROSA (de óculos, na 2ª. foto) -um país que é um lugar imaginário onde se tornaria realidade tudo o que tememos; os medos actuais e conheci a delinquência, a droga, a falta de princípios nas cidades, etc. etc....

O italiano DINO BUZZATI (na 1ª. foto) mostrou-me O GRANDE RETRATO – e contou-me que o mandaram (a ele engenheiro) para um centro secreto sem lhe dizerem concretamente para fazer o quê, apenas que era uma missão secreta....

Voltei à fala com JOSÉ JORGE LETRIA para ouvir A ÚLTIMA VALSA DE CHOPIN - e deste modo fiquei a conhecer melhor Fréderic Chopin – um Polaco que fez toda a sua carreira fora do seu país, nomeadamente em França (Paris) aonde morreu vítima de tuberculose.

ISABELA FIGUEIREDO recordou-me no CADERNO DE MEMÓRIAS COLONIAIS uma história do colonialismo muito bem retratada, por alguém que nasceu em Moçambique e sentiu o que era ser "retornado" nos tempos revolucionários do PREC-pós 25 de Abril; relembrando que "Manuel deixou o seu coração em África. Também conheço quem lá tenha deixado dois automóveis ligeiros, um veículo todo-o-terreno, uma carrinha de carga, mais uma camioneta, duas vivendas, três maschambas, bem como a conta no Banco Nacional Ultramarino, já convertida em meticais. Quem é que não foi deixando os seus múltiplos corações algures? Eu há muitos anos que o substituí pela aorta." Moçambique e as feridas abertas pelo passado, pela recordação, pela confissão, pelo medo de enfrentar tudo isso de novo. "Ele sentia prazer em viver e gostava de comer, beber e foder, Lourenço Marques, na década de 60 e 70 do século passado, era um largo campo de concentração com odor a caril. Em Lourenço Marques, sentávamo-nos numa bela esplanada, de um requintado ou descontraído restaurante, a qualquer hora do dia, a saborear o melhor uísque com soda e gelo, e a debicar camarões, tal como aqui nos sentamos, à saída do emprego, num snack do Cais do Sodré, forrado a azulejos de segunda, engolindo uma imperial e enjoando tremoços. Os criados eram pretos e nós deixávamos-lhes gorjeta se tivessem mostrado os dentes, sido rápidos no serviço e chamado patrão. Digo nós, porque eu estava lá. Nenhum branco gostava de ser servido por outro branco, até porque ambos antecipavam maior gorjeta. O meu pai, a quem coube a missão de electrificar a Lourenço Marques dos anos 60, nunca quis empregados brancos, porque teria de lhes pagar os olhos da cara."

Vamos a meio do ano e eu a calcorrear o mundo, a conhecer novas terras, novas gentes, feitios, amores, desamores ..... que, para a semana, aqui continuarei a dar-vos a conhecer....

domingo, 30 de janeiro de 2011

OLHARES CRÍTICOS - II

Eis a minha resposta à reflexão do meu amigo P anteriormente publicada:

Caro Amigo CP

Creio que as tuas palavras serão demasiada e perigosamente realistas, talvez até a palavra que mais se adeqúe a este teu pensamento será fundamentalista/realista.

Talvez por isso não queira (não queira, sublinho) estar de acordo contigo, quiçá...

É que, amigo, o homem para viver precisa do sonho, mesmo que utópico, mesmo até proclamando fazer o que, no fundo, até não quererá que aconteça (será hipocrisia a palavra adequada para esta acção?)

Viver sem sonhos, sem utopias, descer à essência das coisas não é fácil. A fantasia ajuda a viver.

Se não fossem os utópicos, se não fossem os sonhadores, se não fossem os revolucionários, os insensatos em que mundo ainda viveríamos?

Relembro as palavras de George Bernard Shaw: O homem sensato adapta-se ao mundo. O homem insensato insiste em tentar adaptar o mundo a si próprio. Portanto, todo o progresso depende de homens insensatos.

Um abraço

Seve

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

OLHARES CRÍTICOS - I

Há dias recebi uma mensagem do meu amigo P (por e'mail - as cartas estão infelizmente a desaparecer....) que me revelava uma das suas reflexões (como ele sublinha).

Esta sua reflexão deixou-me taciturno, pensativo e pôs-me também a reflectir profundamente. Dizia-me ele:

Os ricos que paguem a crise! Malditos ricos....Todos queremos ser ricos

INGÉNUOS vs CÍNICOS

Só na Ásia-Pacífico existe uma população equivalente à da Europa até aos Montes Urais, que vive com 1 €/dia.

São tão pessoas como nós!!! Têm tanta dignidade como nós, apenas são os mais pobres dos pobres. Vamos a uma perfumaria e gastamos, com a maior paz de espírito, num perfume (bem não essencial) o que cada um deles tem para viver num mês.

Se, por um passo de mágica, fosse possível a divisão equitativa da riqueza, os ricos acabavam, mas não era para nós melhorarmos. Era para aqueles milhões de deserdados da sorte.

E, depois, chegaria a nossa vez. Lá se ia o carrinho, as roupas (em abundância) de marca, o perfume, as férias no estrangeiro, as grandes casas, etc. etc...

Aceitávamos?

Afinal, há muita hipocrisia nas nossas boas intenções.

CAIXA DE RESSONÂNCIA

Unidos venceremos! Em frente.

Venceremos o quê?

A nossa sociedade, o nosso bem estar ou, antes do mais, acabar com a exploração dos mais pobres do Mundo, que, afinal, são explorados por todos nós?

Há muita fantasia nas nossas cabeças. Já vai o tempo que o meu empenho revolucionário era admirável, depois vi quanto eram irrealistas, para não dizer ingénuos (falsos?) salvadores.

Genericamente, todos queremos viver o melhor possível, seja a que custo for.
A nossa generosidade fica-se pelo nosso egoísmo.
Pobre dos (verdadeiros e muito) pobres.

Já tive oportunidade de responder a este meu amigo (publicá-la-ei nos próximos dias)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

POR ONDE ANDEI EM 2010 - III

Iniciava-se o 2º.trimestre de 2010 e depois da DERROCADA do Espanhol Ricardo Menendez Salmon – revelava-me JOSÉ SARAMAGO no seu CADERNO Nº. 2, que ainda em 15 de Abril de 2009, "as FARC da Colômbia mantêm há 12 anos, 22 militares acorrentados a árvores"; Esta obra reúne o conjunto de textos que diariamente José Saramago foi escrevendo no seu blog entre Setembro de 2008 e Novembro de 2009. Representa as reflexões, as opiniões, as sugestões, críticas aos mais diversos assuntos e sobre as mais diversas questões.

Deambulei depois com AFONSO CRUZ que, tal como o seu pai, Vivaldo Bonfim, adora ler e deixa, no sótão da sua casa, uma bela biblioteca a seu filho que tem o mesmo apelido Bonfim, este herda o vício do pai e, com os LIVROS QUE DEVORARAM O MEU PAI, viaja pelos livros visitando o mundo dalguns livros que o pai adorou (Crime e Castigo de Dostoievsk, a Ilha do Tesouro, de Stevenson, etc.).

Visitei depois a agitada Lisboa de 1808 e fui tomar O PEQUENO ALMOÇO DO SARGENTO BEAUCHAMP, com VASCO DA GRAÇA MOURA (na 2ª. foto), que me contou uma história passada no tempo das Invasões Francesas, mais precisamente durante a primeira invasão francesa, na confusa situação gerada pela presença das tropas napoleónicas em Portugal. A vida, os amores e os projectos de futuro de Jacinto Negrão Bezerra de Albuquerque numa rápida sucessão de peripécias cujo encadeamento acaba por levar a um desfecho inexorável.

Com JOSÉ JORGE LETRIA mantivemos umas CONVERSAS COM LETRAS, mantendo uma série conversas com vários escritores portugueses.

Abril águas mil e é nesta altura que o norte-americano ROBIN SHARMA me relembra no seu LIVRO DA SORTE E DO SUCESSO que as melhores coisas da vida requerem paciência, concentração e sacrifício e que nem uma única vida grandiosa foi constituída sobre uma base de desculpas, por isso paremos de as inventar.

Vou retemperar forças e ganhar coragem para vos dar a conhecer um lugar imaginário onde tive oportunidade de conviver com os medos actuais e a falta de princípios nas cidades.

domingo, 16 de janeiro de 2011

POR ONDE ANDEI EM 2010 - II

Retomo o balanço das minhas leituras de 2010 e, por isso mesmo, relembro as minhas andanças por novos mundos, conhecendo novas gentes.

Ainda no Brasil, já depois de ter andado n O RASTRO DO JAGUAR, como vos contei no meu primeiro relato de 5 do corrente, conheci, através dos seus textos no PIF-PAF, o grande humorista MILLÔR FERNANDES que me ensinou que em geral o cabelo fica branco mais depressa do que o bigode porque o bigode é vinte anos mais novo.

Viajei depois para os EUA e, com PHILP ROTH, maravilhei-me com a sua INDIGNAÇÃO. Este grande autor norte-americano relata a curta vida de um filho único de um casal dono de um talho; vai para a Universidade, é um rebelde que apenas pensa em estudar desprezando tudo e dedicando-se inteiramente aos seus estudos, é um bom filho, mas é mobilizado para a guerra da Coreia (1952) e aí morre com 22 anos. Uma vida curta mas absolutamente arrebatadora.

DULCE DE SOUSA GONÇALVES revela-me a sua angústia e a sua vida nos últimos sete anos de vida do seu pai - doente de Alzheimer através da AUSÊNCIA-DIÁRIO DE UMA FILHA DOENTE DE ALZHEIMER.

UMBERTO ECO (com óculos e de chapéu), reconhecido escritor italiano e JEAN-CLAUDE CARRIÉRE argumentista ligado ao cinema, deixam-me ouvir com A OBSESSÃO DO FOGO uma bela conversa entre os dois sobre a magia dos livros e é através deles que fico a saber que foram provavelmente impressas duzentas a trezentas Bíblias de Gutenberg. Hoje sobrevivem quarenta e oito, doze delas em velino (pele de vitela que, depois de preparada, imita o pergaminho).

Aspectos bem interessantes da guerra civil espanhola é-me contada pelo JOSÉ VIALE MOUTINHO com as CENAS DA VIDA DE UM MINOTAURO.

RAYMOND CARVER, escritor norte-americano que morreu cedo com 50 anos, alcoólico, conta-me, através DE QUE FALAMOS QUANDO FALAMOS DE AMOR, uma série de histórias bem interessantes.

Com este jovem e grande escritor norte americano PAUL AUSTER, conheci MR VERTIGO, em que Walt, um órfão adoptado por dois tios, que o tratam abaixo de cão, é depois adoptado por um mestre que o treina na levitação e faz dele uma vedeta nesta arte

Assisti à DERROCADA depois de RICARDO MENENDÉZ SALMÓN me ter confessado, em 2009, uma grande OFENSA; esta Derrocada foi uma desilusão, depois de tanto ter prometido com a tal Ofensa.

E, com esta DERROCADA, fico-me hoje por aqui, esperando, dentro de dias, continuar a contar-vos por onde andei e quem conheci em 2010.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O COMBOIO DAS 8H22

Morávamos na mesma rua (Pedro Franco), da mesma cidade (Amadora), trabalhávamos todos na baixa de Lisboa, estudávamos (à noite) na mesma escola (do Cacém), tinhamos a mesma idade -16 anos-!

Logo pela manhã apanhávamos o mesmo comboio (das 8h22) para irmos trabalhar, era o comboio da juventude, quase toda a carruagem (a segunda da frente) era lotada por rapazes e raparigas tão jovens como nós, na plenitude da vida.
A alegria de viver morava em todos nós, apesar das dificuldades que a todos era comum, os tostões eram contados até ao último mas o mundo abria-se aos nossos sonhos, pelo que a nossa alegria era uma constante, uma alegria sã, inocente e do tamanho do mundo que era nosso.

Veio o serviço militar e fomos às nossas vidas, os anos passaram e nunca mais nos vimos e só agora, passados talvez mais de trinta anos o voltámos (eu-Severino e o Kim) a encontrar, o nosso amigo Carlos Domingues, a quem sempre carinhosamente chamámos Grila. Naquele tempo o Carlos tinha alguma dificuldade em soletrar a palavra que usava muitas vezes para tratar o Kim-puto reguila, e em vez de reguila dizia grila, e daí o epíteto de Grila.

Foi no nosso encontro anual, que todos os anos realizamos no segundo sábado de cada ano. Este encontro reúne muitos dos amigos que viveram a mesma infância/juventude, e finalmente o Grila esteve presente.

Foi um reviver de emoções, um recordar de momentos inesquecíveis da nossa juventude, partidas que fizemos uns aos outros, cenas que nunca mais esqueceremos e que sabe tão bem recordar, uma juventude que vivemos tão sadiamente e tão feliz apesar de todos os contratempos que, na altura, existiam, mas todos os dias a felicidade viajava na segunda carruagem do comboio das oito e vinte dois.......

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

POR ONDE ANDEI EM 2010 - I

Um novo ano começa; para todos um bom, muito bom 2011.

É tempo de balanços e é isso que me apresto a fazer, relativamente a 2010 - por onde andei, com quem andei, o que vivi, o que passei, quem conheci, e por aí adiante, o que mais se verá.........através dos livros que li:

Iniciei em Janeiro uma viagem, por terra, de Lisboa a Viena de Áustria no dorso do elefante Salomão, que veio da Índia e esteve em Portugal apenas 2 anos, quando D.João III resolveu oferecê-lo ao seu primo Maximiliano da Áustria. E assim, em 1550, por essa Europa fora iniciei A VIAGEM DO ELEFANTE, sempre guiado por JOSÉ SARAMAGO.

Passeei depois, nos tempos actuais, por terras norte-americanas com a Srª. ABIGAIL THOMAS vivendo, em Woodstock, Nova Iorque, UMA VIDA E TRÊS CÃES, e conhecendo por eles a lealdade, o amor incondicional e o carinho.

Ainda, nos EUA, conheci ROBIN SHARMA que me ensinou a SER MESTRE NA ARTE DE VIVER, e entre outras coisas depreendi que a arte de viver consiste em conseguir que até os agentes funerários lamentem a tua morte.

Conheci a Espanha de 1940, com CARMEN LAFORET, e vivi NADA.

Viajei depois para a América Central, a um país (República Dominicana) e a um tempo de ditadura (Trujilo) com JUNOT DIAZ tendo vivido A BREVE E ASSOMBROSA VIDA DE OSCAR WAO.

Para retemperar forças, fechei-me depois numa biblioteca aonde, com SAM SAVAGE, conheci o rato FIRMIN, com quem viajei no espaço e no tempo, através dos livros. Firmin era o 13º. filho de uma ratazana alcoólica que só tinha 12 tetas e que, tal como os irmãos, nasceu no sótão de um alfarrabista. Como Firmin era o mais fraco de todos os irmãos não chegava às tetas da mãe. Assim se safou do alcoolismo e, para sobreviver, começou a comer livros, tornando-se um rato culto.....

MARIA ANTÓNIA OLIVEIRA, apresentou-me um grande português, escritor, poeta, tradutor, publicitário, misterioso e sei lá que mais, ALEXANDRE O'NEILL (há mar e mar, há ir e voltar....), numa bela BIOGRAFIA LITERÁRIA e que me confidenciou; "bebo normalmente às refeições e fora das refeições".

Tomei contacto com a actual sociedade russa, fiquei a saber que o avô de Vladimir Putin (será um terrestre?) foi cozinheiro de Estaline e viajei ainda por mares profundos no submarino russo KURSK-O ROMANCE DE UMA EXECUÇÃO, com MARK DUGAIN, tendo assistido a uma tragédia absolutamente arrepiante em que 119 marinheiros russos ficaram encarcerados/blindados numa morte lenta e atroz.

Ainda nos primeiros meses deste ano de 2010, através da PIMENTA DA ÍNDIA, com ANA MARGARIDA DE OLIVEIRA, consegui viver simultaneamente em duas épocas - na época dos descobrimentos, no séc. XVI, em que vivi uma extenuante, perigosa mas inesquecível viagem marítima da Índia para Portugal, numa bela caravela portuguesa, carregada de especiarias, tendo assistido ao seu naufrágio ao largo dos Açores, e na época actual em que vivi a vida actual de duas pessoas casadas que se envolvem e que vão aos Açores à procura dum documento perdido pelo referido navio naufragado.

FRANCIS AMALFI levou-me à A OFICINA DOS ESCRITORES, uma oficina aonde conheci muitos escritores portugueses e estrangeiros, tendo, ao mesmo tempo, tomado conhecimento de algum do seu trabalho através das suas notáveis frases e máximas inesquecíveis; por exemplo George Bernard Shaw revelou-me que o homem sensato adapta-se ao mundo. O homem insensato persiste em tentar adaptar o mundo a si próprio. Portanto, todo o progresso depende do homem insensato.

Finalmente, no séc. XVIII, ainda antes do grito do Ipiranga, viajei pelo imenso e misterioso Brasil n O RASTRO DO JAGUAR , com MURILO CARVALHO, em que fiquei a conhecer a história de Pierre um índio guarani brasileiro que aos 2 anos foi trazido por um biólogo francês para Paris e ali foi criado e ali estudou e se formou, tendo ainda servido no exército francês; aos 21 anos decide voltar ao Brasil para procurar as suas origens. Conheci ainda e muito bem o que foi a colonização do Brasil, nomeadamente dos índios guaranis pelos portugueses e até pelos próprios brasileiros.

Foi um começo de ano de grandes viagens, em que conheci os mais belos, estranhos e misteriosos seres humanos, outras civilizações, outros povos, vivi aventuras e romances inequecíveis, conheci e vivi os tempos áureos dos portugueses no séc. XVI e preparei-me (em terra) para fazer mais viagens, para conhecer novas pessoas, novas gentes, novos usos e costumes, outros tempos passados e futuros, que, na próxima semana, vos continuarei a revelar.